Notícia

Revista PIB - Presença Internacional do Brasil

A inovação faz a diferença

Publicado em 01 junho 2008

Há empresas e países que inventam tecnologias e produtos. Outros começam imitando e acabam por original. E há aqueles que apenas copiam ou repetem fórmulas tradicionais, às vezes com qualidade, mas sem uma gota de criação. No Brasil de algum tempo atrás, seria difícil, quase impossível, encontrar empresas enquadradas na primeira categoria. Algumas poderiam se encaixar na segunda. Mas a imensa maioria estaria mesmo amontoada na terceira.

Quase 20 anos depois da abertura da economia brasileira à competição internacional esse quadro está mudando. Para um grupo crescente de empresas locais, inovação deixou de ser uma palavra estranha, às vezes, assustadora Prova disso é um levantamento recente feito pela Consultoria americana IDC, mostrando que o Brasil deverá investir neste ano US$ 28 bilhões em tecnologia, valor equivalente ao previsto para a Espanha. Essa cifra assegura ao Brasil uma Posição privilegiada no grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China): é o segundo país que mais deverá investir em tecnologia, atrás apenas da China.

Apesar do crescimento recente dos investimentos, ainda não são muitas as empresas que fazem da inovação um mantra cotidiano: de acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do governo federal, cerca de 1.200 empresas brasileiras são capazes de competimos mercados interno e externo por meio da inovação e da diferenciação de produtos, e não apenas por causa de custos e preços mais baixos. Esse número representa apenas 1,7% das 72.000 empresas industriais analisadas no estudo. Ainda assim, essas 1.200 companhias são responsáveis por mais de 25% do faturamento das empresas investigadas pelo Ipea. Empregam uma força de trabalho mais educada, pagam salários mais altos e, graças a elas, já não é tão difícil citar exemplos de novidades tecnológicas Made in Brazil.

Pode-se dizer mesmo que, desde o tempo em que Santos-Dumont maravilhava Paris com o 14-Bis e com o Demoiseile, há um século, invenções brasileiras não despertam tanto interesse no exterior como agora. Os aviões da Embraer estão no mundo todo. O país tornou-se referência na exploração de petróleo em alto-mar e na criação de um mercado para carros movidos a álcool da cana-de-açúcar — a ponta mais saliente de um vasto complexo agroindustrial e tecnológico desenvolvido nas últimas décadas para produzir energia e novos materiais a partir de matérias-primas renováveis. Até em áreas de ponta de desenvolvimento mais recente, como a biotecnologia aplicada à saúde, o Brasil desponta como um produtor importante de inovações. Uma pesquisa recente conduzida pelo McLaughlin-Rotman Centre for Global Health (MRC), de Toronto, no Canadá, concluiu que o país tem capacidade científica e de mercado para se tornar um ator global na área.

Mas é o etanol a maior vitrine da tecnologia brasileira lá fora. “Energia é a nova marca do Brasil”, escreveu recentemente o colunista Roger Cohen, do InternationaL Herald Tribune, de Paris. Políticos, ambientalistas e especialistas em energia estudam e discutem a experiência brasileira de substituição em larga escala do combustível fóssil por um recurso renovável — um objetivo por enquanto distante para o resto do mundo, que tenta dar os primeiro passos nessa direção. Ainda neste ano, começam a ser fendidos na Suécia e na França carros Peugeot e Citroën movidos a etanol ou a gasolina. Nos motores, eles vão carregar uma versão da tecnologia flex desenvolvida no Brasil desde os anos 1990, adaptada agora às condições européias.

A promissora economia da biomassa atrai empresas de setores tradicionais, como a Braskem, braço petroquímico do grupo Odebrecht. Depois de criar um plástico reciclável a partir do etanol da cana-de-açúcar, a empresa se prepara para produzi-lo em escala comercial. Numa recente viagem a Roma, onde debateu a alta das commodities agrícolas na FAO — a agência da ONU para a alimentação e a agricultura—, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou um carrinho de brinquedo fabricado com o plástico de etanol produzido pela Braskem.

O presidente da empresa, José Carlos Grubisich, reconhece que foi preciso mirar mais alto a fim de torná-la mais competitiva nos mercados internacionais. “Nossa pesquisa era voltada para a aplicação, buscava responder às necessidades dos clientes com programas de curto e médio prazo”, diz Grubisich. “Mas vimos que precisávamos ter projetos de ruptura e de impacto, capazes de gerar patentes.” A aposta foi bem sucedida. A Braskem, que investiu na pesquisa do plástico verde US$ 5 milhões, continua a ser uma empresa petroquímica, mas espera ter, em 2010, até 10% de sua produção total de polietileno feita a partir do etanol, com potencial para chegar a bem mais.

Os choques do petróleo da década de 1970, que levaram à introdução em larga escala do álcool da cana como combustível alternativo, também serviram de senha para disparar a busca de conhecimento próprio por parte da Petrobras. Até então, a estatal parecia estar satisfeita em importar tecnologias de fora, tanto para refinar quanto para produzir petróleo em seus próprios campos. Mas com o preço do óleo cru nas alturas, a Petrobras decidiu pôr em produção os campos petrolíferos de Albacora e Marlim, descobertos em meados dos anos 1980 em alto-mar, no litoral do Rio de Janeiro. A dificuldade era a localização: os campos estavam em profundidades de até 2.000 metros, nas quais nenhuma empresa antes tinha conseguido explorar comercialmente o óleo.

A Petrobras respondeu ao desafio com o Procap, um amplo programa de capacitação tecnológica para a exploração em águas profundas que combina pesquisa própria, o apoio de universidades e centros de pesquisa e o desenvolvimento de fornecedores de equipamentos e serviços. Usa, por exemplo, um tanque oceânico de provas instalado no programa de pós-graduação em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) para testar os projetos de plataformas e equipamentos submarinos. O programa está hoje em sua terceira ver são, todas batizadas com a profundidade de produção submarina que se pretendia atingir: mil metros no primeiro momento, 2 mil metros num segundo estágio, e 3 mil metros na atual.

A Petrobras teve de desenvolver tecnologia em todas as etapas da extração de petróleo em alto-mar. Bateu recordes e ganhou prêmios internacionais ao instalar equipamentos de controle da pressão e da vazão dos poços — as “árvores de Natal” - a profundidades cada vez maiores. Inovou também ao inventar métodos econômicos para baixar pesado equipamento ao fundo do mar. Usando um sistema de cabos ligados a barcos na superfície, dispensou o uso de guindastes ultrapesados que teriam de ser deslocados de outras bacias petrolíferas a um custo altíssimo.

As tecnologias desenvolvidas pelo Procap 2000 estão em operação no campo de Roncador, a profundidades próximas aos 2 mil metros. Já os resultados do Procap 3000 deverão ser postos à prova nos campos que a Petrobras opera nas águas do Golfo do México, nos Estados Unidos, que chegam a 2.800 metros de profundidade. Mas o desafio maior será a operação comercial dos campos da camada pré-sal (abaixo da camada de sal do leito submarino), como o Tupi, descoberto recentemente a profundidades ainda maiores (cerca de 7 mil metros) na Bacia de Santos, no litoral de São Paulo. Ainda mais do que antes, o preço do petróleo está novamente lá no alto e as reservas conhecidas lá no fundo. Mas a Petrobras está mais preparada, investindo neste ano cerca de US$ 1,1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento, valor levemente superior ao aplicado em 2007. A empresa calcula que cada real investido na pesquisa tecnológica produz um retorno de R$ 4.

Outro exemplo de inovação originária do Brasil não tem o mesmo apelo público do etanol e do petróleo, mas provocou impacto numa indústria de alta tecnologia. Trata-se do complexo sistema de parcerias com os grandes fornecedores que a Embraer, fabricante de aviões comerciais e militares, utiliza para o desenvolvimento e a produção dos novos modelos. “A indústria aeronáutica envolve enormes recursos intelectuais, principalmente de engenharia”, diz Satoshi Yokota, vice-presidente de Desenvolvimento Tecnológico e Projetos Avançados da Embraer. Para evitar desencontros e manter o controle total, os construtores de aviões sempre fizeram todo o trabalho de projeto e desenvolvimento em casa, com equipes próprias.

A Embraer descentralizou esse processo, dividindo o desenvolvimento com empresas parceiras, o que só foi possível graças ao progresso da tecnologia digital de projeto. “O projeto digital define o produto de maneira inequívoca. Não tem como não encaixar”, explica Yokota. A empresa de São José dos Campos, interior de São Paulo, saiu na frente no uso dessa tecnologia. Nos anos 1990, conseguiu desenvolver e pôr em produção um avião em menos tempo e de maneira mais econômica que os concorrentes.

Histórias como essas apontam para a emergência de uma nova competitividade na indústria brasileira. É isso o que constata o sociólogo Glauco Arbix, da Universidade de São Paulo, que dirigia o Ipea quando foi feito o estudo citado no início desta reportagem. “O Brasil está mostrando que tem capacidade de criar empresas de padrão mais maduro”, diz Arbix. São empresas mais propensas a competir no mercado mundial, que rompem com o modelo tradicional da indústria brasileira, voltado para a substituição de importações e de horizonte limitado ao mercado interno. O país, no entanto, precisa avançar muito para alcançar as economias mais inovadoras do mundo, conclui um outro estudo, mais recente, também coordenado por Arbix. O trabalho, encomendado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e executado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Crebrap), compara as estratégias competitivas de sete países ricos que têm a inovação como pedra de toque de sua política industrial (assumida ou não) — Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido, Irlanda, Finlândia e Japão.

Para equiparar-se a esse time, o Brasil precisa instalar a inovação no centro de sua estratégia de crescimento, conclui o estudo, batizado de Mobilização Brasileira pela Inovação Tecnológica (Mobit). Esse é um trabalho a ser compartilhado pelas empresas, pela universidade e pelo Estado, mas centrado especialmente nas empresas do setor privado, as mais capacitadas para desenvolver produtos e serviços com chances de sucesso no mercado. Apesar de alguns exemplos vistosos que atraem a atenção, é aí, principalmente, que o Brasil ainda falha — na inovação empresarial e na articulação desses três atores. “O número de pesquisadores de grau superior empregados por empresas é muito pequeno no Brasil, apenas 20% do total de cientistas do país”, alerta Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Nas economias mais desenvolvidas, esse número passa de 50%. Mas, por muito tempo, diz Brito Cruz, se acreditou que fazer pesquisa era papel só da universidade. No entanto, há diferenças importantes entre a pesquisa universitária e a feita na empresa. “A universidade faz pesquisa para avançar o conhecimento humano e educar bem seus esdantes”, afirma Brito Cruz. Só uma parte dela terá interes se para a empresa, que tem objetivos mais imediatos.

O Observatório da Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenado por Arbix, busca agora apoio para um estudo sobre o que fazem a China e a Índia, as grandes potências emergentes que formam com o Brasil e Rússia os chamados BRICs, para estimular a inovação em suas economias. Ele chama a atenção para um traço comum tanto aos ricos “tradicionais” como aos gigantes da Ásia: ao contrário do que ainda se imagina por aqui, inovação, nesse contexto, não é só pesquisa tecnológica de (embora não a exclua, muito ao contrário). Mudanças nos processos produtivos, serviços, gestão, logística e novos modelos de negócios também se enquadram no conceito, desde que proporcionem a quem os adote uma vantagem competitiva. Cerca de 60% dos investimentos inovador da China e da Índia têm a ver com a utilização de conhecimento maduro e não com tecnologias de vanguarda, nota ele.

O que é preciso para turbinar e disseminar a cultura da inovação entre as empresas brasileiras? Entre outras coisas, programas mais abrangentes de consultoria e “extensão tecnológica” para as pequenas e médias empresas, responde o professor Mário Sergio Salerno, chefe do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP. “A pequena empresa não é sempre de ponta, mas sem ela não há base industrial”, diz Salerno, que foi consultor-técnico do Mobit. Os programas existentes, mesmo se bem pensados e intencionados, não conseguem ter o alcance necessário, não atingem um número crítico de empresas para fazer diferença. O diagnóstico bate com a recomendação de especialistas finlandeses que estiveram em maio no Brasil, acompanhando a visita do primeiro-ministro Matti Vanhanen.

A Finlândia, país de origem dos celulares Nokia, é reconhecida mundialmente como exemplo de “economia criativa”, lastreada em conhecimento e inovação constante. Em palestra a empresários brasileiros, representantes da Finpro — a agência de promoção comercial finlandesa — listaram como uma das qualidades desenvolvidas no país o cuidado e a ênfase na concretização de programas e projetos. Implement it! era um dos itens da apresentação feita por Jorma Turunen, presidente da Finpro, na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp).

Na opinião dos finlandeses, o Brasil faz boa pesquisa pública, mas tem dificuldades para transformar seus resultados em benefícios econômicos e sofre com o déficit de educação básica, outra área em que a Finlândia lidera os rankings internacionais. A Finpro mantém um escritório no Brasil. Não por acaso, está localizado em São José dos Campos, o pólo de excelência que abriga a Embraer e o Instituto Tecnológico Aeroespacial (ITA), semente de boa parte da indústria brasileira de alta tecnologia — e não nas metrópoles de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Os finlandeses sabem reconhecer uma fonte de inovação quando a encontram.

Vitrine tecnológica

O motor flex é a mais conhecida inovação Made in Brazil

Quando se fala em inovação tecnológica com digitais brasileiras, uma seguramente deve vir à mente das pessoas mais bem informadas de qualquer lugar do mundo: o carro a álcool, especialmente na versão mais recente, a do motor flexível. Desenvolvido aqui por engenheiros brasileiros de multinacionais européias que fabricam sistemas eletrônicos de alimentação de combustível, o motor flex é capaz de funcionar com gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois produtos, e passou a ser visto internacionalmente como uma alternativa imediata, mais limpa e mais barata, aos motores movidos a derivados do petróleo.

Mas nem sempre foi assim. A tecnologia do motor flex — simplificadamente, um conjunto de sensores ligado a um software programado para ajustar o sistema de injeção eletrônica de acordo com a mistura de combustível no tanque — começou a ser desenvolvida no começo dos anos 1990.  “Em 1994, já existia um carro flex que funcionava bem”, diz Fábio Ferreira, gerente de desenvolvimento de produtos na Robert Bosch, braço brasileiro do Grupo Bosch, da Alemanha. Mas a novidade ficou quase oito anos “encostada”, tempo necessário para convencer as montadoras de carros de sua viabilidade técnica e econômica.

O carro pioneiro era um Chevrolet Omega da frota da Bosch, que chegou a ter cinco protótipos flex, de marcas e motores diferentes, rodando em testes e apresentações. Mas foi preciso que o preço do combustível da cana começasse a cair, por volta de 2001, e o consumidor voltasse a se interessar pelo carro a álcool, para que as montadoras instaladas no Brasil se decidissem a oferecer o motor flexível. Nesse intervalo, a tecnologia foi refinada para melhorar a eficiência e baixar o custo. Até o começo da produção em massa, mais dois anos se passaram em testes e calibragem. Finalmente, em 2003, o primeiro carro flex, um Volkswagen Gol, saiu das linhas de montagem. O sistema de injeção a bordo era fabricado por outra empresa européia, a italiana Magneti Marelli, cuja filial brasileira desenvolvera paralelamente sua própria tecnologia flex.

O resto é história. O motor flex tomou conta do mercado, e o temor do aquecimento global provocado pela poluição atmosférica fez do programa do etanol uma vitrine da tecnologia nacional para o mundo. Na esteira desse sucesso, engenheiros brasileiros da indústria automobilística repassam a tecnologia flex a suas matrizes no exterior.

De imitador a inovador

O Brasil pode ser um ator global na área de biotecnologia, diz pesquisa canadense

O país emerge como um importante produtor de inovação na área de biotecnotogia aplicada à saúde. O McLaughtin-Rotman Centre for Global Health (MRC), um centro de pesquisas de Toronto, no Canadá, analisou 19 empresas privadas e quatro institutos públicos de saúde para concluir que o Brasil tem capacidade científica e de mercado para se tornar um ator global na área. O trabalho, publicado na revista Nature Biotechnology, encontrou vários exemplos de produtos inovadores criados por pesquisadores brasileiros.

Um deles é o Acheflan, do Laboratório Aché, um antiinflamatório produzido a partir do extrato da Cordia verbenoceo, a erva-baleeira da farmácia popular. Outro é o curativo Biocure, produzido pela Pele Nova Biotecnotogia a partir do Látex extraído da seringueira, que ajuda a regenerar lesões da pele. Para João Batista Calixto, professor de farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina que participou do desenvolvimento do Acheflan, a biotecnologia brasileira precisa de uma política de Estado firme por 10 ou 20 anos para consolidar-se. “Alguma coisa parecida com o que foi feito com a Petrobras e com a Embraer”, diz Calixto. Precisa também de uma reforma dos marcos legais e de regulação. O estudo canadense endossa o diagnóstico. A ciência feita no Brasil é de primeiro time mundial, d um dos autores, faltam capital para investir e melhor coordenação entre empresas e instituições da área.