Notícia

Jornal da USP

A nova face da ciência

Publicado em 01 maio 2011

Por Caio Albuquerque

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) apoia, na modalidade Novas Fronteiras, a realização de estágios de longa duração em centros de excelência no exterior. A proposta é qualificar pesquisadores em áreas de pesquisa ainda não bem implantadas no Estado de São Paulo. Mateus Mondin, professor do Departamento de Genética (LGN), da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (USP/ESALQ), é um dos beneficiários desse projeto. Atualmente em Leicester (164 km ao norte de Londres), Mondin desenvolve, na University of Leicester, pesquisas sobre organização do genoma a partir de dados de seqüenciamento genético e da análise de componentes epigenéticos. Em entrevista concedida via internet, o professor do LGN conta um pouco da sua permanência na Inglaterra.

Jornal da USP - Situe a University of Leicester e conte-nos como foi sua escolha pela Inglaterra?

Mateus Mondin - A University of Leicester (http://www2.le.ac.uk/) era uma universidade bem desconhecida há algum tempo atrás, mas nos últimos 10 anos deu um grande salto em qualidade, recebeu inúmero prêmios da Times Higher Education (http://www.timeshighereducation.co.uk/) e hoje já está entre as maiores universidades da Inglaterra. Eu tinha um bom contato com o professor Heslop-Harrison por conta de uma parceria anterior entre ele e a Profa. Margarida Aguiar-Perecin, ainda quando eu era aluno e foi quando nos conhecemos. Na época ele era chefe de um grupo de pesquisa no John Innes Centre, mas depois de mudou-se para a University of Leicester; isso há pouco mais de uma década e depois de muitos encontros, contatos e ideias, ele me convidou para passar este período aqui com eles. Minha posição aqui é de Academic Visitor Fellow.

JUSP - Em qual linha de pesquisa atua o professor Heslop-Harrison?

Mondin - O foco do grupo é na organização de genomas a partir do mapeamento de sequências de DNA via FISH (Fluorescent In Situ Hibridization), que é a única técnica que permite ver o DNA diretamente nos cromossomos. Eles tem grande interesse principalmente na variabilidade que há entre os genomas de plantas cultivadas, mas também estudam animais. Trabalham juntos no grupo de pesquisa (http://www.le.ac.uk/biology/phh4/index.htm) ele e sua esposa, a pesquisadora Dra. Trude Schwarzacher, que também é professora da universidade. Além disso, ele é o editor-chefe do Annals of Botany e um dos editores da Chromosome Research e da Theoretical and Applied Genetics entre outros periódicos e ela é uma das editoras da Genome, ou seja, uma boa parte do que acontece em termos de genética vegetal, genômica e citogenética (que eles chamam de Chromosome Biology) passa por aqui.

JUSP - Especificamente, qual é o projeto que estão desenvolvendo?

Mondin - Estamos trabalhando em um projeto bastante longo sobre as sequências de DNA que estão presentes no centrômero, mas que também aparecem em outras partes dos cromossomos, mas o nosso negócio são as centroméricas. Estas sequências de DNA são chamadas de repetitivas e não codificam genes, entretanto, são fundamentais para a estrutura e funcionamentos do genoma e dos cromossomos. Na região telomérica este tipo de sequência protege os cromossomos e no centrômero estas sequências repetitivas organizam esta estrutura responsável pela divisão celular e a transmissão do material genético. O problema é que ninguém entende como o centrômero se organiza e funciona, pois este DNA repetitivo é muito variável entre as espécies e somente alguns fatores epigenéticos que fazem parte do centrômero é que são conservados entre as espécies, mas não suficientes para explicar a sua estrutura e funcionamento de maneira universal.

JUSP - Para o melhoramento genético é fundamental entender como o centrômero funciona?

Mondin - Exato. Assim conseguiremos manipular melhor os programas de introgressão de genes e entender o porque que as vezes alguns cruzamentos não funcionam do ponto de vista da divisão celular ou de conflitos genômicos. No meu caso, o trabalho pretende entender de maneira geral como estas sequências de DNA repetitivo evoluíram e como montá-las na ordem correta no genoma. Como este material é muito monótono, os projetos genomas evitam estas sequências, então um genoma sequenciado por completo de verdade não existe, por ninguém consegue colocar estas peças no lugar. É um luta indescritível conseguir ordenar estas sequências nos cromossomos e ter certeza que elas estão no lugar certo, mas aos poucos vamos dando alguns passos, digo ao redor do mundo todo, não só do meu projeto.

JUSP - Com que material você trabalha?

Mondin - Para fazer este trabalho estou utilizando uma espécie de alfafa, chamada cientificamente de Medicago truncatula; pois é uma espécie modelo e o sequenciamento do seu genoma está em curso. Analiso as sequências repetitivas do genoma desta espécie com ferramentas de bioinformática, moleculares e citogenéticas e esta última é que me permite ver exatamente onde o DNA se encontra no cromossomo, como disse anteriormente, a FISH; além disso, estamos analisando os componentes epigenéticos que era algo que já fazia no Brasil e que foi o motivo do convite, justamente por sabermos trabalhar com estas técnicas.

JUSP - Os estudos desenvolvidos na Inglaterra poderão adaptar-se às culturas agrícolas brasileiras?

Mondin - Perfeitamente. Estamos colaborando em análises genômicas do sequenciamento da banana, e de espécies de brassicas, por aqui. No Brasil já temos uma parceria com pimenteira-do-reino com a EMBRAPA e estamos aguardando a aprovação de um projeto com castanheira do Pará e ainda colaboramos com projetos em feijão fava, eucaliptos e algodão. Todos estes projetos trabalham com questões muito aplicadas ao melhoramento, ou seja, estamos saindo da teoria para o campo propriamente dito.

JUSP - Mas o estudo dos cromossomos é visto de forma bastante teórica?

Mondin - Sim, e é fundamental que continue, pois há muitas questões básicas para serem respondidas. Apesar de estar fazendo todos estes projetos aplicados, tenho sempre uma linha teórica em paralelo. Por exemplo, como há uma corrida para a determinação da estrutura do centrômero, também estamos trabalhando no desenvolvimento de um modelo, o que é verdadeiramente entusiasmante e nos envolve demais, o mais legal é que certamente testaremos em vários sistemas como Arabidopsis, arroz e trigo.

JUSP - Os resultados de pesquisa serão publicados?

Mondin - Agora estou escrevendo o primeiro artigo científico sobre as sequências repetitivas. Como o pessoal aqui é editor de vários periódicos, tenho a chance de conhecer melhor o processo editorial de periódicos de alto impacto, principalmente a redação dos artigos, que é fundamental para mim. Com isso, também tenho tido a chance de discutir a ciência de maneira geral. Este ambiente intelectual é muito motivador. Recentemente, fui convidado para escrever uma análise (http://aobblog.com/2011/03/the-new-face-of-science-in-the-world/) para o Blog do Annals of Botany, onde tratei da nova face da ciência ao analisar um relatório publicado pela Royal Society (http://royalsociety.org/policy/reports/knowledge-networks-nations/) que afirma que mais de um terço de todos os artigos publicados em revistas internacionais são produzidos de forma colaborativa entre pesquisadores de vários países.

JUSP - E você concorda com essa afirmação?

Mondin - participação global não é equitativa. Apesar do crescimento da China, Índia, Brasil e outros países emergentes, a participação desses países nos grandes projetos e o impacto de suas pesquisas ainda são tímidos. Países do G7 e a sua rede de pesquisadores fazem a maioria dos trabalhos publicados no reconhecido universo das revistas de alto impacto.

Como podemos então incluir Brasil, China e outros países nessa rede?

Um bom exemplo de inclusão é a parceria firmada entre a Fapesp e os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK - http://www.rcuk.ac.uk/Pages/Home.aspx), que assinaram um memorando de intenções, dizendo que projetos de investigação conjuntos serão financiados por ambas as agências de fomento, facilitando a execução de projetos colaborativos. Este tipo de convênio é fundamental, como o relatório aponta e não podemos ficar de fora.