Notícia

Gazeta de Piracicaba

A mente criminosa

Publicado em 28 janeiro 2011

Por Patrícia Azevedo

Crimes violentos e inexplicáveis costumam intrigar as pessoas. Afinal, o que faz uma pessoa agir de forma descontrolada e cruel? Pesquisadores de todo mundo vêm se dedicando a estudar a mente e o comportamento de criminosos em várias partes do mundo.

O psiquiatra forense e pesquisador da Unicamp, Eduardo H. Teixeira, explica que vários estudos já demonstraram que o comportamento violento é decorrente da associação de fatores socioambientais, psicológicos e biológicos. "Neste sentido, um indivíduo que carrega em seus genes herdados aspectos relacionados à maior propensão de ser violento, terá maior chance de expressar esse comportamento caso esteja em um ambiente social desfavorável", explica.

O estudo mais recente, feito na Finlândia, relaciona a impulsividade a vários distúrbios psiquiátricos e a comportamentos violentos. A pesquisa feita com presidiários de lá revelou que uma mutação pode predispor seus portadores a reagir sob o impulso do momento e de maneira irrefletida. A mutação está presente no gene HTR2B, um receptor de serotonina, neurotransmissor que atua no controle de impulsos. A descoberta foi feita após os pesquisadores sequenciarem e compararem o DNA de condenados por crimes violentos com um grupo controle.

A pesquisa foi feita com 96 presidiários por um grupo internacional e os resultados publicados na revista Nature.

Denominada HTR2B Q20, a mutação se mostrou três vezes mais presente entre os presidiários do que nos demais. Os 17 condenados que carregavam a mutação (do total de 96 analisados) cometeram em média cinco crimes violentos, 94% dos quais sob a influência de bebidas alcoólicas. Os crimes se constituíram em reações agressivas a eventos menores sem premeditação ou ganho financeiro.

Apesar de a presença da mutação ter se mostrado mais frequente nos criminosos, os cientistas ressaltam que sua presença não é suficiente para provocar ou prever o comportamento impulsivo. Segundo Laura Bevilacqua, do Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos, outros fatores devem ser levados em consideração, como gênero, níveis de estresse ou consumo de álcool. Por conta disso, reforçam, mais estudos são necessários para entender melhor o papel particular dessa mutação descoberta agora.

Comportamento

O pesquisador da Unicamp esclarece que comportamento violento e impulsividade são aspectos um pouco distintos do comportamento humano. "A agressividade ou comportamento violento é uma dimensão mental e comportamental própria do ser humano, uma experiência pessoal e manifestação comportamental fundamental para a sobrevivência e adaptação. É considerado fenômeno normal quando ocorre em contexto apropriado e em decorrência de motivos pertinentes à adaptação", define.

A agressividade, por outro lado, "é definida como sintoma psicopatológico quando ocorre fora de contextos adaptativos e também quando ocorre destoando claramente de padrões culturais. "O comportamento violento será "detonado" na ocorrência de determinados estímulos, mas também na dependência da característica básica do indivíduo". (Com Agência Fapesp)

SAIBA MAIS. O termo psicopata foi descrito pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia. A psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. À primeira vista, os psicopatas são vistos como pessoas normais, mas costumam ser egocêntricos, desonestos e adotam comportamentos irresponsáveis. Não sentem culpa, são insensíveis e detestam compromisso. A maioria dos psicopatas é homem.