Notícia

Gazeta Mercantil

A nova agricultura de precisão

Publicado em 07 maio 1997

Última cunhagem dos cientistas, resultado da inserção na complexidade tecnológica do agribusiness de uma ampla gama de novos componentes, a agricultura de precisão promove uma revolução no campo. A paisagem agrícola até agora homogênea e familiar transforma-se num chão heterogêneo e estranho, para surpresa de quem se julgava seguro no domínio de sua exploração. Essa paisagem - de uniforme no que diz respeito ao solo, ao clima, à semente etc, apresenta-se agora multiforme, estilhaçada aos novos olhos da pesquisa tecnológica em tantos pedaços diferentes quanto os cacos de vidro de um pára-brisa quebrado. O desafio consistirá em apropriar-se do conhecimento de cada um desses pedaços com o auxílio de novos componentes tecnológicos, muitos deles ainda por desenvolver. É na exploração do potencial aí escondido que está a garantia da evolução da agricultura competitiva. Foco no particular Se até agora a pesquisa apresentava soluções satisfatórias para grandes áreas homogêneas, de agora em diante será forçada a reduzir a amplitude de seu foco, atentar para a variabilidade da paisagem rural em pequena escala e apresentar soluções que otimizem o uso dos recursos diferenciados existentes entre um município e outro, uma fazenda e outra, e entre áreas de lavoura de uma mesma propriedade. No início dos anos 70, quando a Embrapa foi criada, a produtividade média do feijão era de 400 kg por hectare. Graças ao esforço tecnológico da pesquisa, a produtividade do feijão atingiu, em 1996, 3 mil kg por hectare. Para continuar avançando, é necessário dar o salto tecnológico da agricultura de precisão. Retirar da mesma área 100 kg a mais, por exemplo, exigirá um enorme esforço tecnológico e poderá custar tão caro quanto a promoção do crescimento de 400 kg para 3 mil kg, estimam técnicos da Embrapa. Se antes o engenheiro agrônomo valia-se de médias aritméticas para formular a dosagem de fertilizantes a serem utilizados numa área extensa, dando por suposta, por carência tecnológica, a homogeneidade de sua fertilidade, agora terá de abandonar as médias e formular dosagens adequadas a cada área diferencial mínima. Trabalhando com o critério da média, ele jogava numa parcela de terreno mais adubo que o necessário — desperdiçando —, e em outra menos, — deixando de explorar a sua produtividade potencial. O mesmo cuidado deverá ser tomado em relação às informações meteorológicas. Antes, por carência tecnológica, utilizavam-se informações relativas às condições do tempo vigentes em grandes áreas. Agora, são necessários muita pesquisa e novos componentes tecnológicos para prover as informações meteorológicas em escala menor, de modo a permitir a redução do risco de perda. Quanto à água, a mesma coisa, O agribusiness consome enormes quantidades de água: a produção de 1 kg de milho requer 1 400 litros de água; §,de;; frango, 3500. Insumo escasso e caro, será necessário deixar a administração da água aos cuidados dos satélites espaciais e dos componentes tecnológicos, eletrônicos e outros, embarcados nos equipamentos em terra, como os instrumentos de irrigação, para evitar o desperdício atual. Automaticamente, a nova parafernália estará medindo de maneira precisa e contínua as condições de umidade do solo e monitorando as dosagens aplicadas, com critérios milimétricos. Primeiros passos E depois de tudo isso, será necessário ainda pensar na nova semente. E faça-se, então, muita pesquisa para descobrir na variabilidade genética de cada espécie os fatores de adaptação adequados à garantia de manutenção da competitividade da fazenda de José Silva. E assim por diante. É uma nova era, a da agricultura "customizada", na qual o Brasil mal ensaia os primeiros passos. Para se ter uma idéia do novo potencial, o presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal, informa que somente a utilização, pela primeira vez no ano passado, do mapa agroecológico da Embrapa, permitiu a produtores rurais obter uma economia de 50% nos gastos com o Proagro, o seguro rural, na safra 1997. Diante dessa nova fronteira, a pesquisa tecnológica brasileira, até agora considerada avançada, vê-se de repente como Peter Pan, de retorno à infância tecnológica. E o PhD, que antes supunha ter o domínio de sua área, é tomado do complexo de inferioridade ao descobrir que o tamanho de sua especialidade encolheu relativamente, ante o número enorme dos novos componentes que vêm inserir-se em sua perspectiva de trabalho. Mais: a própria casa que abriga o pesquisador e seus colegas também encolheu. Daí por que a Embrapa terá de abrir-se ainda mais, para formar parcerias com outras instituições e com a iniciativa privada, uma vez que nenhuma instituição ou empresa isoladamente dá conta dos novos desafios. Empresas privadas de inovação tecnológica já perceberam isso. Ante as incertezas e os grandes riscos relativos às oportunidades de inovação muitas desistiram de prosseguir sozinhas. Algumas descontinuaram linhas de pesquisa. É o caso, por exemplo, da brasileira Agroceres, empresa líder em genética de frangos e suínos, que abandonou em 1990 sua linha de pesquisa em biotecnologia, depois de ter investido R$ 5 milhões. Para as que permanecem no mercado, a saída encontrada foi abrir-se para a formação de alianças estratégicas, em projetos conjuntos de cooperação na fase pré-concorrencial. Na esteira dessa tendência, o conhecimento científico e tecnológico, antes considerado' patrimônio comum da humanidade, recolhe-se do domínio público para encapsular-se na iniciativa privada. As informações científicas necessárias ao desenvolvimento da agricultura de precisão, convertidas no insumo mais escasso do mercado, tem preço. Tendo preço, aguça-se o interesse de empresas privadas em conquistar ou ampliar sua participação no novo mercado e, para isso, elas terão forçosamente de recorrer ao estoque de conhecimento detido pelas instituições públicas de pesquisa. Essa é uma das razões que levam; instituições públicas de pesquisa a rever em profundidade sua forma de atuação - e a Embrapa não é exceção. As mudanças buscam responder ao mesmo problema: necessidade de orientar-se para o mercado, longe da camisa-de-força do Estado, mas não tão distante dele a ponto de prescindir dos volumes crescentes de recursos necessários, que a iniciativa privada ainda não se dispôs a colocar em proporções substanciais. Assim, por exemplo, a Nova Zelândia, que já desestatizou sua instituição de pesquisa agropecuária, conta com apenas 20% de recursos da iniciativa privada para tocar seu programa. Na Inglaterra, o aporte não ultrapassa 12%, e nos EUA, 2%. Na Embrapa, 88% dos recursos vêm do Tesouro Nacional, 6% de outras fontes, entre as quais a iniciativa privada e 6% são recursos próprios.