Notícia

Gazeta Mercantil

A necessidade do salto para o futuro

Publicado em 15 agosto 1997

Por Joana Monteleone

Há cerca de 2.300 anos os homens encontraram uma maneira peculiar de guardar o conhecimento escrito juntando-o num mesmo espaço. E claro que a biblioteca foi idéia dos gregos. Depois, a Idade Média trancou nos mosteiros os escritos dos antigos e os monges copistas passavam o tempo produzindo obras de arte. O mundo começou a girar mais rápido com a invenção da prensa de Gutemberg. Veio o sofisticado gosto dos reis franceses de colecionar livros e, por fim, a mesma revolução que os degolou foi responsável por abrir suas coleções ao povo. Assim, as bibliotecas passaram a ser "serviço de todos'", como está escrito nos anais da maior biblioteca do mundo, a do Congresso, em Washington, Estados Unidos, que tem 85 milhões de documentos em 400 idiomas diferentes.

Na época da informação virtual é impossível conceber as atuais bibliotecas nos moldes do século passado. Elas precisaram se modernizar. Deixar acessíveis para o leitor seu acervo e suas coleções. O Brasil possui a oitava biblioteca do mundo, a Nacional, no Rio de Janeiro, com nove milhões de itens. Mas está longe da tecnologia e da vontade de informar o leitor, presentes nas outras instituições mundiais. Páginas na internet são raras - apenas o catálogo da USP pode ser consultado via Web. Ao mesmo tempo que enfrentam o desafio de modernizar-se, as bibliotecas no Brasil ainda lutam contra goteiras, falta de pessoal e pouca verba para a renovação do acervo e para a restauração dos livros que fatalmente se estragam.

Este jornal foi procurar os problemas das principais bibliotecas do País e encontrou o entrave burocrático de sempre. Essas duas páginas mostram como estão algumas, das principais bibliotecas do país: a Nacional e a do Itamarati, no Rio de Janeiro; a Mário de Andrade, a do Centro Cultural e a da USP, em São Paulo. Algumas bibliotecas, como a Nacional, conseguiram sanar suas dívidas e procuram caminhos. Outras lutam contra a falta de informatização e de pessoal, como a Mário de Andrade. O Centro Cultural, apesar de muito procurado, corre o risco de perder o acervo de discos por falta de fitas para regravá-los. A renovação do acervo da USP ainda precisa de verbas para suprimir a demanda dos pesquisadores e dos alunos. E uma nova biblioteca deverá ser aberta ao público no Masp, principal museu de arte da cidade, no começo do ano que vem.

 

O impasse da burocracia

A maior biblioteca municipal de São Paulo, a Mário de Andrade, passa por delicadas limitações. O esforço dos funcionários para aproximar o público do seu acervo esbarra na crise no sistema governamental aliado à estrutura administrativa da biblioteca. A Mário de Andrade é totalmente subordinada à Secretaria Municipal de Cultura, pelo departamento de bibliotecas públicas, que administra outras 26 instituições voltadas a adultos - outro departamento é o responsável pelas bibliotecas infanto-juvenis. Dentro dessa situação, as necessidades de todas as ordens - financeira, administrativa, requisição de materiais, aquisição de livros, etc. - precisam ser encaminhadas ao departamento responsável. No caso de compras de livros, a divisão de processamento técnico é a responsável pelos títulos que chegam para o acervo da Mário de Andrade - que hoje conta com 349.890 mil.

Cada livro precisa de 26 exemplares para ser distribuído entre as outras unidades dependentes. Se houver algum problema na quantidade, a Mário tem preferência, afirma o diretor-geral José Eduardo Soares de Castro. "'Os funcionários fazem sugestões de títulos e todo mês é feita uma pesquisa mensal dos assuntos que os bibliotecários não encontraram ao auxiliar os usuários", completa o diretor. Inúmeros problemas atingem a Mário de Andrade, mas a solução de um deles é imprescindível: a informatização completa. Até 1992, ano em que a biblioteca passou por uma grande reforma, somente quatro terminais estavam disponíveis para o público, diz o diretor-geral José Eduardo Soares de Castro. "Pelo tamanho da biblioteca e o, movimento que recebe, quatro terminais eram praticamente nada", completa o diretor.

Após a reforma, outros dez terminais foram colocados à disposição dos 35 mil visitantes mensais que a biblioteca recebe. Segundo Rodolfo Konder, secretário da Cultura, 40% de todas as bibliotecas estão informatizadas, mas não existe uma previsão para que o processo se complete - o que depende de outros órgãos dentro da prefeitura. Na Mario de Andrade a parte dos periódicos não está em sistema, e só estão cadastrados os livros que foram adquiridos depois da década de 60; também não é possível consultá-la na Internet, pois a biblioteca não tem um site para pesquisa. No orçamento anual feito pela instituição, a informatização é um dos pontos que mais têm sido solicitados, afirma Castro. Outra dificuldade - e, na opinião do diretor-geral, a mais importante - é o número reduzido de funcionários. A Mário de Andrade conta hoje com 163 funcionários, dos quais 40 são bibliotecários - quinze são chefes de seção e não atendem ao público diretamente. Com o número pequeno de funcionários e a falta de informatização, o serviço fica tumultuado.

Um dos problemas desse acúmulo está relacionado à construção arquitetônica. O projeto inicial da Mário de Andrade não incluía o acesso do público aos 22 andares de acervo. A construção data de 1942 e seu responsável, Rubens Borba de Moraes, planejou-a baseada em modelos internacionais, que apresentavam muito cuidado com o acervo e a preservação do material, diz Castro. Por esse motivo, a alteração em alguma pane dessa distribuição não seria possível, porque os elevadores não suportariam, e nos depósitos não seria viável a presença de mais de vinte pessoas para pesquisa. Segundo Soares de Castro, a Mário de Andrade precisaria de, no mínimo, mais 40 bibliotecários. Com o aumento dos funcionários, a equipe teria condições de fazer outras tarefas que facilitariam as pesquisas dos leitores, porque ofereceriam uma visão mais didática. Um exemplo é a criação de um segundo catálogo, que seria feito a partir da experiência do próprio bibliotecário, com indexação por manchete. Por outro lado, o secretário da Cultura diz que a solução mais fácil seria admitir mais pessoas, mas analisando o quadro geral do funcionalismo público a atitude só incharia ainda mais os gastos salariais da prefeitura.

Pela lei, também não é possível nomear pessoas que não sejam concursadas para alguma função especial, fará ser diretor da instituição, o funcionário precisa ter concurso. Na opinião de Konder, o velho modelo faliu e é preciso conseguir a melhor maneira para trabalhar nessas condições. Pela mesma linha de raciocínio, criar um departamento financeiro, que garantisse maior agilidade na resolução dos problemas particulares, também causaria aumento de funcionários. A biblioteca consome cerca de 13.87% do orçamento total do departamento de bibliotecas públicas, segundo a diretora Marlene Gomes Martinez Hirata. Esse número representa aproximadamente R$ 5 milhões anuais. As sugestões para o orçamento são feitas pelos bibliotecários e encaminhadas anualmente com as necessidades da instituição. Com a reforma feita em 92, a cabine de pesquisa para pós-graduação foi reativada.

Segundo José Eduardo Soares de Castro, o agendamento para uso das dez cabines disponíveis é de no mínimo trinta dias. Outra mudança, devido à falta de espaço, foi o deslocamento de periódicos anteriores a 1982 para a unidade de Santo Amaro. Ano passado, um novo setor foi criado: a higienização. Ele se encarrega da revitalização das obras raras. Os livros raros estão quase todos microfilmados, para evitar o manuseio. Entre o acervo especial, o fone da Mário de Andrade, segundo seu diretor, é a coleção dos artistas viajantes, como as paisagens feitas por Debret do Rio de Janeiro. Castro diz que essas obras não são muito divulgadas, por serem de grande valor. Baseada nas metas na atual administração da Secretaria de Cultura, a biblioteca tem procurado atrair público através de eventos culturais. Praticamente, todos os dias o auditório -que também passou por uma reforma - promove encontro de leitura, debates, música, palestras para adolescentes, etc. A biblioteca também edita uma revista anual: "Mário Universal Paulista".

Os efeitos desse tratamento, no entender de Castro, é que as pessoas parecem estar confiando mais no trabalho desenvolvido por eles. Como vem acontecendo com alguns museus paulistas, que formaram associações de amigos para contribuir mensalmente, a Mário de Andrade também pode receber doações ou fazer qualquer acordo com empresas privadas. Para Castro, ela enfrentaria o problema de não oferecer um retorno institucional tão grande quanto uma exposição. No entanto, poderia ser um caminho possível para aliviar a dependência e criar maior agilidade. A caminho do acesso virtual Informática é a palavra-chave para a biblioteca da Universidade de São Paulo.

Englobando 38 bibliotecas independentes, a USP pode ter seu catálogo consultado pela internet (www.usp.br/sibi/sibi.html). As consultas e pesquisas, assim, ficaram mais fáceis. O usuário ainda pode localizar qualquer tese defendida desde 1934. Isto significa acesso direto do público a mais de 1,5 milhões de livros, 60 mil coleções de periódicos e 150 mil títulos de registros de produção do corpo docente e de pesquisadores desde 1985. A seção de bibliotecas, centralizada no Sibi (Sistema Integrado de Bibliotecas), vem sendo restaurada desde 1994, com verba especial da Fapesp. Desta forma, várias das bibliotecas que tinham seus acervos danificados por goteiras ou problemas estruturais puderam primeiro reformar os prédios, depois o acervo. Além disso, foi instalado um sistema de catraca eletrônica que diminuiu sensivelmente o extravio de obras.

"Mesmo com todo esse sistema acho que a compra de livros ainda é muito pequena. Obras de importância para pesquisa demoram para chegar aqui", diz Luciana Mendes Ferreira, aluna bolsista de graduação da Faculdade de Engenharia, a Poli. "A verba ainda é insuficiente para dar conta da demanda", diz a diretora do Sibi desde 1994, Rosaly Favero Krzyzanowski. As bibliotecas ganham uma verba anual para a compra de livros de R$ 600 mil e conseguem comprar cerca de 9 mil títulos novos. "Precisaria de pelo menos R$ 1 milhão", ressalta a diretora. Para os periódicos a verba é maior, cerca de R$ 5 milhões para a renovação de 20 mil publicações. A restauração de obras gasta R$ 200 mil por ano. Para tomar conta do acervo espalhado pelo campus cerca de 700 funcionários trabalham desde o atendimento ao público até o restauro de obras. A Escola de Comunicações e Artes (ECA) tem um curso especial de biblioteconomia no qual muitos dos profissionais que se formam são absorvidos dentro da própria universidade.

"A biblioteca das Ciências Sociais é boa, mas muitas vezes os títulos somem das prateleiras. Isto acontece principalmente com os cursos de graduação, nos livros recomendados pelos professores", diz Renato Stzumann, aluno de pós-graduação em Antropologia. Paia sanar o problema de extravio de obras foi criado um programa de conscientização no qual alunos participam da limpeza da biblioteca da unidade. "Conseguimos maiores resultados quando os próprios alunos da graduação participam de programas remunerados de monitoria", diz Rosaly. Contudo, as bibliotecas não se limitam às faculdades, mesmo que estas representem o maior volume de consulta. Os museus ligados à universidade também têm acervos importantes. O Museu Paulista no Ipiranga, por exemplo, possui uma das coleções mais importantes sobre cultura material da cidade. Livros importados são sempre comprados e a consulta é fácil.

O Museu de Zoologia também prima pelas obras antigas, adquiridas durante o período de formação da USP. E o mesmo acontece cora as bibliotecas do Museu de Arte Contemporânea (MAC), especializada em livros de arte, e do Museu de Arqueologia e Etnologia. O número de títulos da universidade é grande se comparado com outras bibliotecas do País. Contudo, é irrisório se colocado ao lado de bibliotecas americanas. Só a Universidade de Columbia possui mais de 5,4 milhões de títulos. No Havaí a universidade local tem um acervo de 2,1 milhões de livros. As principais universidades brasileiras têm um acervo de quase nove milhões enquanto apenas a Universidade de Harvard, em Boston, possui onze milhões de títulos distribuídos em cem bibliotecas setoriais.

Se com apenas R$ 3 milhões da Fapesp foi possível colocar em pé as bibliotecas da USP, o programa de ajuda aos acervos corre o risco de acabar, deixando usuários sem possibilidade de pesquisa. "Estamos na era da informação. É importante a renovação permanente do acervo e trabalho de conservação da obras, além do acesso via internet", diz Krzyzanowski. É o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) que tem uma das mais importantes bibliotecas do país. Durante anos o IEB adquiriu acervos particulares significativos como os de Mano de Andrade, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, além de possuir documentos como os autos das visitações do Santo Ofício da Inquisição para o Brasil.

"O sistema de armazenamento e conservação destas obras foi recentemente modernizado e os manuscritos mais importantes estão sendo microfilmados para garantir o acesso do público", conta a diretora. As obras raras estão espalhadas pelas unidades e incluem preciosidades como "Liber Chronicarum", de Schedel, em alemão de 1493. O acervo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo é mais modesto. Na sede da biblioteca, na rua Monte Alegre, existem 140 mil títulos que englobam administração, direito, economia e outras ciências humanas. "A consulta de estudantes de segundo grau é grande, principalmente aos sábados", diz a bibliotecária Carmem Prates, que viu o acervo se multiplicar nos anos 70 com a reforma universitária que uniu várias sedes num mesmo local. Agora, foi a biblioteca da pós-graduação que se juntou ao acervo principal, racionalizando a consulta e a compra de novos livros. O destaque da biblioteca fica por conta da videoteca, que cresce com a coordenação da professora Ana Salles. (JM)

Flávia Fontes, de São Paulo

 

Um catálogo de raridades

Todas as manhãs o carioca Heber Trinta Filho cruza a Cinelândia, largo no centro do Rio, e entra na Biblioteca Nacional. Ele é uma das 550 pessoas que freqüentam o edifício diariamente, atrás de informações que estão em quase nove milhões de publicações, entre livros, jornais, revistas e documentos antigos. A Biblioteca Nacional do Brasil é a oitava maior do mundo em número de publicações e obras guardadas em acervo. Com certeza, é a maior da América do Sul. Seus freqüentadores encontram lá um padrão de atendimento que não se repete na maioria das bibliotecas brasileiras: contam com diversos departamentos e arquivos: a busca de documentos e livros não é difícil, mesmo sendo um pouco demorada, já que podem fazer a procura por computadores instalados nas salas: dispõem de uma livraria local e variada: consultam os documentos que querem em equipamentos para microfilmagem, com todo o acervo de jornais e manuscritos.

A Biblioteca Nacional é um mundo à parte na desorganização das bibliotecas brasileiras. Cerca de 400 funcionários circulam no edifício, construído em 1910. Isso não quer dizer que a instituição, administrada pela Fundação Biblioteca Nacional, não tenha enfrentado inúmeras dificuldades durante a sua história, até mesmo em tempos recentes. O atual presidente, Eduardo Portella, liquidou, com verba do Ministério da Cultura, uma dívida de R$ 2 milhões que atazanava a Fundação desde os anos 80. É consenso entre os funcionários que faltam verbas e recursos para aprimorar os serviços, embora evitem citar os pontos críticos. Mesmo assim, o atual governo melhorou a situação da instituição, inclusive com a reforma da fachada do edifício (1994) e a, reforma da pane elétrica (em curso). Hoje já existem visitas guiadas ao prédio e aos departamentos, e o acervo de 1982 a 1997, além de microfilmado, pode ser localizado por microcomputadores que o próprio usuário opera.

Dos nove milhões de itens que formam o acervo, 4,5 milhões são "periódicos" (jornais e revistas), 4 milhões de livros e o resto de partituras, discos, fotos, gravuras e mapas. A instituição ainda não tem home page na Internet. Apenas sua divisão de música tem um endereço, que pode ser acessado (end: www.info.lmcc.br/dimas). A Fundação Biblioteca Nacional também está desenvolvendo o Proler - um projeto do governo de incentivo à leitura, conjunto entre os ministérios da Cultura (à qual a Biblioteca Nacional é subordinada) e da Educação. "Já retomamos outros projetos, como cursos e seminários sobre acervos raros", informou a diretora do departamento de processos técnicos, Célia Ribeiro Zaher.

A Biblioteca Nacional coordena e dá diretrizes ao funcionamento das bibliotecas estaduais brasileiras. Não é que elas sejam subordinadas à fundação federal; apenas contam com seu apoio logístico. O Proler já foi implantado em bibliotecas de trezentos municípios. A Biblioteca Nacional distribui cem mil livros por ano às bibliotecas estaduais, que os repassam às municipais. Não são livros do seu acervo, mas editados pela Fundação. Em 1996, a Editora Salamandra, com patrocínio do Banco Real e da Fundação Roberto Marinho, lançou uma bela edição sobre a Biblioteca Nacional, com texto de Paulo Herkenhoff e fotos de Pedro Oswaldo Cruz. Acervo raro é o que a instituição tem nos seus departamentos.

Além de duas Bíblias alemãs de 1462, impressas na cidade de Mongúcia, o acervo conta com um exemplar da primeira edição de "Os Lusíadas" (1572), poema épico de Luiz de Camões, editado em Lisboa; livros de teologia dos séculos XI e XII: livros dos séculos XVII e XVIII, entre eles "Rerum per Octennium in Brasilia", um livro de Gaspar Barleu sobre a guerra holandesa no Nordeste do País (séc. XVII) com 55 estampas gravadas em cobre pelo artista Franz Post e coloridas por outros pintores. O acervo da Biblioteca se formou a partir da Livraria Real, ou seja, os livros e objetos que escaparam do incêndio que destruiu a Real Biblioteca da Ajuda em 1755, em seguida ao terremoto de Lisboa. Em 1808, quando fugiu de Napoleão com sua corte de quinze mil pessoas, D. João VI arribou no Rio trazendo toda a Livraria Real.

Em 1810, foi fundada uma nova Biblioteca Real, que funcionava no hospital da Ordem Terceira do Carmo, um prédio que ficava perto da Praça XV, também no centro do Rio. Em 1858, o acervo foi transferido para um prédio maior no largo da Lapa, onde hoje funciona a Escola Superior de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá ficou até 1910, quando o prédio atual, projetado pelo engenheiro Marcellino de Souza Aguiar, foi inaugurado. O núcleo da antiga Biblioteca Real Portuguesa, com espólios da biblioteca anterior à 1755 e a 1822, conta com sessenta mil documentos e objetos, entre livros, mapas, manuscritos e medalhas, que só em 1994 foi totalmente catalogado. O acesso só é permitido sob permissão escrita. A Biblioteca Nacional cresceu tanto porque uma lei de 1907, a do "Depósito Legal", estabeleceu que as editoras e jornais deveriam enviar um exemplar para a instituição de qualquer publicação que fizessem. Essa lei, reforçada em 1995, determina que CD-ROMs, discos de CD e material eletrônico também devem ter uma cópia enviada à instituição. Mesmo com todo esse acervo e estrutura, ela enfrenta o mesmo problema de todas as outras bibliotecas do país, a depredação.

"A Biblioteca Nacional tem um acervo fantástico. Só lamento que existam pessoas que não saibam manusear o arquivo, riscando os livros e jornais", disse Trinta Filho, freqüentador assíduo do local desde 1982. Restaurando a história diplomática O palácio do Itamaraty, no centro do Rio de Janeiro, guarda vários dos documentos mais importantes da história do Brasil, de 1808 a 1939: mapas, correspondência diplomática, 80 mil livros (526 raros) e 65 mil jornais. Todo esse acervo abrange eventos importantíssimos, como a Independência, a fase final do tráfico negreiro, a Guerra do Paraguai, a imigração européia, a anexação do Acre e o Estado Novo. É uma documentação esquecida, em boa parte inédita, e que tem de ser exibida à sociedade. Além disto, uma parte está em estado precário de conservação, necessitando de cuidados urgentes. Para tanto, o Instituto Herbert Levy (IHL) e a Fundação Alexandre de Gusmão, do Ministério das Relações Exteriores, assinaram recentemente um protocolo de intenções para reordenamento e aclimatização do acervo histórico do complexo do Itamaraty no Rio. O IHL usará a lei federal Rouanet, que dá abatimento do Imposto de Renda para as empresas que colaborarem no projeto, que terá vários objetivos.

O complexo do Itamaraty no Rio é formado por três anexos principais construídos em etapas diferentes (1853, 1910 e 1930) e guiou a política externa brasileira de meados do século passado até 1970, quando a sede do Ministério das Relações Exteriores foi transferida do Rio de Janeiro para Brasília. O edifício mais antigo, de 1853, foi transformado em museu, enquanto nos outros dois estão a biblioteca, o arquivo histórico e a mapoteca, departamentos cuja restauração, aclimatização e informatização serão contempladas pelo projeto. A casa mais antiga, de 1853, pertencia ao Visconde de Itamaraty e deu o nome informal pelo qual o Ministério das Relações Exteriores é conhecido. O livro mais antigo da biblioteca do Itamaraty é "Summa Universae Theologiae", que, como o título diz, trata de religião. O autor é Alexander de Ales e a obra foi editada em 1482 na cidade de Nuremberg, na Alemanha. A biblioteca tem outros seis livros do final do século XV. Dos 526 livros raros, boa parte é dos séculos XVI e XVII, e outros são volumes do século passado, vários, já editados no Brasil.

A mapoteca tem cartas geográficas do século XVIII até meados do século XX, com destaque para uma coleção dos mapas de limites do sul do Brasil, que foi acrescido de novas regiões até 1806, sofrendo retificações em 1828, com a perda da província Cisplatina, que hoje é o Uruguai. O arquivo histórico tem 50 milhões de unidades de documentos, de 1808 a 1959, com toda a história diplomática brasileira. "As exceções ficam por conta de documentos de 1600 e 1700. Temos também um documento de um integrante da frota de Cabral, de 1500", informou Lúcia Monte Alto Silva, responsável pelo setor Só como curiosidade, os documentos da comissão mista Brasil-Grã Bretanha, que visava a extinção do tráfico negreiro e funcionou de 1812 a 1850, estão lá. "O IHL e o Itamaraty estão interessados em restaurar documentos, melhorar as instalações de parte do complexo do Itamaraty e disponibilizar o material para o público, por meio da informática, com a Internet e outras mídias.

Outra proposta é o uso de espaços culturais para eventos, no anexo construído em 1930", informou o secretário-geral do IHL, Reinaldo Paes Barreto. Segundo Paes Barreto, a intenção do IHL é "acordar o interesse da população para a história diplomática brasileira, trazendo-a para o debate atual, distanciado dos fatos já por algumas décadas e por isto com uma isenção maior". Outro objetivo do projeto, em fase de diagnóstico dos custos envolvidos, é fazer um levantamento dos documentos que estão nas embaixadas e consulados brasileiros em diversos países do mundo. Empresas interessadas em participar do projeto devem entrar em contato com o MU, no Rio, através do telefone 021/515-2596 ou do e-mail: rbarreto@gazetamercantil.com.br. (A.L.) Atrasos em estilo modernista Imensos planos de vidro e espaços 11 vazados, contornados por aço e concreto, cortes de luz natural e jardins. A modernidade está à vista dos visitantes do Centro Cultural São Paulo; um local privilegiado, equipado com foyers e boas salas para a exibição de espetáculos, cinemas e exposições. Projetado por Eurico Prado e Luís Benedito Telles, o prédio lembra ainda uma praça, com mesinhas e cadeiras que convidam para uma pausa na leitura. Apesar do espaço arrojado, há atrasos administrativos e, principalmente, tecnológicos.

O Centro Cultural, segundo maior acervo de São Paulo, depende de recursos escassos e está atrelado à burocracia do serviço público, já que é vinculado à Secretaria Municipal de Cultura. Além de promover eventos culturais ligados a artes plásticas, música, teatro e cinema, o Centro dispõe de um serviço de pesquisa que tem como base três bibliotecas. Estas estão longe de serem totalmente informatizadas (apenas 30% do acervo foi catalogado). A biblioteca conta com apenas dois terminais para consulta. Mesmo assim, é possível acessar um site do Centro na Internet (www.prodam.pmsp.sp.gov.br/ccsp) com a programação cultural. A Biblioteca Sérgio Milliet conta com um acervo de aproximadamente 123 mil volumes que abrangem diversas áreas de conhecimento - boa parte dos livros é de caráter didático, por isso a grande freqüência de adolescentes - e ainda oferece cursos de iniciação à informática, laboratório de línguas e serviços de informação ao vestibulando. Especializada em artes visuais e arquitetura, a biblioteca Alfredo Volpi, também no Centro, tem cerca de 10 mil títulos, que são-consultados pelo acesso direto do leitor às estantes. Os livros são obtidos por meio da Divisão de Processos Técnicos, órgão responsável pela seleção e aquisição das obras. Segundo Marlene Gemes Martinez Hitara, diretora do Departamento de Bibliotecas Públicas, foram comprados, neste ano, 30.523 volumes (846 títulos) para as 28 bibliotecas públicas e o Centro Cultural.

Além dos lançamentos, a divisão costuma selecionar os livros pedidos pelas bibliotecas, de acordo com a necessidade dos usuários, obras clássicas e de consulta, como dicionários. Apesar de atender aos pedidos das unidades, o esquema de compras centralizado parece prejudicar a dinâmica funcional da biblioteca, afinal a administração deveria estar mais próxima das necessidades de cada local. O número de volumes, ainda pouco expressivo, mas que acaba suprindo a falta de bibliotecas escolares, é aumentado por doações. Aliás, são elas que movem o pequeno acervo circulante do Centro Cultural, com 9 mil exemplares - 60% dos livros são compostos por romances - que são emprestados por determinado período. Há também uma hemeroteca, na qual podem ser consultados recortes de revistas e jornais, organizados por assunto. A escolha do material também parece desarticulada. Se algum funcionário encontrar um artigo que lhe interesse, por exemplo, pode cortá-lo e colocá-lo numa das pastas.

Outra fonte de pesquisa são os artigos de jornais microfilmados. Há coisas interessantes como jornais do segundo império. O Centro Cultural ainda conta com uma biblioteca braille, que reúne 18 mil livros e 2.800 fitas de áudio. Quinze deficientes visuais são funcionários permanentes da biblioteca, que também depende do trabalho voluntário para a gravação de fitas. Porém, o acervo de maior valor histórico é a Discoteca Oneyda Alvarenga, criada por Mario de Andrade, em 1935, e que recebeu sede definitiva com a construção do Centro Cultural, em 1982. A conhecida Missão de Pesquisas Folclóricas, também idealizada pelo escritor e realizada em 1938, trouxe para o acervo importantes registros folclóricos de seis estados do norte e nordeste do País. Foram documentados cerca de 55 gêneros, entre cantos de trabalho, danças dramáticas e cantos de feitiçaria. A expedição também trouxe fotografias, filmes cinematográficos, objetos ligados a cultos fetichistas e instrumentos musicais.

As 800 peças ficam guardadas numa sala climatizada e metade está sendo restaurada. Mas, segundo José Eduardo Azevedo, funcionário que cuida do acervo, as condições do local ainda não são suficientes para manter a preservação dos objetos. Para isso, foi enviado à Fundação Vitae um projeto que prevê a conservação do material. Há também preciosas gravações literárias. Discos e fitas de Vinícius de Moraes lendo seus poemas e Bernard Shaw fazendo um discurso, por exemplo, podem ser ouvidos no local. Mas são poucas as exposições do acervo, e algumas mostras que utilizam a discoteca - composta por 80 mil discos, 370 CDs e 5.000 fitas cassete - também não demonstram criatividade. Atualmente, por exemplo, há uma mostra em homenagem ao músico Jackson do Pandeiro, que reúne um parco material protegido por cubos de vidro. Lembra exposições escolares. Duas manequins (dessas que ficam nas vitrines das lojas), uma vestida de baiana e outra de dançarina de frevo, que estão expostas em frente a uma das rampas que dá acesso às bibliotecas, parecem sem sentido. Muitos discos ainda correm o risco de se deteriorar pois não foram gravados em fitas e a aparelhagem também necessita de renovação.

A falta de verba faz com que funcionários se equilibrem para conseguir tomar conta do acervo, trazendo até mesmo material de casa. Eles também acabam tendo de fazer uma espécie de revezamento de cargos, já que somam apenas 126 pessoas para tomar conta do setor de bibliotecas. O prédio está passando por ampla reforma, que abrirá mais espaço à Divisão de Bibliotecas. As necessidades, porém, parecem ir além dos limites físicos. Acervos pedem cuidados e, hoje, tecnologia - e não só espaço. (A.S.) Nova etapa no Masp Alessandra Simões - de São Paulo Quem pretende realizar estudos sobre arte pode buscar outras alternativas como fontes de pesquisa em São Paulo. Além de possuir uma das pinacotecas mais completas da América Latina, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) também tem um importante acervo literário, especializado em arte e composto por livros, revistas e catálogos de pintura, escultura, design, arquitetura, fotografia etc. A história da biblioteca começou em 1977, quando Pietro Maria Bardi, um dos fundadores do museu, resolveu doar seu acervo pessoal ao Masp.

O patrimônio literário, então, iniciou sua formação e hoje conta com 25 mil volumes que podem ser consultados por universitários, pesquisadores e outros profissionais ligados à arte. Em 1990, um convênio firmado entre o museu e o Instituto Cultural Itaú permitiu a informatização de boa parte da biblioteca. Durante três anos, foram catalogados no sistema 12 mil volumes, número que subiu para 18 mil com a continuação dos trabalhos pelos funcionários do museu. Nesse período, também foi elaborado um dicionário de artistas brasileiros e estrangeiros contemporâneos que hoje compõe quatro volumes com 8 mil nomes. Há ainda um arquivo histórico de documentos sobre o museu e fotografias que, atualmente, está sendo organizado pela Fundação Vitae e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp. Esta última entregará, em breve, 730 livros ao museu através da FAP-livros, um programa que financia através de processos de licitação a compra de obras para instituições privadas ou públicas.

A biblioteca do Masp também consegue alguns volumes devido ao intercâmbio com 300 entidades culturais de outros países, como museus e embaixadas. Segundo a coordenadora da biblioteca, Ivani Di Grazia Costa, a intenção é que a biblioteca participe mais da vida do museu, dispondo de um material que dê suporte à elaboração de catálogos para as atividades, como aconteceu na exposição "Monet", cuja cronologia foi elaborada com base no acervo bibliográfico. Além de dar apoio aos eventos, a idéia é que os alunos da Escola de Arte do Masp também tenham acesso a horários reservados e a livros com conteúdos vinculados às obras da pinacoteca. Também não faltam obras raras na biblioteca. Entre elas, o "Trattato della Pittura", de Leonardo da Vinci, edição de 1792, e o "Exercitationes Vitruvianae Primae", de 1739. Ainda não há previsão para a compra de novos livros.

Segundo o presidente do Masp, Júlio Neves, a preocupação agora é com a reforma do prédio, que deve terminar no início do ano que vem. A sala da biblioteca, que até lá estará fechada, será ampliada e equipada com aparelhos de controles climáticos para a preservação das obras. "Primeiro nós precisamos mudar tudo, proteger os livros da fuligem que vem da avenida Paulista, depois pensar em aumentar o acervo." O segmento artístico também deve ganhar novo local para consultas através da biblioteca que o Instituto Cultural Itaú pretende inaugurar no final de outubro. Além de livros especializados em arte, o acervo deve abranger literatura, fotografia, história do Brasil e uma hemeroteca sobre artistas plásticos brasileiros.

Inicialmente, a biblioteca, totalmente informatizada, só será aberta para consultas, sem permitir empréstimos ou cópias. A sala de leitura possuirá equipamento multimídia para CD-ROM e comportará 16 pessoas. Sobre história da arte no Brasil, há edições que estão esgotadas no mercado, como "Primores da Pintura no Brasil", de 1942, de Francisco Acquaroni, e "Aspectos da Arte Religiosa no Brasil", de 1981, de Clarival do Prado Valladares. A literatura está mais centrada em volumes de poesia, como as "Obras Completas" da editora Nova Aguilar, apresentando autores brasileiros, entre eles João Cabral e Machado de Assis. Apesar de não garantir um número expressivo de volumes, o instituto abre mais uma alternativa frente a um quadro de opções restrito e precário.

André Lachini, do Rio