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A nova ciência do Brasil, artigo de Carlos Henrique de Brito Cruz

Publicado em 24 julho 2000

O autor é presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp) e diretor do Instituto de Física da Unicamp. Este artigo saiu no caderno "Mais!" da "Folha de SP" deste domingo: A atividade científica no Brasil está passando por notável transição. De atividade artesanal, que obteve grandes sucessos realizados por uns poucos abnegados e com pouco apoio estatal ou privado, a pratica científica tem se tornado algo muito mais estruturado e profissional. O apoio estatal à pós-graduação, intensificado especialmente depois de 86, permitiu um aumento sem precedentes no numero de cientistas capacitados. A formação de uma comunidade científica bem qualificada e com elevados referenciais acadêmicos criou as condições para que, nas boas Universidades, grupos de excelência fossem implantados. A existência de uma massa critica de pesquisadores em varias áreas do conhecimento tem permitido que iniciativas ousadas, como o Projeto Genoma, liderado pela Fapesp no Estado de SP, tenham sucesso amplamente reconhecido. O sucesso do Projeto Genoma Fapesp é importante e especialmente visível. Mas há varias outras iniciativas empreendidas por cientistas e engenheiros brasileiros com excelentes resultados. Exemplo é a atividade da Embrapa na ciência e na tecnologia aplicadas à agricultura e à pecuária, marcada por contribuições de impacto à ciência e à economia brasileiras, como a transformação da agricultura da soja em um empreendimento intensamente tecnológico e muito bem-sucedido. Outro ótimo exemplo é o fato de que, pela primeira vez na historia brasileira, o principal item da pauta de exportações seja de alto valor agregado: os aviões a jato projetados e fabricados pela Embraer. A capacitação científica estruturalmente sólida se reflete intensamente nesses projetos, que exigem uma massa crítica de pesquisadores qualificados. Alem disso, permite que novos desafios mais sofisticados sejam enfrentados, como é o caso do Projeto Biota/Fapesp, no qual uma extensa equipe de pesquisadores de vários laboratórios estuda e mapeia a biodiversidade existente no Estado de SP. A forca estrutural torna o trabalho em equipe, sempre tão desejado, possível e eficaz. Essas realizações não acontecem por acidente. Resultam de um esforço continuo e cumulativo de educação com padrões elevados de excelência durante décadas e décadas. Ciência e tecnologia são atividades especialmente sensíveis à acumulação de conhecimentos e à formação de grande quantidade de pessoas capazes de gerá-los. Esses exemplos (e vários outros que podem ser lembrados, como a ciência e a tecnologia para comunicações ópticas, centrais telefônicas, extração de petróleo em águas profundas) se alinham também com indicadores estatísticos muito positivos. A produção científica brasileira quintuplicou em relação à media da década de 80, e a presença da ciência feita no Brasil cresceu internacionalmente. Em 99, formamos quase 5 mil doutores. A pós-graduação evoluiu também qualitativamente, dados o aumento na quantidade de docentes doutores e o sistema de avaliação implementado pela Capes. Em todas as áreas do conhecimento, esse crescimento quantitativo e qualitativo tem se verificado. Por exemplo, no Estado de SP, o crescimento da qualificação permitiu que o investimento feito pela Fapesp na área de ciências humanas e sociais crescesse do valor de R$ 17 milhões em 95 para R$ 41 milhões em 98. Temos, sim, uma comunidade científica capacitada e motivada. Vencendo obstáculos de varias naturezas, alem de contribuir para o avanço do conhecimento humano com trabalhos cada vez mais qualificados e mais reconhecidos internacionalmente, essa comunidade científica tem contribuído para transformar a capacidade de gerar conhecimento em riqueza e desenvolvimento econômico e social para o país. A capacidade de transformar conhecimento em riqueza e desenvolvimento social é talvez o ponto mais fraco do atual estágio do desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil. As crônicas dificuldades de natureza macroeconomia tem impedido que a empresa no Brasil possa dar a atenção que deveria, e precisaria, ao desenvolvimento de sua capacidade própria para gerar conhecimento e agregá-lo a suas atividades. A instabilidade econômica, os juros elevados e a estrutura tributaria tem sido alguns dos elementos que, em nosso pais, desestimulam o investimento privado em uma atividade de risco e de longo tempo de maturação, como pesquisa e desenvolvimento. Os órgãos de governo apenas começam a atentar para a importância da ciência para o estabelecimento de políticas públicas efetivas. Mesmo com o desenvolvimento de interações entre empresa e Universidade, que são hoje muito mais intensas do que há 10 ou 20 anos, a empresa ainda desenvolveu pouco a sua capacidade interna para a P&D. Temos mais de 70% dos nossos cientistas trabalhando em ambiente acadêmico, enquanto nos países mais desenvolvidos a maior parte dos cientistas trabalha em empresas. Há muitos outros desafios e oportunidades à frente. A recente proposta criada pelo MCT para os fundos setoriais é novidade a destacar. Com imaginação e conhecimento sobre as mudanças em curso no país, o ministério soube aproveitar uma oportunidade e a está convertendo em importante reforço ao financiamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento. O aporte previsto de mais de R$ 1 bilhão elevará esse investimento estatal da casa dos 0,5% do PIB para 0,6% ou 0,7%. Trata-se de crescimento expressivo, que colocará os gastos estatais em pesquisa e desenvolvimento em um nível comparável ao de países mais desenvolvidos (na Alemanha, o investimento estatal é de 0,8% do PIB; nos EUA, 0,9%; na Correia do Sul, 0,7%). Mas, mais do que isso, os recursos associados aos fundos podem ter um caráter de estabilidade previamente desconhecido no financiamento à pesquisa e ao desenvolvimento com recursos federais. Para defender a maximização do impacto desses fundos na ciência e na tecnologia brasileiras, é essencial o envolvimento da comunidade científica em seu planejamento, detalhamento e operação, como tem defendido e praticado a SBPC, outras associações profissionais e também a Academia Brasileira de Ciências. Tudo parece indicar que o MCT está aberto a essa participação. Ao mesmo tempo, é preciso que evitemos a disjuntiva paralisante e limitante que opõe a pesquisa fundamental à pesquisa aplicada. Mais do que nunca, é preciso lembrar as palavras atribuídas a Louis Pasteur: "Não existe ciência aplicada, mas somente aplicações da ciência". O objetivo de aliar ao expressivo desenvolvimento da capacidade nacional de fazer ciência a capacidade para fazer tecnologia - e, assim, desenvolvimento econômico e social - não pode prescindir do forte apoio à ciência fundamental. Pelo contrário; especialmente nos dias de hoje, requer o desenvolvimento mais acelerado da capacidade de gerar ciência fundamental: justamente aquele conhecimento que gera mais conhecimento. O reconhecimento do valor do conhecimento não deve ser confundido com um posicionamento de caráter utilitarista sobre a ciência e também sobre a Universidade. O papel singular da Universidade como instituição educacional formadora de "geradores de conhecimento" não pode ser minimizado, e esse destaque é especialmente importante em uma época em que há uma enorme tendência de valorar a Universidade pela intensidade de suas relações com as empresas. Esse não pode e não deve ser o critério essencial, visto que reduz infinitamente a amplitude do compromisso da Universidade com a sociedade. Reconhecer o valor do conhecimento na sociedade moderna implica, isso sim, a valorização da Universidade como ambiente formador, instituição de horizontes amplos, preservadora e defensora da diversidade e desenvolvedora das varias formas de conhecimento, das humanidades e das artes ate* as aplicações da biologia molecular e da física. Cada vez, mais a informação perde valor, à medida que o acesso a ela se torna mais e mais disseminado. Por outro lado, o verdadeiro valor esta cada vez mais na capacidade de extrair, do oceano de informações a que temos acesso, aquela que, trabalhada e processada, pode ser transformada em conhecimento novo. Allan Greenspan, presidente do Banco Central dos EUA, tem destacado o valor do conhecimento para o crescimento econômico em seu país e, em um discurso recente, definiu a Universidade como o local onde os jovens são levados a transformar habilidade e inteligência em sabedoria. Em "O Quadrante de Pasteur" (Pasteur's Quadrant: Basic Science and Technological Innovation, Washington, DC, Brookings Institution Press, 1997), Donald Stokes aponta a inefetividade de classificações do conhecimento entre as categorias mutuamente exclusivas do conhecimento fundamental e do conhecimento aplicado. Ao contrário, seguindo os ensinamentos de Francis Bacon e de Pasteur, Stokes reconhece a utilidade (em um sentido amplo) imanente do conhecimento. E destaca que, em vez de categorias mutuamente exclusivas, devem-se usar categorias que admitam certo grau de mistura e composição. Assim, ele define um plano, estabelecendo dois eixos: um, o da relevância para o avanço do conhecimento, e outro, o da relevância para aplicações a curto e a médio prazos, sendo as duas relevâncias avaliadas no momento da proposição ou do inicio do projeto. Dessa maneira, podem-se classificar as contribuições ao conhecimento de acordo com o quadrante em que se situam. No quadrante da alta relevância a curto e a médio prazos, mas de limitado impacto para o avanço do conhecimento, coloca inventores importantes como Thomas Edison, cuja obra se voltou mais para os aspectos práticos. No quadrante da alta relevância para o avanço do conhecimento universal, mas de limitado impacto pratico (pelo menos no momento da descoberta), coloca Niels Bohr, um dos artífices da física quântica. E, no quadrante da alta relevância para o avanço do conhecimento e para as aplicações imediatas, coloca Pasteur, que criou a ciência da microbiologia ao estudar problemas de fermentação na fabricação de bebidas alcoólicas. Sem prejuízo da importância dos quadrantes de Bohr e de Edison, o quadrante de Pasteur é especialmente fascinante, mais ainda neste momento em que o conhecimento é reconhecido como uma condição essencial para o desenvolvimento. Sem ceder ao imediatismo restritivo, o reconhecimento de que a ciência pode ser ao mesmo tempo fundamental e aplicada é essencial para que se possam planejar políticas nacionais para C&. Especialmente quando todos reconhecemos o papel mais do que nunca essencial do conhecimento como insumo indispensável para o desenvolvimento econômico e social. (Folha de SP, Mais!, 23/7) FAPESP DEFENDE PATENTE DE GENES Simone Bihehler Mateos escreve para "O Estado de SP": As duas instituições que financiam o Projeto Genoma brasileiro manifestaram-se ontem formalmente contrarias ao patenteamento de fragmentos de genes (amplamente praticado nos EUA), mas favoráveis às patentes de seqüências completas de genes, desde que quem as reivindique aponte uma aplicação clara para esses genes. Para isso, é necessário conhecer não só a ordem das "letras" da receita genética humana, como também a função do gene. A posição, assumida pela Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp) e pelo Instituto Ludwig, vai contra a legislação nacional (o Brasil não permite o patenteamento de genes), mas coincide com a posição assumida pelo presidente dos EUA, Bill Clinton, e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em declaração feita em marco. O tema foi discutido ontem durante entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes, na qual o governador Mário Covas e os dirigentes das duas instituições anunciaram a ampliação do Projeto Genoma Câncer, antecipada pelo Estado. O projeto estuda os genes dos tumores mais freqüentes no Brasil e já produziu 500 mil seqüências genéticas, numero que deve dobrar até o fim do ano. Cerca de 270 mil dessas seqüências já são de domínio publico para outros pesquisadores. A questão das patentes é de vital interesse para a indústria farmacêutica, já que a pesquisa genética é essencial para o desenvolvimento de drogas de ultima geração. No ultimo Congresso Internacional de Bioética, realizado recentemente na Tailândia, foi aprovada moção contra o patenteamento de genes, comparado ao patenteamento de doenças ou de seus agentes causadores. O encontro avaliou que essa prática inibe a concorrência para o desenvolvimento de drogas a partir dos conhecimentos dos genes, razão pela qual recomendou-se que apenas as drogas ou outras invenções baseadas em genes possam ser patenteadas. Já a Fapesp e Instituto Ludwig avaliam que poder patentear genes para usos concretos é essencial para estimular o desenvolvimento industrial de tecnologias baseadas nesses genes. O presidente do Hospital do Câncer, Ricardo Brentani, comparou o caso á penicilina: "Foi inventada no inicio dos anos 40, mas como seu inventor não quis patenteá-la, ninguém se interessou em fabricá-la até a 2ª Guerra Mundial." "É importante discutir e unificar internacionalmente as regras porque enquanto alguém puder patentear, não tem sentido nos não fazermos, porque estaremos fazendo papel de bobos", destacou o presidente da Fapesp, Carlos de Brito Cruz. A Fapesp já solicitou o patenteamento nos EUA de nove genes da bactéria Xylella fastidiosa, seqüenciada no Brasil, relacionados á síntese de uma substancia de grande interesse para a indústria farmacêutica. (O Estado de SP, 22/7) SEQÜENCIAMENTO RECORDE: FAPESP FINANCIA COM SUCESSO O SEGUNDO BANCO DE DADOS DE GENES HUMANOS Fernando Lima escreve de SP para "O Estado de SP": O projeto brasileiro Genoma Humano do Câncer conseguiu seqüenciar 500 mil pedaços do DNA relacionados com os tumores mais comuns no país, dos quais 270 mil foram colocados à disposição da comunidade científica internacional. E a nova meta é chegar a um milhão de seqüências até o fim deste ano, dando mais rapidez e acuidade ao diagnostico precoce do câncer. Até dezembro, o governo do estado de SP terá destinado US$ 20 milhões ao projeto. O anuncio da ampliação da verba e um balanço do projeto foi feito ontem pelo governador Mário Covas no Palácio dos Bandeirantes. "O sucesso obtido em SP reflete em todo o país, não é uma vitória individual", destacou Covas. "É um projeto de dimensões ética e humana, de interesse comum a toda a sociedade." A pesquisa, financiada pela Fapesp e pelo Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, já recebeu o equivalente a US$ 15 milhões, desde marco de 99. Até dezembro serão liberados mais US$ 5 milhões. O trabalho vem sendo realizado por cientistas da Organização para Seqüenciamento e Analise de Nucleotideos (Onsa), um instituto virtual de genômica estruturado pela Fapesp. A rede reúne cerca de 60 laboratórios ligados a institutos e Universidades paulistas. "O compromisso do projeto é disponibilizar as seqüências de forma rápida e continua para maximizar os benefícios para a humanidade", ressaltou o presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz. A combinação de dados produzidos pelo Genoma Câncer no Brasil com os de outros projetos permitirá a identificação da estrutura da maioria dos genes humanos associados ao câncer. "No futuro, poderemos prever o comportamento clinico do tumor, fazer um diagnostico e indicar o tratamento adequado para quem já tem a doença", afirmou Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma Humano do Câncer. O passo seguinte será a criação de dois bancos de clones, que vão tornar disponíveis cópias das seqüências identificadas para um número maior de cientistas possa estudar suas funções. Também estão previstos os lançamentos do Genoma Clinico do Câncer, para analise dos genes associados à doença, e do Genoma Estrutural, que abrangerá o estudo da estrutura e da ração de proteínas sintetizadas em células de tumores de câncer. Nestes dois casos, elabora-se o tratamento e a terapia mais adequados para cada paciente. O Brasil já é o segundo colocado no ranking dos países que mais seqüenciaram fragmentos de genes relacionados ao câncer. Através do Genoma Câncer, já foi possível identificar 100 novos genes no cromossomo 22, onde a comunidade científica internacional tinha localizado cerca de 500. As 500 mil seqüências deve-se à aplicação da tecnologia Orestes em tecidos retirados de tumores cancerosos. A metodologia consiste, inicialmente, no Seqüenciamento da parte central dos genes, onde está concentrada a informação relevante para a síntese de proteínas. "A maior contribuição brasileira esta1 relacionada aos tumores de cabeça e pescoço, que passaram de 3 mil seqüências para 100 mil, e aos de mama e cólon (intestino)", disse Ricardo Brentani, do Hospital do Câncer e do Instituto Ludwig. Todas as seqüências serão depositadas no maior banco publico internacional, o GenBank, possibilitando identificar os genes humanos, e que poderá ser consultada por toda a comunidade cientifica. Os fragmentos de genes não devem receber a proteção de patentes por serem informações em estado bruto, no entendimento da Fapesp e do Instituto Ludwig. "Apenas quando se puder apontar uma aplicação precisa para o Seqüenciamento, é que se deve fazer a patente", afirmou Brentani. (Jornal do Brasil, 22/7) BRASIL TERÁ GENOMA DO CÂNCER DE MAMA Isabel Gerhardt escreve para a "Folha de SP": O Brasil deve ser o primeiro país do mundo a conhecer todos os genes que estão ativos em um tumor maligno. No caso, no tumor de mama. Esse conhecimento abrira1 portas para diagnósticos mais precisos e novas formas de tratamento da doença. "A perspectiva é que tenhamos o transcriptoma (conjunto de genes que a célula usa para fabricar proteínas) do tumor de mama até o final do ano. Estamos caminhando lado a lado com os norte-americanos", disse à "Folha de SP" Ricardo Brentani, presidente do Hospital do Câncer e do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, que financia o Projeto Genoma Humano do Câncer, junto com a Fapesp. A informação foi dada ontem, após entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes, quando as lideranças da Fapesp e do Instituto Ludwig e o governador Mário Covas anunciaram os avanços e os novos investimentos que estão sendo realizados na pesquisa. Segundo os coordenadores do projeto, o Brasil hoje é o segundo país produtor de seqüências de genes expressos em tumores, tendo aumentado em cerca de 300% o numero mundial de seqüências disponíveis de tumores de mama. Desde seu inicio, em marco de 99, o projeto Genoma Humano do Câncer já produziu 500 mil pedaços de seqüências de genes humanos expressos nos tumores mais comuns no Brasil (mama, intestino, estômago, cabeça e pescoço). Desse total, cerca de 270 mil já estão depositados no GenBank (banco de dados que armazena as seqüências de DNA produzidas no mundo todo). O genoma é o conjunto de genes, de seqüências de DNA que regulam seu funcionamento e de seqüências de função desconhecida. O transcriptoma corresponde àqueles genes ativos, que estão "dando ordens" para a produção de proteínas nas células (veja quadro ao lado). Dai sua importância. Segundo Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma Humano do Câncer, o genoma não faz nada, apenas contem informação. Quem faz tudo nas células são as proteínas. E quem faz o caminho da informação do genoma até as proteínas é o RNA, as moléculas-alvo no estudo do projeto brasileiro. Do total obtido das seqüências de genes expressos, Simpson espera conseguir 2 mil genes completos. Esses é que terão direito à proteção da propriedade intelectual, caso sejam inéditos e tenham sua função determinada pelos pesquisadores brasileiros. TORCEDOR DE COPA DO MUNDO Os bons resultados estimularam maior investimento por parte da Fapesp e do Instituto Ludwig, dobrando o capital inicialmente destinado ao projeto, cujo total pode chegar a US$ 20 milhões. Ao cumprimentar o Projeto Genoma Humano do Câncer pelos resultados, o governador Mário Covas disse que se sente como um torcedor "que comemora a vitória na Copa do Mundo como se tivesse participado do time". (Folha de SP, 22/7) PROJETO É VISTO COM ENTUSIASMO NOS EUA Há um brasileiro no comitê internacional que monitora o Projeto Genoma Humano do Câncer: o geneticista Bento Soares, professor da Universidade de Iowa, nos EUA. Dois outros membros são dos EUA; o quarto é do Reino Unido. Soares trabalha no Câncer Genome Anatomy Project (projeto de genoma de câncer dos EUA). Para Emmanuel Dias Neto, inventor da técnica de seqüenciamento do projeto brasileiro, Soares é um dos expoentes mundiais da área. "Estou até com medo da avaliação dele", brincou. Ao que parece, ele não tem o que temer. Soares disse à Folha que é "um grande entusiasta" do projeto brasileiro. "A decisão do investimento é extraordinária, muito apropriada." Ele destaca a relevância internacional do projeto. "O Brasil está contribuindo com seqüências que possibilitam a identificação de genes que ainda não haviam sido determinados." Além disso, ele observa que o projeto brasileiro analisa tumores de baixa incidência nos EUA, mas alta no Brasil. "São tumores que não estão sendo estudados aqui." Soares diz que o método inventado por Dias "dá vantagens ao projeto brasileiro, porque as seqüências geradas no Brasil são complementares às que geramos nos EUA". (Folha de SP, 22/7) NOVO PROJETO GENÉTICO BRASILEIRO MAPEARÁ GENOMA DE PARASITAS, A FIM DE CRIAR DROGAS CONTRA DOENÇAS COMO MALÁRIA E ESQUISTOSSOMOSE Simone Biehler Mateos escreve para "O Estado de SP": Até o fim do ano, o Brasil devera iniciar o seqüenciamento genético de alguns parasitas responsáveis por doenças de grande impacto epidemiológico no País. Entre os mais cotados para estrear o projeto Genoma Parasita estão os causadores da malária, da doença de Chagas, da esquistossomose, da leishmaniose e da paracoccidioidomicose (PCM), que é a oitava causa de mortalidade entre as doenças infecciosas. São enfermidades típicas de países em desenvolvimento, que despertam interesse em poucos grupos de pesquisa de países desenvolvidos. "A intenção é abrir caminho para o desenvolvimento de drogas mais eficientes contra esses graves problemas de saúde publica", explica o medico Sérgio Verjovsky Almeida, coordenador de seqüenciamento genético do Genoma Câncer e estudioso da esquistossomose. O projeto Genoma Parasita, que será financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp), está sendo preparado por pesquisadores desses patogenos que participaram dos primeiros seqüenciamentos genéticos realizados no país. Nos últimos dois anos, graças à iniciativa da Fapesp, o Brasil concluiu o primeiro seqüenciamento de uma praga agrícola, iniciou o de alguns outros organismos e produziu um quinto de todas as informações sobre genes expressos em tumores humanos disponíveis no banco de dados internacional. O novo projeto deve começar com o seqüenciamento do fungo paracoccidioides brasilienses, responsável pela mais mortal de todas as micoses sistêmicas. Comum na América Latina, sobretudo no Brasil, a doença ataca geralmente os pulmões (às vezes outros órgãos), apresentando níveis de mortalidade comparáveis aos das grandes endemias nacionais, como tuberculose, malária, sífilis, mal de Chagas ou hanseníase. A intenção, porem, é dar início já ao seqüenciamento de outros parasitas. (O Estado de SP, 24/7)