Notícia

Jornal da USP

A liberdade de crescer em cativeiro

Publicado em 23 julho 2000

O Departamento de Produção Animal da escola superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba, mais especificamente o Laboratório de Ecologia Animal, sob a coordenação do professor Luciano Verdade, vem desenvolvendo vários estudos para a conservação e uso racional de espécies silvestres, inclusive jacarés-de-papo-amarelo. Produtores interessados na criação em cativeiro de jacarés podem contar com matrizes de reprodutores altamente selecionados e assistência técnica especializada. Através de financiamentos da Fapesp, CNPq, Fundo Nacional do Meio Ambiente e World Wildlife Fundation, o laboratório busca fazer o manejo genético da colônia e certificar-se da origem desses animais provenientes das fazendas de criação associadas ao Programa Experimental de Criação em Cativeiro do Jacaré-de-Papo-Amarelo no Centro-Sul e Nordeste do Brasil. O Projeto Jacaré conta com central de operações, estufa e laboratório de crescimento de filhotes. Luciano diz que no início do programa, em 1988, só havia três animais; hoje são 700, com baixa mortalidade. "A maioria dos animais que nascem no nosso criatório são destinados a fazendas". Observa. Para manter os filhotes em estufa, Luciano usa como alimentação descartes de frango, cabra, carneiro, vaca e bezerro, muitas vezes produzidos no próprio campus da Esalq. O jacaré-de-papo-amarelo, cientificamente conhecido como Caiman latirostris, é um animal das bacias dos rios Paraná e São Francisco. Seus ovos são coletados artificialmente. "A produção é interessante do ponto de vista econômico, porque a carne e o couro de jacaré têm despertado grande procura nos maiores mercados consumidores e também por apresentarem valor de revenda relativamente alto", afirma o professor. "Além disso, o jacaré é um animal com ciclo de crescimento muito longo. Leva um ano para alcançar o tamanho ideal para abate, por isso sua carne e o couro sempre vão apresentar preços alto". BAIXO TEOR DE COLESTEROL Nos últimos anos vem crescendo o interesse por uma alimentação mais sadia e com alto valor nutricional, e a carne de jacaré é uma das boas opções por ser magra, não apresentar colesterol e ter baixo teor de gordura intermuscular. É vendida em lojas especializadas e autorizadas pelo Ibama, por R$ 21.90 o quilo. Quando se compram matrizes ou reprodutores, o preço por animal chega a R$ 250,00. Segundo Luciano, nem sempre é aconselhável partir para a criação de jacarés em cativeiro. "Embora a carne e o couro apresentem alto valor de mercado, o custo para a criação é grande em razão de as espécies serem carnívoras e consumirem grandes quantidades de carne." Um dos objetivos do projeto é criar alternativas para diminuir os custos da produção, e maximizar o valor unitário do produto. Uma das sugestões para quem quiser criar jacaré, segundo o professor, é manter o criatório próximo de uma granja ou qualquer outra criação que possa fornecer descartes para a alimentação do animal. Outra exigência é ter água corrente em abundância. "Gastam-se 90 metros cúbicos de água por dia. Estamos estudando uma forma de reciclar essa água." O professor sugere que a carne seja vendida sem intermediários e o couro, processado de forma conjunta pelos criadores para aumentar o poder de barganha. Quanto ao couro, segundo Leandro Scur, proprietário do Tre Anytry Beneficiamento de Peles Exóticas Ltda., em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, curtir o couro de jacaré e peles exóticas, como lagarto, peixe e cobras, é economicamente viável, embora o governo embolse 30% de impostos sobre toda a produção. No mercado externo o couro chega a U$ 1,50 por centímetro. Depois de tingido e com acabamento final, o preço gira em torno de U$ 2,20 por centímetro. Os maiores compradores são os fabricantes de calçados e artefatos, e a procura por empresas estrangeiras é intensa. O processo de curtição leva de 30 a 90 dias entre preparar o couro para ficar de molho em produto químico, secar em estufa, ser tingida e estar pronto para ser negociado. Questionado sobre couros mais valorizados no mercado, se o de cobra, lagarto, jacaré ou de boi, Scur disse não ser possível estabelecer um parâmetro comparativo, porque o mercado de peles e couros é muito volúvel, depende da classificação, tamanho, sazonalidade. "A moda é um dos grandes impulsionadores de preço", observa. Há nove anos no mercado de curtição de peles, Scur diz ter desenvolvido tecnologia própria e que é preciso comprar os animais de criatórios autorizados pelo Ibama. Outras linhas de pesquisa desenvolvidas pelo Laboratório de Ecologia Animal, coordenado pelo professor Luciano Verdade, estão voltadas para o manejo extensivo da capivara e semi-intensivo da tartaruga-da-Amazônia. A equipe também participa do programa Biota-Fapesp, que levanta as espécies de vertebrados em função da paisagem na bacia do rio Piracicaba, para avaliar o impacto que a agricultura e o desenvolvimento humano vêm causando na fauna silvestre. Maiores informações sobre criação de jacarés pelo telefone (0xx19)429-4223, e-mail:lmv@ca rpa.ciagri.usp.br. Para saber onde curtir pele e couro na Tre Anytry Beneficiamento de Peles Exóticas Ltda, Rua Paes Leme, 76, cep 93525-310, Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, tel. (0xx51)594-9128 ou 594-6566, e-mail: vincent@nh.conex.com.br LIDAR COM ALIMENTO SE APRENDE Com o objetivo de formar profissionais para atuar na área de alimentos e nutrição com conhecimento crítico da realidade social, econômica, política e cultural, foi aprovado o curso de graduação em Ciências dos Alimentos, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, com 40 vagas para o período noturno, a partir de 2001. A Esalq forma anualmente profissionais altamente qualificados em diferentes áreas do conhecimento relacionadas às ciências agrárias e tem procurado priorizar a abertura de novos horizontes à potencial produção de alimentos, através do aumento da produtividade agropecuária e da promoção de múltiplos recursos tecnológicos que visem ao aumento da vida útil dos alimentos. A revolução nos hábitos alimentares trouxe a preocupação com relação à alimentação e ao bem-estar físico. Pesquisas têm demonstrado a prevalência de distúrbios como a obesidade associados ao consumo dietético. Hoje o marketing define os hábitos alimentares e os consumidores exigem maior controle da qualidade dos alimentos, preço acessível e menor impacto das empresas produtoras sobre o meio ambiente. Todos esses fatores afetam direta ou indiretamente a produção agrícola, criando espaços para uma atuação profissional que intermedeie a produção e o consumo. O profissional terá formação diversificada, durante quatro anos, envolvendo as áreas de ciências biológicas, humanas e tecnologia. Poderá atuar em docência e pesquisa na área de alimentação e nutrição, gerenciamento e participação em equipes técnicas de empresas agroindustriais, assim como em trabalhos de assessoria, consultoria, controle de qualidade e marketing; administração de órgãos, instituições públicas responsáveis pela formulação e implantação de programas de defesa e educação do consumidor; gerenciamento de serviços de atendimento ao consumidor em empresas de alimentos, restaurantes públicos, indústrias, redes comerciais ligadas ao ramo da alimentação, laboratórios de análise sensorial e de qualidade em indústrias de matérias-primas. Os alunos terão contato com os laboratórios pertencentes às matérias básicas da Esalq, como biologia, química, matemática e física. Terão ainda acesso aos departamentos de agroindústrias, de química de alimentos, microbiologia de alimentos e análises de alimentos, análise sensorial, ensaios biológicos e processamento de alimentos. Através de uma planta piloto de processamento os alunos aprenderão as operações unitárias para obter produtos como secagem, desidratação, defumação, refrigeração, congelamento, enlatamento, etc. para frutas, hortaliças, carnes, pescados, óleo, amido, mandioca, milho e uma sala computadorizada para análise sensorial. Entre os equipamentos à disposição do curso está uma destilaria-piloto para práticas de fermentação. Segundo Marília Oetterer, professora do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição, o papel da Universidade é acadêmico, de formação de recursos humanos e não de "testar novos alimentos". "Não há prestação de serviços desta natureza em qualquer curso da USP, a não ser em casos de pesquisas integradas, convênios, teses aplicadas à indústria."