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Jornal da Tarde

A jóia de Thereza. Este órgão de US$ 1 milhão

Publicado em 23 junho 2002

Por ARMANDO SERRA NEGRA - Jornal da Tarde
Thereza Hollnagel fez fama internacional como organista. Hoje, aos 80 anos, quer se desfazer do instrumento de cinco toneladas, fabricado na Itália em 1951 especialmente para ela. Thereza Pimenta Hollnagel, de 80 anos, não sabe o que fazer com seu órgão tubular, avaliado em quase US$ 1 milhão. É bastante dinheiro. Por isso, chamou o corretor de negócios Eduardo Vidigal Crissiuma para ajudar a vendê-lo. "Estou com idade e não posso mais continuar morando tão distante do centro de São Paulo. Quero vender a chácara, ir para um apartamento e não posso levar o órgão comigo", conta Thereza, entristecida pela distância que a separa de uma vida mais agitada. "Adoro ir ao cinema, teatro, recitais e concertos; preciso ficar mais perto do agito", diz. A Chácara Bel-Ar, com 250 mil m2 de jardins, por si só já é uma beleza. A ampla sede, projetada pelo renomado arquiteto Oswaldo Bratke, nos anos 40, viveu seu grande apogeu e glória na década seguinte. Mais precisamente a partir do dia 5 de agosto de 1952, quando o industriai do ramo farmacêutico Bruno Hollnagel comemorou seu aniversário com uma grande festa a rigor, reunindo a nata intelectual, artística e econômica da sociedade paulistana do pós-guerra. Contando com convidados como os pintores Lasar Segall e Samson Flexor, os arquitetos Gregório Warchawchic e Flávio de Carvalho, a pianista Jara Bernette, os empresários Alfredo e Esther Landau, Samuel Klabin, entre outros - como registrou a revista Rio na época - o empresário aproveitou a ocasião para apresentar o colossal instrumento que mandou fabricar em Crema, na Itália. Pesando cinco toneladas, somadas a outras três da embalagem, o órgão partiu de Gênova em 28 de outubro de 1951, a bordo do navio Giulio Cesare. Um mimo para sua mulher Alda, já então uma organista de fama internacional. O instrumento, com seus 3 mil tubos, tem poder para equipar uma catedral, tendo sido construído pelo mesmo fabricante do órgão do Teatro Municipal de São Paulo, que tem quase o dobro do tamanho, com 5.827 tubos. Talvez seja o maior órgão particular do mundo", avalia o organeiro Ricardo Clerice, de 46 anos, que cuida do órgão desde 1979. Alda era uma virtuose e já possuía um órgão de tubos, nacional, de dois manuais (teclados), fabricado pelo organeiro imigrante Salvatore Lanzzilotta. Mas com a visita ao Brasil de seu antigo professor - ninguém menos que Fernando Germani, o primeiro organista da Basílica de São Pedro, no Vaticano -, o marido entusiasmou-se quando o mestre se prontificou a projetar um instrumento de maior quilate, que correspondesse ao brilhantismo musical de sua mulher. "O próprio Germani fez o estudo fônico da casa, sobre o qual a empresa italiana Pontifícia Fabbrica d'Organi Commendatore Giovanni Tamburini construiu o órgão, o primeiro de quatro teclados do País", revela Ricardo, contando que o segundo foi o alemão Walcker, instalado no Mosteiro de São Bento, em 1954, com 6 mil tubos. Além de restaurar e cuidar de órgãos, Clerice também toca muito bem - tocou no próprio São Bento, nos anos 80 - e os constrói, como a réplica de um instrumento de 1840, com 250 tubos, que fabricou para a Igreja Matriz de Baependi. em Minas. Os tubos do instrumento que Thereza herdou de Alda vão de 6 centímetros (para as notas mais agudas) a 6 metros de altura (mais graves) e são assoprados por nove foles, alimentados por dois motores elétricos, um com 3/4 de HP -para o quarto teclado - e outro com 2 HP - para os outros três. Para ela, tocar órgão é como pintar um quadro: com as teclas, se dá colorido ao som". De seu dedilhar, Beethoven Brahms, Shubert. Vivaldi, entre outros, vão enchendo a sala como um estrondoso arco-íris. MODELO MAIS ANTIGO ESTÁ NO LARGO SÃO FRANCISCO Em 1599 foi criado o primeiro posto de organista do Brasil, por determinação real, na Sé da Bahia. O órgão mais antigo de São Paulo é do século XVIII, com 52 teclas, de fabricante desconhecido, instalado na Igreja das Chagas do Seraphico Pai São Francisco, no Largo São Francisco. O maior órgão do País está na Catedral da Se (Igreja Nossa Senhora da Assunção), com 10.200 tubos, pesando 45 toneladas, e foi fabricado em 1954 pela empresa italiana Balbiani Vegessi Bossi Foi inaugurado no mesmo ano, juntamente com a Catedral, no dia 25 de novembro. Dia de Ação de Graças, quando a cidade comemorou seu IV Centenário. O segundo maior órgão está na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora de Niterói, no Rio, com 9 mil tubos. Dos 54 órgãos citados no Catálogo de Órgãos da Cidade de São Paulo, de Dorotéa Kerr (Fapesp) - que curiosamente não cita o de Thereza Pimenta Hollnagel -, apenas o do Mosteiro de São Bento e o do Teatro Municipal também apresentam quatro manuais. O que faz o seu ser o quarto maior órgão paulistano. No Livro Guinness de Recordes, o maior órgão do mundo em funcionamento é o Grand Court Organ de 1911, com seis manuais e 30.067 tubos, instalado na Wanamaker Store, na Filadélfia (EUA). Como não se refere ao "maior órgão particular do mundo", os organeiros crêem que o da Chácara Bel-Ar seja um forte candidata. Salvo algum castelo medieval europeu que, por ventura, esteja melhor equipado.