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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

A mulher que está trazendo 4 Prêmios Nobel de Química para um evento na Unicamp

Publicado em 13 julho 2011

Trazer quatro ganhadores do Prêmio Nobel de Química para um evento no Brasil é proeza de mulher - e nordestina. "Homem não faria isso", provoca a professora Vanderlan Bolzani, que está coordenando a Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) de "Produtos Naturais, Química Medicinal e Síntese Orgânica - Soluções integradas para o mundo de amanhã". O grande evento vai acontecer na Unicamp, no período de 14 e 18 de agosto. Dentre mais de 500 inscritos de várias partes do país e do mundo, 100 estudantes brasileiros e outros 100 estrangeiros serão contemplados com palestras de Ei-ichi Negishi (Nobel em 2010), Ada Yonath (2009), Richard Schrock (2005) e Kurt Wüthrich (2002).

A ESPCA é um programa da Fapesp que envolve cursos de curta duração em ciência e tecnologia para alunos de graduação, pós-graduação e pós-doutorado. Organizado conjuntamente por Unicamp, USP, Unesp e UFSCar, tem patrocínio também da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), que aprovou este evento de agosto como parte da celebração do Ano Internacional da Química (AIQ 2011). Docentes das quatro universidades compõem os comitês científico e executivo.

Nascida na Paraíba, filha de portuguesa com índio tabajara, a coordenadora Vanderlan Bolzani é docente da Unesp (Araraquara) e considerada uma das principais especialistas em química de produtos naturais do país. Ela presidia a SBQ quando redigiu um monte de cartas para que o secretário-geral Adriano Andricopulo as distribuísse no tradicional encontro de Prêmios Nobel com jovens cientistas em Landau, Alemanha. "Na Reunião da SBQ de 2009, sugeri convidarmos um Nobel para a conferência de abertura de 2010. As pessoas gostaram da ideia, mas meio assim... Minha expectativa era de que alguns deles entrassem em contato".

O americano Martin Chalfie (Nobel de Química em 2008) foi o único a retornar, e mais por ter estranhado um convite feito em abril para que viesse logo em maio. "Ele brincou com meu erro de data, era para o ano seguinte. Depois enviou outra mensagem dando a entender que gostaria de conhecer o Brasil, mas que não era químico e sim um biólogo que ganhou o prêmio por seu trabalho com proteínas fluorescentes. Ele também mencionou um violonista gaúcho, Yamandu [Costa], que eu não conhecia - mas disse que o adorava e caí na simpatia de Chalfie, que veio dar a conferência de abertura".

Vanderlan Bolzani vem trabalhando intensamente em atividades do AIQ 2011pelo mundo e o título de fellow da The Royal Society of Chemistry, que recebeu no ano passado, também contribuiu para que circulasse mais à vontade pela comunidade internacional. Nesse meio tempo, procurou o professor Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, para saber o que a agência poderia fazer pelo AIQ. "Ele disse que se eu investisse nos últimos avanços da química, tudo bem. Como eu já queria promover uma Escola Avançada de produtos naturais, comecei a pensar no assunto".

Para financiar uma ESPCA, a Fapesp exige a participação de nomes de relevância científica, mas não de Prêmios Nobel. Entretanto, Vanderlan Bolzani começou por convidar novamente Martin Chalfie, que aceitou. "Também decidi procurar algumas pessoas do encontro de Landau que receberam minhas cartas. Trabalhando nesta interface entre produtos naturais, química medicinal e síntese orgânica, só montei os comitês depois de organizar toda a Escola sozinha, para não dividir os insucessos. Foi um desafio, mas sou ousada, coisa de nordestino".

Desta vez, Richard Schrock respondeu e prometeu pensar no assunto, apesar de não se considerar um químico sintético e muito menos medicinal. "Ele não conhecia o Brasil e se a esposa quisesse... Além disso, sabia que São Paulo (onde inicialmente seria o evento) tem a terceira melhor gastronomia do mundo e me comprometi a levá-lo aos restaurantes. Eu estava num congresso latino-americano em Cartagena e, de repente, telefonei para o MIT. Era uma hora da tarde e foi a secretária dele quem atendeu; logo depois, Schrock mandou e-mail aceitando o convite e perguntando sobre as passagens".

A confirmação de dois laureados era bom argumento para a coordenadora da ESPCA procurar Kurt Wüthrich, inclusive porque ressonância magnética nuclear em proteínas é assunto que lhe interessa. "Nesse momento foi aprovado meu Projeto Multiusuário Fapesp de ressonância; estou velha, mas quero deixar os jovens do grupo cada dia melhor equipados. Acontece que Wüthrich é idoso e me enviou foi um fax, que ficou perdido no Instituto; levou um tempão para eu saber, pelo seu secretário, que ele tinha aceito".

Ada Yonath alegou que já tinha vindo à ESPCA do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron no início do ano - presença que motivou a antecipação do Ano Internacional da Química na Unicamp, com uma palestra da israelense sobre o ribossomo. "Nós nos encontramos em Paris, numa premiação de 23 mulheres cientistas, mas desencanei. Soube do Carlos Roque [Duarte Correia, da Unicamp] que Ei-ichi Neguishi ficou interessado em vir; mandei uma carta e ele aceitou. Quando Martin Chalfie me telefonou se desculpando por não poder vir, fiquei com três Prêmios Nobel. Mas no dia seguinte, me deparei com um e-mail de Ada Yonath perguntando se o convite estava de pé".

De primeira linha

Ronaldo Aloise Pilli, pró-reitor de Pesquisa e docente do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, oferece um breve perfil de cada Prêmio Nobel. "O professor Ei-ichi Neguishi se destaca na área de reações catalisadoras por paládio em sínteses orgânicas, importantes para a produção de fármacos; Ada Yonath estuda os mecanismos de ação dos ribossomos, janelas para entender a síntese de proteínas; Richard Schrock também deu sua contribuição na área de catálise, mas para outro tipo de reação, a metátese de olefinas; e Kurt Wüthrich desenvolveu uma técnica de análise por ressonância magnética nuclear que permite descobrir a composição de moléculas isoladas na natureza ou produzidas em laboratório".

Vanderlan Bolzani atenta, contudo, que todos os palestrantes da ESPCA compõem a primeira linha de pesquisadores em química de produtos naturais, síntese orgânica e química medicinal. Para ficar em um único exemplo, ela atenta para a presença de Simon Campbell, da Royal Society of Chemistry, que atuou de ponta a ponta no desenvolvimento do Viagra. Mais informações no site do evento.