Notícia

Exame PME

A infra-estrutura que evolui

Publicado em 01 setembro 2007

Por Fabrício Marques

Como a paulista CFlex reinventou-se ao criar uma tecnologia que organiza a precária malha ferroviária brasileira e reduz custos

A CFlex, empresa de softwares de inteligência artificial de Campinas, no interior de São Paulo, multiplicou seu tamanho por 6 nos últimos dois anos ao criar um sistema computacional capaz de dar um choque de eficiência na operação das ferrovias brasileiras. Fundada nos anos 90 por um grupo de engenheiros da Unicamp, a companhia iniciou seu salto em 2003, ao aplicar na malha ferroviária do país o que ela sabia fazer bem -- softwares que organizam operações com um grande número de variáveis que ajudam as empresas a tomar decisões. O resultado foi o lançamento, em 2005, do sistema CFlexTrains, adquirido por muitas das principais operadoras ferroviárias, como a ALL, a Ferrovia Centro-Atlântica e a Estrada de Ferro Vitória­Minas. Com isso, a empresa obteve faturamento de 2,6 milhões de reais em 2006 -- e a perspectiva pela frente é de expansão.

Alimentado com informações como origem, destino e tipo dos trens que passarão pela mesma malha em determinado dia, o CFlexTrains fornece o escalonamento de horários de partida e chegada que resulte no menor nível de ociosidade possível dos trilhos. Já existiam sistemas similares no mercado. O grande atrativo que as concessionárias enxergaram na nova tecnologia foi sua capacidade de gerar em paralelo dezenas de grades horárias resultantes de diversas variáveis -- possível atraso num embarque, problema de manutenção, acidente etc. Assim, quando ocorre algum desses eventos, as soluções são encontradas instantaneamente, sem que todo o programa tenha de ser rodado de novo. Num país em que parece haver cada vez menos trilhos para carregar o que é produzido, o produto encontrou espaço. "É uma solução talhada para as necessidades brasileiras", diz o engenheiro Rodrigo Almeida Gonçalves, de 35 anos, um dos sócios da CFlex.

Para que a CFlex se transformasse de um pequeno escritório de programadores numa empresa com potencial de crescimento, foi preciso que seus donos se convertessem em genuínos empreendedores. Até 2003, eles eram quase como um condomínio de jovens engenheiros, que criavam softwares sob encomenda para outras empresas. Alguém tinha uma idéia, que era vendida a um cliente e depois desenvolvida para ele. No caso do software para as ferrovias, esse jeito de trabalhar não deu certo. "Nenhuma operadora aceitou arcar com os elevados custos de criação do sistema", diz Gonçalves.

A verve empreendedora dos sócios da CFlex indicou um caminho -- desenvolver o sistema por sua conta e risco para vendê-lo pronto a vários clientes. O desafio era arrumar dinheiro para dar o pontapé inicial. Primeiro, os empreendedores submeteram suas intenções a um programa que apóia projetos inovadores de pequenas empresas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Conseguiram 86 000 reais para pesquisa. Depois, bateram à porta de fundos de investimento de risco, mas não tiveram êxito. "Tivemos então a idéia de oferecer o futuro produto a um cliente disposto a pagar antecipado em troca de um bom desconto", diz Gonçalves. A proposta foi aceita pela Companhia Ferroviária do Nordeste, que pagou 250 000 reais por algo que, depois de pronto, poderia chegar a valer quatro vezes mais.

O passo seguinte foi parar as máquinas -- literalmente. Para dedicar-se totalmente ao novo software, os sócios da CFlex interromperam o trabalho habitual durante um ano. Foi um movimento arriscado, que significou a renúncia a um faturamento que girava em torno de 450 000 reais por ano -- e muita dedicação em horas de trabalho.

Para o consultor em logística Hugo Yoshizaki, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), a CFlex está investindo num mercado de futuro. Ele chama atenção para o fato de que grandes empresas americanas, que dependem fortemente de uma logística perfeitamente azeitada, como Procter & Gamble e Amazon, criaram departamentos para desenvolver sistemas de inteligência artificial capazes de tomar as melhores decisões que otimizem a eficiência de suas operações. "O caso da CFlex mostra que, no Brasil, há espaço para que pequenas e médias empresas surgidas em pólos tecnológicos cumpram esse papel", afirma Yoshizaki.

O desafio da CFlex, hoje, é manter-se na vanguarda de um mercado em que concorrentes começam a desenvolver produtos semelhantes. A estratégia da empresa é, de um lado, ampliar a base de clientes do setor ferroviário e, do outro, vender seu sistema no exterior. Ao mesmo tempo, aperfeiçoar continuamente o software e encontrar novas utilidades para ele. Segundo Gonçalves, há negociações adiantadas com operadoras dos Estados Unidos e da Austrália, que podem concretizar-se ainda neste ano. Embora o sistema tenha sido criado para amenizar a obsolescência das ferrovias brasileiras, o que a CFlex tem para vender -- mais eficiência e menos ociosidade -- tem aplicação em qualquer lugar do mundo.


A estratégia da CFlex

Os passos da empresa para conseguir recursos para seu software

1 Qualificação

O projeto foi aprovado num programa público que financia inovações em pequenas empresas. Dessa forma, a CFlex obteve aval acadêmico para o software e começou a desenvolvê-lo

2 Adiantamento

Um cliente potencial aceitou pagar antecipadamente pelo novo produto, que só estaria disponível um ano mais tarde. Para isso, ele recebeu um desconto de 75%

3 Exclusividade

Seus pesquisadores foram alocados totalmente ao projeto. A empresa ficou um ano sem prestar serviços aos clientes tradicionais para dedicar-se à criação do sistema