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Nexo Jornal

A localização do crânio de Luzia após o fogo no Museu Nacional

Publicado em 19 outubro 2018

Por André Cabette Fábio

Na noite de 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções atingiu o Museu Nacional, uma instituição subordinada à Universidade Federal do Rio de Janeiro e localizada na zona norte da capital fluminense.

As chamas arderam por seis horas, consumindo a maior parte dos 20 milhões de itens da instituição, entre eles documentos, artefatos culturais, amostras biológicas e fósseis, coletados por pesquisadores ao longo dos 200 anos da instituição científica mais antiga do país.

As chamas também prejudicam as atividades de pesquisa e ensino, que envolvem de antropologia social a arqueologia, paleontologia e botânica.

Tanto a mídia nacional quanto a internacional destacaram que, entre os itens do acervo arriscados pelas chamas estava o crânio de Luzia, considerado o fóssil humano mais antigo das Américas. Estima-se que ele tenha até 13 mil anos de idade.

Toda a coleção egípcia, incluindo múmias milenares, foi perdida, mas equipes de busca continuam a vasculhar os escombros em busca de outros itens. Na sexta-feira, 19 de outubro de 2018, a equipe de escavação dos escombros anunciou que encontrou o crânio de Luzia.

Responsável pelo anúncio, a líder da equipe e professora do Museu Nacional, arqueóloga Cláudia Rodrigues-Carvalho fez a ressalva, no entanto, de que o crânio foi danificado.

“Nós conseguimos recuperar o crânio de Luzia. É claro que, em virtude do acontecimento, sofreu algumas alterações, tem alguns danos. Mas nós estamos comemorando. O crânio foi encontrado fragmentado, mas a gente vai trabalhar na reconstituição. Pelo menos 80% dos fragmentos foram identificados”

Cláudia Rodrigues-Carvalho

Arqueóloga do Museu Nacional e chefe da equipe de escavamento dos escombros

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Entre 1835 e 1845, o dinamarquês Peter Wilhelm Lund realizou escavações no município de Lagoa Santa, em Minas Gerais, onde coletou uma série de fósseis de mamíferos, entre eles pássaros, peixes, répteis, anfíbios e humanóides. A coleção foi incorporada ao Museu de História Natural da Dinamarca.

No início da década de 1970, uma missão arqueológica franco-brasileira chefiada pela arqueóloga Annette Laming-Emperaire realizou uma série de escavações em uma gruta no sítio da Lapa Vermelha IV, município de Pedro Leopoldo, que fica próximo a Lagoa Santa.

Entre os resquícios encontrados estava o crânio de uma mulher, que posteriormente foi batizado de Luzia. Acredita-se que ela teria morrido com cerca de 20 anos de idade.

Mais de uma década depois do achado de Luzia, o crânio contribuiria, junto aos achados do século 19, para fortalecer o questionamento da teoria mais difundida sobre a colonização das Américas.

Ela afirma que a primeira das ondas migratórias de humanos pré-históricos para as Américas teria ocorrido há cerca de 13 mil anos, através da Beríngia, uma porção de terra exposta que existiu em uma época em que os oceanos eram mais baixos.

Ela fica onde atualmente está o Estreito de Bering, a região marítima entre o Alasca, no continente americano, e a Sibéria, na Rússia. Por esta teoria, os seres humanos advindos dessa migração teriam traços asiáticos, ou “mongoloides”, segundo a nomenclatura usada pelos pesquisadores.

Pelas teorias mais consolidadas entre arqueólogos, o povo mais antigo conhecido é o povo de Clóvis, datado de cerca de 13 mil anos. Seus vestígios foram encontrados nas décadas de 1920 e 1930 no estado do Novo México, nos Estados Unidos.

Uma relativização dessa teoria foi realizada no final da década de 1980, pelo arqueólogo e antropólogo Walter Neves.

Em 1988, Neves trabalhava no Museu Paraense Emílio Goeldi quando foi convocado para substituir seu chefe em uma missão no exterior, em que representaria a chefia do museu em uma reunião sobre arqueologia de salvamento em Estocolmo, na Suécia.

Ele aceitou fazer a viagem, mas pediu para permanecer mais alguns dias na região. O pesquisador pretendia ir a Copenhague para estudar os achados de Peter Lund do século 19. Lá, realizou medições anatômicas sobre 15 crânios da coleção, e detectou crânios estreitos e longos, com faces proeminentes, estreitas e baixas.

De volta ao Brasil, discutiu os resultados com o arqueólogo argentino Hector Pucciarelli, então da Universidade Nacional de La Plata. Neves defendia que as medidas levavam a crer que os crânios se assemelhavam mais aos atuais povos africanos e aborígenes australianos do que com as antigas populações asiáticas, das quais, acredita-se descendem as tribos indígenas presentes até os dias de hoje nas Américas, marcadas por olhos amendoados.

Ainda em 1989, Neves e Pucciarelli assinaram um artigo na revista Ciência e Cultura, em que propunham os esboços de uma nova teoria.

Ela não negava as migrações de humanos com traços asiáticos, mas afirmava que uma onda anterior, formada por caçadores-coletores com traços africanos ou, pela nomenclatura usada por pesquisadores, “negroides”, teria acontecido há 14 mil anos. As características físicas dessa população não estariam mais representadas por nenhum grupo indígena no Brasil.

Pela teoria de Neves, a segunda onda migratória teria ocorrido há 12 mil anos, constituída por povos com traços mongoloides, representados ainda hoje pelos povos indígenas brasileiros.

A teoria de Neves não teve, no entanto, repercussão imediata. Até que, em meados da década de 1990, Neves passou a estudar o crânio de Luzia, como base para reforçar a mesma teoria.

Segundo reportagem publicada em 2017 pela revista Piauí, as primeiras estimativas sobre a idade de Luzia atribuíam a ela entre 14 mil e 18 mil anos. A base dessa estimativa era a idade atribuída a pedaços de carvão encontrados na mesma camada do crânio de Luzia.

Posteriormente, no entanto, estudos do pesquisador francês André Prous estimaram a idade de Luzia em 13 mil anos. A afirmação deve, ser no entanto, encarada com cautela - como o colágeno do fóssil não foi preservado, ela não é irrefutável.

Mesmo com as dúvidas, o simples fato de que o crânio de Luzia poderia ser o mais antigo já encontrado nas Américas fez com que a antiga teoria de Neves ganhasse atenção midiática.

Em entrevista concedida em maio de 2012 à revista de divulgação científica Pesquisa Fapesp, Neves afirmou que “o efeito midiático de Luzia fez os arqueólogos americanos olharem para nosso trabalho”.

Como parte de uma das várias matérias de repercussão da teoria, o inglês Richard Neave, especialista forense da Universidade de Manchester, utilizou tomografias do crânio, e fez uma reconstituição artística para um programa da BBC sobre como a face de Luzia poderia ser. O resultado foi uma jovem com lábios grossos e nariz largo, diferente da ideia que se faz dos traços mongoloides, ou asiáticos.

A impactante imagem reforçou a repercussão da tese de Neves, e contribuiu para que até mesmo o meio científico tivesse que se posicionar em relação a ela.

A partir do final dos anos 1990, Neves empreendeu uma nova série de escavações na região de Lagoa Santa, em busca de novos fósseis que corroborassem a ideia de que Luzia não era um achado isolado, mas parte de um conjunto que habitara o local.

Em julho de 2001, foram encontradas no sítio arqueológico de Lapa das Boleiras, no município de Matozinhos, também em Minas Gerais, três ossadas com características similares, e cerca de 8.500 anos de idade. Foi o primeiro achado de ossos humanos desenterrados na região desde 1975, segundo a reportagem da Revista Fapesp.

Neves continuou a estudar também achados mais antigos, que não eram seus. Em 2004, publicou um novo trabalho, este a partir de fósseis escavados na década de 1950 no complexo de sítios pré-históricos de Cerca Grande, também na região de Lagoa Santa. Eles tinham 9.000 anos de idade, e traços similares aos encontrados em Luzia.

Com o tempo, pesquisadores de outras regiões passaram a buscar o mesmo tipo de traço em ossadas encontradas nas Américas. Traços similares aos de Lagoa Santa foram encontrados em ossadas de México, Colômbia e Estados Unidos.

Em 2005, Neves publicou, em parceria com seu aluno Mark Hubbe, uma síntese dos achados do tipo, compreendendo a análise de 81 crânios de Lagoa Santa, datados de entre 7.500 e 11 mil anos.

Todos possuíam traços similares entre si, contribuindo para fortalecer a tese de Neves no que diz respeito à presença de indígenas com traços africanos e aborígenes no Brasil - mas não, no entanto, no que diz respeito à idade dessa ocupação, já que não foram encontrados crânios tão antigos quanto os de Luzia.

Apesar de relevante, a hipótese levantada por Neves não é unanimidade. Isso porque elas se baseiam principalmente nas medidas encontradas nas ossadas.

Nas últimas décadas, estudos genéticos têm ganhado papel central no que diz respeito às teses sobre migrações humanas pré-históricas. Segundo a reportagem da Piauí, estudos não têm sido capazes de encontrar traços de povos africanos nos indígenas brasileiros.

Em entrevista concedida em novembro de 2017 à revista, o pesquisador André Strauss, especializado no estudo do DNA para reconstituir a história de populações antigas, afirmou que:

“Uma boa parcela desses trabalhos indica que o primeiro povoamento das Américas aconteceu há uns 16 mil anos por um pequeno grupo que não tinha conexões genéticas profundas com o de Lagoa Santa”