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A invasão dos clones

Publicado em 03 dezembro 2009

Uma natureza sem sexo poderia ser a concretização do sonho dos moralistas pudicos, mas tende a trazer perigos para o futuro, segundo um estudo promovido pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (MG), sob a coordenação do professor Paulo Eugênio Oliveira.

De acordo com o estudo, a crescente pressão do uso de áreas do Cerrado para plantações comerciais, criação de gado e produção de carvão pode contribuir para o predomínio de plantas apomíticas - cujas sementes são formadas sem fecundação -, resultando em um empobrecimento da biodiversidade no bioma.

As pesquisas coordenadas pelo professor Oliveira foram anunciadas durante o simpósio internacional Biologia evolutiva e conservação da biodiversidade: aspectos científicos e sociais, realizado em novembro na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo ele, estudos realizados há cerca de oito anos na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, levantaram a hipótese de que a quantidade de plantas apomíticas no Cerrado seria muito maior do que o estimado.

A pesquisa mostra que de 6% a 10% das plantas lenhosas do Cerrado já foram alcançadas pela apomixia. E a tendência, a manter as atuais condições de degradação ambiental, é piorar: Com diminuição de fluxo gênico, o que podemos prever é que essas espécies apomíticas serão favorecidas, diz Oliveira. Quando ocorre a apomixia, as plantas geradas são idênticas à planta mãe. É um tipo de processo no qual a reprodução sexuada parece ocorrer, mas na verdade os embriões são clonais, explicou. Em suma: sai o sexo, entra a clonagem.

Evolução ou desastre?

Uma curiosidade é que estudos anteriores sugeriam um papel importante para a apomixia em termos de evolução, porque manteria o genótipo intacto, mesmo em condições de degradação ambiental. Isso deveria ser um mecanismo de proteção para o futuro, porque as plantas poderiam se manter mesmo que toda a rede de polinizadores perecesse.

No entanto, o novo estudo sinaliza que a expansão das comunidades formadas crescentemente por espécies apomíticas terminaria reduzindo a capacidade de suporte dos polinizadores. Oliveira explica que, quando há um grande número de animais e plantas, o desaparecimento de uma delas não afeta tanto a teia de interações. Mas, à medida que muitas plantas somem, a teia provavelmente será empobrecida.