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A lama vermelha do acidente na Hungria pode ter utilidade

Publicado em 19 outubro 2010

Por Maria Lúcia Pereira Antunes e Livia Sottovia

Uma alternativa para os problemas causados pela enorme produção de lama vermelha é o desenvo lvimento de tecnologias que visem a sua utilização

Neste mês de outubro tivemos a felicidade de acompanhar o êxito da operação de resgate dos mineiros do Chile. Este foi um acidente que terminou de forma satisfatória. Porém, neste mês outro incidente extremamente grave ocorreu, transformando se no mais grave acidente ambiental deste ano na Europa.

Pudemos ler e ouvir nos noticiários sobre a lama tóxica que foi derramada na Hungria, em quatro de outubro. Em razão do rompimento de um dique de armazenamento de lama vermelha, houve um vazamento de 700 mil metros cúbicos desse resíduo. Essa lama atingiu algumas cidades como uma enxurrada, arrastando carros, casas e alcançando o rio Danúbio.

Mas, o que vem a ser essa lama vermelha? Porque armazenaram tamanha quantidade desse produto? Para entendermos melhor essas questões devemos nos reportar à produção de um dos metais de maior utilidade no mundo contemporâneo, o alumínio.

O minério utilizado para a obtenção do alumínio metálico é a bauxita. O Brasil possui a terceira maior reserva de bauxita do mundo, perdendo apenas para Guiné e Austrália.

O alumínio é produzido a partir da alumina (óxido de alumínio), usando o processo de Heroult-Hall. E a alumina é extraída da bauxita pelo processo Bayer.

A bauxita é constituída em sua maioria por compostos de alumínio (hidróxidos de alumínio: gibsita e boemita) e algumas impurezas de compostos de ferro, de silício e de titânio.

O processo Bayer utiliza-se da propriedade dos hidróxidos de alumínio, presentes na bauxita dissolverem-se em solução de hidróxido de sódio (soda cáustica). Inicialmente, a bauxita é moída e adiciona-se a ela uma solução de hidróxido de sódio sob determinadas condições de pressão e temperatura, desta forma as espécies que contém alumínio são dissolvidas formando um licor verde o qual será utilizado para a produção de alumina. Os resíduos de óxido de ferro e outros compostos que sobram dão origem a um resíduo insolúvel denominado lama vermelha. Este resíduo é tratado de forma que se possa recuperar certa quantidade de soda cáustica e posteriormente o material é disposto em locais adequados denominados lagoas de disposição.

Essas lagoas devem ser projetadas de forma adequada, caso contrário, corre-se o risco de contaminação ambiental. Elas devem ser constantemente vigiadas e controladas para que não ocorram acidentes como esse que ocorreu na Hungria.

A quantidade de lama vermelha gerada pode chegar ao dobro da quantidade de alumina produzida. Sendo assim, a quantidade de lama vermelha produzida é muito grande, e a sua disposição deve prever uma grande área. Tudo isso contribui como custo adicional e permanente ao processo de produção do alumínio.

A lama vermelha é um resíduo com elevado teor alcalino, porém segundo a Environmental Protecy Agency (EPA), não é classificada como um rejeito perigoso, mas com potencial para provocar contaminação de águas superficiais e de águas subterrâneas.

Uma alternativa para os problemas causados pela enorme produção de lama vermelha é o desenvolvimento de tecnologias que visem a sua utilização. Nas últimas décadas, diversos estudos vêm sendo desenvolvidos no sentido de que sua utilização venha a produzir diversos benefícios econômicos e ambientais. Na construção civil existem estudos utilizando a lama vermelha como insumo na produção de cimento, confecção de tijolos, telhas e isolantes. Na indústria química, sua ação catalisadora é utilizada em várias aplicações.

Em Sorocaba também existem pesquisas que procuram dar outro destino à essa lama, tentando ampliar as possibilidade de utilização da mesma. Na Unesp de Sorocaba, o grupo Natel (Núcleo de Automação e Tecnologias Limpas), vem desenvolvendo, com apoio da Fapesp, estudos que visam caracterizar e identificar as propriedades da lama vermelha brasileira e a utilizá-la como adsorvedor para o tratamento de efluentes têxteis. Temos também trabalhado na utilização da lama como pigmento para tintas, na confecção de artefatos de concreto e na adsorção de metais pesados.

Pensar e encontrar alternativas para o uso desse resíduo pode gerar novas tecnologias e ainda diminuir o risco de acidentes. Tecnologia e Meio Ambiente devem sempre andar juntas, só assim encontraremos soluções ás questões ambientais.

Maria Lúcia Pereira Antunes é professora (malu@sorocaba.unesp.br) e Livia Sottovia é aluna do curso de graduação em Engenharia Ambiental da Unesp-Sorocaba (www.sorocaba.unesp.br).