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Blog Enquanto Ensaio

A Importância dos Povos Indígenas para a Floresta Amazônica

Publicado em 05 fevereiro 2021

Por Patricia Moser Montini

Esse título continuaria verdadeiro caso a ordem dos fatores fosse invertida, privilegiando, assim, a relevância da floresta para os indígenas que nela habitam. Em tempos de mudança climática global, contudo, cabe ressaltar a importância de seu modo de vida tradicional, que pouco agride o meio ambiente e assume características muito distintas daquele, dito “ocidental”, que nos trouxe até aqui. Nesse contexto, a preservação das áreas florestais remanescentes adquiriu nova urgência, sendo a Floresta Amazônica, há milênios habitada e conservada pelos povos indígenas, um fator de peso nessa equação. Desta forma, embora o citado título remeta a uma questão aparentemente local, na verdade, também evoca diversas áreas do conhecimento e inúmeras questões, teóricas e práticas, que dizem respeito ao planeta como um todo; interligando, assim, indiretamente, esses povos à mitigação das mudanças globais em curso.

O mundo como o conhecemos está em risco, porém, até o momento, ainda não foram implementadas medidas realmente efetivas por parte dos países, apesar das muitas reuniões de cúpula realizadas ao longo dos últimos anos. Boas intenções e propostas sustentáveis existem há muito tempo, mas o desejo de manter o status quoprodutivo e financeiro parece prevalecer, como se a Terra fosse uma fonte infinita de recursos. Dentre os inúmeros tópicos dessa vasta temática, um pequeno leque foi abordado no presente texto; por exemplo, a responsabilidade humana e o conceito de antropoceno, o “fim do mundo”, as Terras Indígenas e a preservação da Floresta Amazônica, os conceitos de natureza/cultura e o contraste entre os modos de vida indígena e ocidental, o individualismo.

O Antropoceno

Recentemente, em março de 2020, foi divulgado um relatório climático da ONU e da Organização Meteorológica Mundial1ressaltando os efeitos da mudança climática sobre o meio ambiente, a saúde e o bem-estar da população global. O relatório traz dados sobre seus impactos socioeconômicos, na saúde humana e nos ecossistemas, e indicadores físicos que revelam uma aceleração no derretimento do gelo e na elevação do nível do mar, e um aumento do calor da terra e do oceano. Para frear essa escalada no aquecimento global, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, defende a necessidade de uma ação constante e de planos nacionais mais ambiciosos.

Segundo o físico Paulo Artaxo – docente da Universidade de São Paulo e especialista em poluição do ar –, desde a formação do planeta, há cerca de 4,5 bilhões de anos, forças geofísicas foram responsáveis por transformações na crosta/atmosfera terrestre. O período geológico atual, o Holoceno (iniciado há 11.700 anos), pode ser descrito como uma época relativamente estável do ponto de vista climático; todavia, há um novo tipo de transformação em andamento, no qual as forças geofísicas agora se conjugam aos efeitos das atividades do homo sapiens moderno – uma dentre as milhões de espécies do planeta, cuja versão mais antiga surgiu há apenas cerca de 300 mil anos. Ou seja, embora relativamente recente, nossa espécie está afetando o planeta como se fosse uma força telúrica; os vestígios de suas ações permanecerão em camadas do solo durante milhões de anos, mesmo que ela seja extinta (ARTAXO, 2014).

Tais constatações levaram ao surgimento do conceito de Antropoceno, na década de 80; o qual foi popularizado, nos anos 2000, pelo prêmio nobel de Química Paul Crutzen e associado, por alguns cientistas, a uma nova etapa geológica da Terra, na qual a influência antrópica se faz muito presente. O conceito segue em discussão no meio cientìfico, inclusive quanto à data de início dessa possível nova fase geológica (ARTAXO, 2014), e também passou a fazer parte dos debates das Ciências Sociais.

Ainda segundo Artaxo (2014), estudos indicam que as atividades antrópicas sempre afetaram o meio ambiente. O desenvolvimento da agricultura, por exemplo, produziu um impacto histórico considerável, embora ainda em âmbito regional. Mais adiante, tais efeitos deixaram de ser apenas locais, principalmente, após a Revolução Industrial, devido ao acelerado aumento da população e das atividades socioeconômicas. Segundo o sociólogo alemão Ulrich Beck (1986/2010, p. 23), “a reboque das forças produtivas exponencialmente crescentes no processo de modernização, são desencadeados riscos e potenciais de autoameaça numa medida até então desconhecida”. Anteriormente, a noção de risco dizia respeito aos indivíduos/grupos/locais que o assumiram, nunca ao planeta inteiro, como, gradualmente, começou a acontecer (BECK, 1986/2010).

De acordo com Artaxo (2014), o uso de combustíveis fósseis cresceu muito desde então, produzindo também um aumento dos gases envolvidos no efeito estufa, como o dióxido de carbono, e da concentração atmosférica de aerossóis capazes de alterar o balanço da radiação terrestre. A re?etividade da superfície da Terra também se alterou, por conta do desmatamento e das mudanças no uso do solo. Todos os gráficos dos parâmetros ambientais (gases atmosféricos, temperatura, desmatamento etc.) e socioeconômicos (população urbana, uso de agrotóxicos, consumo de água etc.) considerados nas análises científicas apresentam um grande aclive a partir da década de 1950 (ARTAXO, 2014).

Desta forma, segundo Artaxo (2014), tornou-se consenso científico o fato de que as atividades antrópicas têm induzido mudanças no planeta, a ponto de alterar sua atmosfera. Desenvolveu-se, assim, uma intensa discussão relacionada ao conceito de “limites planetários seguros” (planetary boundaries), ligado à sustentabilidade ambiental. Foram nove os primeiros parâmetros escolhidos pela comunidade científica para avaliação: acidificação dos oceanos; aerossóis atmosféricos; perda de biodiversidade; mudanças climáticas; mudanças nos recursos hídricos e no uso do solo; perda de ozônio estratosférico; ciclos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo; poluição química. Embora seu monitoramento seja útil, a avaliação individual efetiva desses parâmetros ainda está em discussão, pois como o planeta é um sistema integrado, a interatividade entre eles é considerável (ARTAXO, 2014).

Segundo Artaxo (2014), outro reflexo dessa influência antrópica é o triste fato de que numerosas espécies já foram extintas. Além disso, essa perda de biodiversidade também aumenta a vulnerabilidade dos ecossistemas terrestres e marinhos às mudanças climáticas e à acidez oceânica. Diversidade genética é algo fundamental, pois, a longo prazo, propicia a adaptação da vida às alterações de grandezas abióticas como temperatura, salinidade, radiação etc. (ARTAXO, 2014). Nesse contexto, a Floresta2Amazônica tem se tornado ainda mais importante para o equilíbrio do planeta. Ela abriga grande biodiversidade, distribui umidade para regiões distantes e é – ou está deixando de ser3– capaz de absorver da atmosfera e de estocar na vegetação e no solo uma enorme quantidade de carbono. Apesar disso, para além da mudança climática global – que também a afeta – e das eventuais grandes obras de infraestrutura do Estado brasileiro, continuam ocorrendo outras agressões à Floresta, capazes de colocar em risco sua integridade e viabilidade.

Como pode ser observado cotidianamente na mídia, interesses outros têm prevalecido no país, evidenciados pelo sucateamento das instituições públicas ligadas ao meio ambiente e aos indígenas, pelo desrespeito às leis e organizações civis, e pelas atividades impunes dos inúmeros ocupantes ilegais da floresta – madeireiros, garimpeiros e “grileiros” –, os quais incessantemente a desmatam, queimam e poluem. A Constituição, que estabelece como obrigatória a proteção aos povos indígenas e seus territórios, está sendo continuamente desobedecida. Também a desobedecem as organizações religiosas que insistem em doutrinar esses povos, menosprezando a sua cultura, afetando suas práticas tradicionais (que favorecem a preservação florestal), gerando conflitos internos e, no caso das comunidades isoladas, até mesmo violando seu distanciamento voluntário e ameaçando a sua saúde.

O “fim do mundo”

Esse conjunto de mudanças no planeta remete a um possível “fim do mundo”, desta vez, sob a ótica da ciência – não dos mitos – e induzido pela própria humanidade. Mas de que “humanidade” estamos falando, diria o pensador e líder indígena Ailton Krenak, crítico da noção de “humanidade” como algo separado da natureza e do fato de que este conceito abrange numerosos indivíduos que não contam com condições materiais mínimas para sobrevivência. Para Krenak, essa noção está na origem dos processos que levaram a Terra à sua atual fase, o Antropoceno. Somente o reconhecimento da diversidade existente no planeta e o abandono da ideia de que o ser humano é superior aos demais seres poderiam ressignificar a existência humana e refrear essa insensata marcha em direção ao abismo (KRENAK, 2019).

Em consonância com o pensamento anterior, segundo Viveiros de Castro e Danowski (2014), a cosmopolítica moderna concebe o ser humano como ponto de chegada de uma evolução histórica. Sua pretensão de domínio da natureza por meio da ciência, com base na ideia de progresso, resultou, contudo, numa situação oposta, produzindo uma resposta violenta da natureza. De acordo com os autores, no âmbito cultural, a temática do “fim do mundo” foi recorrente ao longo da História, assumindo variadas formas, inclusive entre os povos ameríndios (por exemplo: KOPENAWA; ALBERT, 2015). Ganhou nova vida durante os anos 90, quando foi alcançado um consenso científico sobre a mudança climática. O “fim do mundo” passou, então, a frequentar não somente revistas acadêmicas, ensaios filosóficos e conferências de cúpula, mas também manifestos políticos, documentários pseudo-científicos, jogos, obras de arte e até cerimônias do tipo “Nova Era” (VIVEIROS DE CASTRO: DANOWSKI, 2014).

Viveiros de Castro e Danowski (2014) ressaltam que todos no mundo serão atingidos da mesma forma, não apenas a civilização dominante, de matriz ocidental, cristã, capitalista-industrial, a maior responsável pelas mudanças. Entretanto, pode-se acrescentar que, provavelmente, os indígenas serão os maiores atingidos, pois não dispõem de recursos materiais/financeiros suficientes para superar a degradação de seus tradicionais meios de sobrevivência. Na verdade, esses povos já estão sendo atingidos... Segundo Dourado et al (2016), indígenas de diferentes etnias/locais da Amazônia têm percebido alterações no meio ambiente, as quais geram transtornos e mudanças de hábitos.

De acordo com Dourado et al (2016), um exemplo disso são as mudanças no regime de precipitação, como a ausência de chuva ou atrasos em seu início; as quais prejudicam a produção de alimentos e os rituais tradicionais. Segundo os autores, no decorrer dos últimos anos, aconteceram anomalias de seca em mais de metade da área ocupada pelas Terras Indígenas (TI) da Amazônia. Tais fenômenos provocam mudanças na vegetação, podendo levar à redução da biodiversidade e da capacidade produtiva do solo. Sob estresse hídrico severo, por exemplo, as árvores amazônicas tendem a diminuir drasticamente a sua produção de flores e frutos. Por outro lado, essa menor oferta de alimentos no interior das TI aumenta a sua dependência de alimentos industrializados, os quais propiciam o desenvolvimento de doenças como diabetes e obesidade, mais incomuns no passado. Além disso, seca e temperatura elevada favorecem os incêndios florestais e as doenças respiratórias, diminuem o nível dos rios e aumentam seu assoreamento (DOURADO et al, 2016).

Se para a dita civilização dominante tais processos de mudança remetem, talvez, apenas a fatores financeiros, científicos e naturais, para os povos da floresta essa situação envolve questões mais viscerais, de cunho ontológico: a devastação do meio ambiente afeta diretamente seu próprio “ser”, profundamente ligado à floresta e aos demais seres vivos. Afirmou, certa vez, Ailton Krenak: “Quando os índios falam que a Terra é nossa mãe, dizem ‘Eles são tão poéticos, que imagem mais bonita’. Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados no corpo da Terra. Somos terminal nervoso dela. Quando alguém fura, machuca ou arranha a Terra, desorganiza o nosso mundo” (MASSUELA; WEIS, 2019). Pode-se acrescentar que, segundo Munduruku (2000), indígenas não têm crises existenciais porque vivem o presente, sem esquecer o passado e desejar o futuro, e o presente pode ser empolgante quando está alicerçado por toda a teia da vida e da ancestralidade.

Em suma, a preservação da Floresta Amazônica é fundamental para a sobrevivência desses povos e suas culturas, e também para a mitigação da mudança climática. Nesse sentido, é grande a contribuição das Terras Indígenas, pois estas abrigam uma grande extensão florestal conservada – pelos próprios indígenas –, e sua mera existência, garantida pela Constituição de 1988, pode inibir uma exploração irresponsável destas áreas. Há, porém, um círculo vicioso em andamento, o qual torna ainda mais urgente essa preservação: as mudanças globais também afetam o equilíbrio local da Floresta, colocando em risco seu importante papel e a própria sobrevivência das comunidades que ajudam a preservá-la.

As Terras Indígenas e a preservação da Floresta Amazônica

Estudos etnográficos mais detalhados sobre os indígenas brasileiros começaram a surgir somente após a 2ª Grande Guerra Mundial, e suas elaborações teóricas, mais recentemente ainda. Os pesquisadores passaram, então, a considerar esses povos em termos de sua própria unidade, em lugar do enfoque anterior, que se ocupava genericamente da posição do “índio” – com o negro e o branco – na hierarquia da sociedade brasileira (SEEGER; DAMATTA; VIVEIROS DE CASTRO, 1979). A partir daí, as culturas indígenas começaram a adquirir maior visibilidade.

Em 2010, em seu censo4mais recente, o IBGE registrou 896,9 mil indígenas autodeclarados, dentro e fora das TI; identificando 305 etnias, 274 línguas e 505 Terras Indígenas5, a maior parte na Amazônia Legal, ocupando 12,5% do território nacional. Nessas terras, residiam 517,4 mil indígenas (57,7% do total); sendo a mais populosa, a yanomami, com 25,7 mil habitantes. A Constituição de 1988 representou um grande avanço para esses povos – que muito lutaram6por isso – reafirmando seu direito originário às terras dos ancestrais. Segundo o artigo 2317, “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. De acordo com a Funai8(Fundação Nacional do ìndio), essa constituição instaurou um “novo marco conceitual, substituindo o modelo político pautado nas noções de tutela e de assistencialismo por um modelo que afirma a pluralidade étnica como direito”.

Desta forma, além de um direito originário imprescritível, as Terras Indígenas são inalienáveis e representam uma possibilidade de sobrevivência para esses povos e suas culturas. Por outro lado, conforme mencionado anteriormente, por abrigar extensas áreas florestais preservadas e constituir uma barreira legal ao desmatamento e à exploração irresponsável de recursos, essas terras também se tornam muito importantes para o equilíbrio da floresta e, consequentemente, também para a mitigação da mudança climática. Os dados abaixo evidenciam essa importância das TI.

De acordo com Dourado et al (2016), entre 2004 e 2006, as Terras Indígenas e Unidades de Conservação9foram expandidas em 24 milhões de hectares; fato que levou a uma redução de 37% na taxa de desmatamento. Dados referentes às áreas florestais já desmatadas também demonstram o efeito inibidor decorrente da existência das TI: até 2014, enquanto quase 20% da área florestal da Amazônia brasileira10já havia sido desmatada, nas TI essa porcentagem era inferior a 2%; ligada, na maioria dos casos, a atividades ilegais de garimpeiros, madeireiros, agropecuaristas etc. Esse efeito também pode ser observado fora das TI, em suas proximidades. Por exemplo, num dado período de tempo, a 25 km de suas fronteiras, a taxa de desmatamento foi de 11,8%; enquanto a 10 km destas, esse índice chegou a 6,9%, apenas. Esses dados também sugerem, portanto, que atrasos/paralisações na demarcação das TI – em geral, relacionados à questões políticas – podem implicar grandes avanços no desmatamento (DOURADO et al, 2016).

Floresta preservada também significa maior absorção de carbono, equilíbrio hídrico e temperatura mais amena (DOURADO et al, 2016); além disso, nas áreas ocupadas por indígenas, pode-se observar que a biodiversidade se encontra muito mais preservada11. Nos anos 70, entretanto, segundo Carneiro da Cunha e Almeida (2000), os indígenas chegaram a ser considerados um “entrave para o progresso” e uma categoria social fadada à extinção, devido à inexorável marcha do desenvolvimento. Embora, na atualidade, essa visão ainda não tenha desaparecido completamente, após as lutas travadas por diversos atores sociais em prol dos direitos indígenas e de sua inclusão na Constituição de 1988, muitos passaram a associar esses povos e seus conhecimentos tradicionais à temática da conservação ambiental.

Seriam, então, os indígenas, “conservacionistas naturais”? Segundo Carneiro da Cunha e Almeida (2000), durante muito tempo, existiu um “mal-entendido útil”, ligado à essencialização de suas relações com o meio ambiente. Em outras palavras, um “mito do bom selvagem ecológico”.Na realidade, não existem seres humanos naturalmente conservacionistas, porém a questão pode ser repetida de outra forma: seriam os indígenas “conservacionistas culturais”? Para os mesmos autores, muitos desses povos de fato poderiam se enquadrar nessa categoria. Sua exploração de recursos é, em geral, limitada, e eles costumam viver segundo uma espécie de “ideologia lavoisieriana”: nada se perde, tudo se recicla; inclusive a vida e as almas. Também poderiam ser enquadrados na mesma categoria os povos cujas regras culturais ligadas ao uso de recursos acabam se tornando sustentáveis meramente devido à baixa densidade populacional e às características do próprio território onde são colocadas em prática (CARNEIRO DA CUNHA; ALMEIDA, 2000).

Há, entretanto, quem discorde de tal conexão com esse tipo de conservacionismo, especulando que os indígenas sempre podem ser levados – por influência dos contatos, tecnologias modernas, capitalismo e outros fatores – à superexploração de suas próprias terras (CARNEIRO DA CUNHA; ALMEIDA, 2000). A esse respeito, pode-se argumentar que transformações culturais são sempre possíveis, em particular, pelo contato com outros povos; podendo, inclusive, no que tange à temática em questão, ser, de alguma forma, prejudiciais à manutenção dos costumes favoráveis à conservação ambiental. Não há, contudo, uma “essência indígena” a ser preservada; estes povos não desaparecem ou são “assimilados” pela cultura dita ocidental simplesmente devido ao seu contato com outro tipo de regras ou pela utilização de novas tecnologias. Em geral, as transformações culturais percorrem trilhas peculiares, pois emergem da própria cultura de base. Dessa forma, a ordem do processo pode até ser inversa, sendo as tecnologias assimiladas pelos indígenas de acordo com seus próprios interesses e lógica cultural, bastante distinta daquela ocidental.

Infelizmente, essa suposta “essência indígena”, que estaria sendo alterada pelo contato, continua sendo evocada por alguns para atacar os seus direitos originários. De qualquer modo, durante milhares de anos, muitas etnias, hábitos e cosmologias habitaram a Floresta Amazônica sem que a sua integridade fosse colocada em risco, como acontece atualmente. De acordo com Lui e Molina (2016), na década de 1960, pela vontade de instituições públicas brasileiras, foi iniciada uma “dinâmica da supressão” que resultou no desaparecimento de cerca de 600.000 km² de vegetação nativa em apenas quarenta anos; um número que representa cinco vezes mais desmatamento do que aquele ocorrido em toda a história humana precedente!

Sobre a conservação da Floresta, há outra questão relevante a ser discutida. Segundo Lui e Molina (2016), ainda existe, no senso comum, uma visão romântica sobre a homogeneidade e virgindade da Floresta Amazônica. Na realidade, contudo, essa região caracteriza-se pela diversidade e longa convivência com o ser humano, embora ainda não se saiba exatamente quando esta última começou. A própria época da chegada do homem ao continente americano continua controversa; há teorias e descobertas divergentes, as quais sugerem o início da ocupação desde 50 até 10 mil anos atrás (LUI; MOLINA, 2016).

De acordo com Lui e Molina (2016), raros ambientes terrestres escaparam da interferência antrópica; populações pré-históricas contribuíram para a formação de diversas paisagens, as quais refletem tal influência no presente. Alterações nos nutrientes do solo, na abundância de plantas e abrangência das espécies, são alguns exemplos dessa interferência humana. Relativamente à Amazônia, há indícios de queimadas, assentamentos, montículos, ilhas de florestas, diques circulares, terra preta etc. Dessa forma, ainda segundo os autores, é muito mais realista uma imagem da região como um imenso jardim gradualmente cultivado por populações nativas do que aquela de uma natureza virgem, intocada. Para o antropólogo William Balée, muitos, dentre os povos indígenas da região, podem ser considerados gestores de recursos em vez de meros meros forrageadores (LUI; MOLINA, 2016).

Lui e Molina (2016) concluem que nenhum dos impactos aos quais essa região foi submetida, até o momento, pode ser considerado inédito, com exceção dos fertilizantes e pesticidas. No decorrer dos milhares de anos de convivência com a espécie humana, a Floresta Amazônica experimentou desmatamento, queimadas, introdução de espécies exóticas, retirada de espécies de valor comercial, fragmentação da paisagem e ciclos de exploração. A única grande novidade, relativamente recente, foi o aumento exponencial na velocidade e magnitude desses impactos; fato que decorre de uma lógica econômica para a qual a expansão da lucratividade tornou-se a principal motivação para as transformações induzidas na paisagem. Como novidade, pode-se acrescentar também a desvalorização e a falta de apego à terra, muitas vezes ocupada por pessoas que não possuíam uma relação prévia com a região (LUI; MOLINA, 2016).

Modos de ser, modos de vida: a dicotomia natureza versus cultura

Objetivando um contraste entre culturas, pode-se fazer uma generalização opondo a civilização dominante, de matriz ocidental, capitalista-industrial – conforme nomeada por Viveiros de Castro e Danowski (2014) –, aos povos indígenas e às características principais de suas cosmologias. Trata-se de modos de vida muito diferentes que, de certa forma, também podem ser conectados à maneira pela qual são compreendidos os conceitos – ocidentais – de natureza e cultura; cuja distinção clássica, segundo Viveiros de Castro (2002), não deve ser utilizada acriticamente na descrição de cosmologias não-ocidentais. Cabe ressaltar que, no atual contexto, o modo indígena é, certamente, aquele que mais favorece a saúde do planeta.

O conceito de “ocidente” é bastante controverso e admite diversos enfoques, históricos, geográficos, políticos, sociais e culturais. Não existe ocidente como uma região geográfica bem definida e culturalmente homogênea, embora o termo tenha origem na tradição greco-romana, portanto, européia. Pode-se observar, contudo, que, em geral, o senso comum o associe ao moderno mundo capitalista. Diversos países considerados ocidentais, como os Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, inclusive se encontram no rol dos maiores emissores históricos dos gases de efeito estufa12.

Ocidente também pode ser associado a uma tradição que procura instituir uma separação radical entre natureza e cultura; objetificando a primeira como fonte inesgotável de recursos à disposição do ser humano, espécie que habitualmente se coloca no topo da hierarquia. Entretanto, como questiona o filósofo Bruno Latour (1994), o buraco da camada de ozônio sobre nossas cabeças seria algo natural, humano, ou ambas as coisas? A resposta, bastante evidente agora, no Antropoceno, é a terceira: esse buraco é um “híbrido”. Segundo esse autor, a assim chamada modernidade opôs o arcaico ao novo – o vencedor, “o melhor” – estabelecendo uma distinção entre o conhecimento das coisas e a política dos homens. Nosso “tecido” deixou, supostamente, de ser “inteiriço”, dividindo-se em duas áreas ontológicas: a dos humanos e a dos não-humanos; sujeitos e objetos, respectivamente. Na realidade, porém, “jamais fomos modernos”, e os híbridos, embora desconsiderados nesse tipo de “tecido”, continuam a se proliferar (LATOUR, 1994).

Indígenas não compreendem esses conceitos, natureza/cultura, dessa forma, tampouco a separação sujeito-objeto. Seu “tecido” nunca deixou de ser “inteiriço”; não objetificam a natureza e não a exploram como faz o ocidente, transformando-a em mercadoria e visando lucros financeiros. O relacionamento dos indígenas com as demais entidades da floresta, vivas e não-vivas, é concebido de maneira radicalmente diferente; o xamanismo ameríndio pressupõe a existência de uma infinidade de subjetividades, plenas de intenções – inclusive intermediando os contatos com elas (SZTUTMAN, 2009).

Segundo Viveiros de Castro (2002), o xamanismo ameríndio é um modo de agir que também implica uma maneira de conhecer, oposta à moderna epistemologia objetivista ocidental. Para esta última, “conhecer é objetivar”, ver “de fora”, dessubjetivar; enquanto para o xamanismo, conhecer significa “personificar”, tomando o ponto de vista daquilo que se quer conhecer. Ressaltando a importância dos xamãs para a floresta e para o mundo, o líder indígena Davi Kopenawa disse que o céu desabará sobre todos os seres caso os brancos continuem alheios aos ensinamentos dos xamãs; estendendo essa afirmação aos muitos yanomami que atualmente não se interessam pelo xamanismo e seu aprendizado (KOPENAWA; ALBERT, 2015).

Ainda de acordo com Viveiros de Castro (2002), a cosmologia ocidental estabelece uma continuidade física e uma descontinuidade metafísica entre humanos e animais; enquanto o pensamento indígena apresenta uma “qualidade perspectiva” (perspectivismo ameríndio), segundo a qual, diferentes espécies de sujeitos apreendem o mundo de acordo com pontos de vista distintos. Grosso modo, para os indígenas, embora os humanos vejam os animais com seus corpos característicos, estes se percebem como gente; possuem subjetividade análoga à humana e não vêem os corpos dos humanos como tal. Ou seja, a cosmologia ameríndia supõe, ao contrário da ocidental, uma unidade do espírito: os seres animados possuem uma subjetividade humana; e uma diversidade de corpos13: sua aparência corporal não é um atributo fixo (como uma roupa, que pode ser trocada). Em outras palavras, sua cosmologia pode ser compreendida como multinaturalista, enquanto a ocidental é multiculturalista; supõe uma unicidade da natureza e uma multiplicidade de culturas garantida pela particularidade subjetiva dos espíritos.

Em suma, de acordo com o antropólogo Philippe Descola, citado por Viveiros de Castro (2002), o referencial comum a todos os seres não é o homem enquanto espécie biológica, mas a humanidade enquanto condição. Além disso, os animais – e outros entes dotados de alma – não são sujeitos porque são humanos, mas são humanos pelo fato de serem sujeitos, por terem agência (VIVEIROS DE CASTRO, 2002). Cabe acrescentar que as categorias coletivas exercem um papel formador capaz de atuar sobre a organização e as práticas concretas de uma sociedade, inclusive dando significado ao que é vivido (SEEGER; DAMATTA; VIVEIROS DE CASTRO, 1979). Projetar sobre a realidade dos indígenas qualquer expectativa referente à natureza, conforme compreendida pelo ocidente, pode, portanto, levar a diversos mal entendidos (SZTUTMAN, 2009).

Das discussões sobre natureza e cultura decorre um interessante aspecto do ambientalismo ocidental. Apesar de seus constantes apelos éticos por responsabilidade diante do “mundo natural”, e embora vinculada à exigência de um manejo sustentável, a “natureza” em questão continua sendo a mesma “natureza-objeto”, a infindável fonte de recursos para o desenvolvimento da produção (SZTUTMAN, 2009). Além disso, de acordo com Beck (1986/2010), a lógica capitalista não é rompida pela expansão dos riscos globais; ao contrário, eleva-se a um novo estágio. Os “riscos civilizatórios são um barril de necessidades sem fundo(...), a economia torna-se ‘autorreferencial’, independente do ambiente da satisfação das necessidades humanas” (BECK, 1986/2010, p. 28).

O individualismo

Segundo Seeger, DaMatta e Viveiros de Castro (1979, p. 4), grupos humanos são compostos por indivíduos, porém nem todos compreendem isso da mesma forma: as sociedades ocidentais “exaltam a vertente interna em sua noção de indivíduo”, enquanto outras, como os povos ameríndios, “enfatizam seu aspecto social, considerando o lado coletivo do indivíduo, como instrumento de uma relação complementar com a realidade social”.

De acordo com Beck (1986/2010), ao contrário da época pré-industrial, a construção da biografia das pessoas passou a ser independente de determinações pré-fixadas, tornando-se uma tarefa individual, ligada às oportunidades e opções disponíveis. Houve, assim, uma individualização das condutas e do curso da vida, e nessa sociedade individualizada, cada um deve aprender a reconhecer-se como foco de ação (BECK, 1986/2010).

Cabe, aqui, uma reflexão. Aliado à questão da natureza-objeto, seria o individualismo ocidental uma característica que, além de propiciar certa desconexão do indivíduo com seu coletivo humano, também prejudica o desenvolvimento de respeito e preocupação com o meio ambiente? A cosmologia ameríndia, que povoa a floresta com múltiplos sujeitos, interações e pontos de vista, parece, ao contrário, favorecê-lo.

Considerações finais

Paisagem é um conceito ocidental que envolve dois elementos, natureza e seres humanos. Lui e Molina (2016) trazem uma importante reflexão: enquanto o ser humano estiver presente, uma paisagem devastada não deixará de ser uma paisagem. Mas durante quanto tempo o ser humano poderá continuar presente numa paisagem devastada? A capacidade de transformar a paisagem envolve mais que o domínio de tecnologias, envolve escolhas que refletem o que uma sociedade aprendeu com seu passado, as suas necessidades no presente e os seus desejos relacionados ao futuro. Aparentemente, os povos amazônicos do passado lidaram bem com esses três níveis de decisão. Seu exemplo revela que a sustentabilidade não é uma característica inerente aos indígenas ou a qualquer sociedade: sustentabilidade é uma conquista, e isso não é uma tarefa fácil (LUI; MOLINA, 2016, p.24).

Pode-se concluir ressaltando que os conhecimentos tradicionais indígenas sobre a Floresta Amazônica deveriam, portanto, ser levados em consideração por todos. Outros modos de vida são possíveis, os indígenas são um exemplo vivo disso. A mudança climática está em andamento e o tempo urge. Com a palavra, o líder indígena Ailton Krenak:

A longa história de resistência do nosso povo me faz acreditar que, quando este mundo acabar, nós vamos assistir. Porque nós sabemos onde estamos. Os nossos netos, tataranetos, vão sobreviver a essa experiência ruim de desencontro que a gente persiste em manter se repetindo. Esses brancos, eles saíram algum dia, num tempo muito antigo, do nosso meio. Conviveram com a gente, depois esqueceram quem eram e foram viver de outro jeito. Se agarraram às suas invenções, ferramentas, ciência e tecnologia. Eles se extraviaram, saíram predando o planeta. Então a gente se reencontra e há uma espécie de ira por termos permanecido fiéis a um caminho aqui na Terra que eles não conseguiram manter. Ficam horrorizados e dizem que somos preguiçosos, que não quisemos nos civilizar. Como se “civilizar-se” fosse um destino. Isso é bobagem, uma religião deles. A religião da civilização. Eles mudam de repertório, mas repetem a dança. A coreografia deles é a mesma. É pisar duro sobre a Terra. A nossa é pisar leve, bem leve, sobre a Terra (MASSUELA; WEIS, 2019).

REFERÊNCIAS

ARTAXO, Paulo. Uma nova era geológica em nosso planeta: o Antropoceno? Revista USP, n. 103, p. 13-24, 2014.

BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2010[1986].

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela; ALMEIDA, Mauro W. Barbosa. Indigenous People, Traditional People, and Conservation in the Amazon, Daedalus, Journal of the American Academy of Arts and Sciences, vol. 129, n. 2, 2000, p. 315-338.

DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os meios e os fins. Desterro (Florianópolis): Cultura e Barbárie e Instituto Socioambiental, 2014.

DOURADO, Martha Fellows et al. A gestão ambiental e territorial de Terras Indígenas: uma questão climática. Brasiliana– Journal for Brazilian Studies. Vol. 5, n. 1, nov. 2016, p. 230-254.

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KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das letras, 2019.

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1 Nações Unidas Brasil. Disponível em: https://nacoesunidas.org/relatorio-da-onu-mostra-aceleracao-dos-impactos-das-mudancas-climaticas/>. Acesso em: 20 de abril de 2020.

2 Um levantamento de 2018 revelou que uma redução no desmatamento nas zonas tropicais poderia responder por até 30% da capacidade de mitigação das mudanças climáticas. Nações Unidas Brasil. Disponível em: https://nacoesunidas.org/desmatamento-e-2a-maior-causa-das-mudancas-climaticas-revela-fao/>. Acesso em: 29 de abril de 2010.

3 Segundo consta no link abaixo, o papel da Floresta Amazônica como “sumidouro de carbono” parece estar diminuindo, pois entre os anos de 2010-2017, sua liberação de carbono alcançou níveis maiores do que os de absorção. Dentre as possíveis causas estão as queimadas e a mortalidade de árvores devida às grandes secas, cada vez mais longas e frequentes. Os dados também sugerem uma aceleração no ritmo das mudanças ambientais na Amazônia, havendo, inclusive, um risco de “savanização” em sua parte sul, devido ao grau de comprometimento desta região. Revista Pesquisa Fapesp. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/01/02/amazonia-agora-e-fonte-de-co2/>. Acesso em: 1 de maio de 2020.

4 IBGE. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?busca=1&id=3&idnoticia=2194&t=censo-2010-poblacao-indigena-896-9-mil-tem-305-etnias-fala-274&view=noticia>. Acesso em: 30 de abril de 2020.

5 Foram consideradas “Terras Indígenas” as que se enquadram em alguma das seguintes situações: declaradas (com Portaria Declaratória, aguardando demarcação), homologadas (já demarcadas, com limites homologados), regularizadas (registradas em cartório após sua homologação), e também as denominadas Reservas Indígenas (terras doadas por terceiros, adquiridas ou desapropriadas pela União).

6 “Quando Ailton Krenak [líder indígena] pintou a cara de jenipapo, em plena Assembleia Nacional Constituinte, em setembro de 1987, estava produzindo uma imagem histórica, síntese da luta dos povos indígenas pelos seus direitos no Brasil. ‘Sangrei dez anos por conta daquele gesto’, diz ele. ‘Aquele protesto não pode ser reproduzido, revisitado. Mesmo nos dias de hoje’. Difícil esquecer o contraste elegante de seu paletó branco e o rosto pintado de preto. Foi o ponto alto da vitoriosa campanha das mais de 300 etnias indígenas que vivem no Brasil pelo direito simples de existir. O feito, inédito, está inscrito na Constituição de 1988: o direito de existir como povo, cultura, território, modo de vida” (MASSUELA; WEIS, Bruno, 2019).

7 Senado Federal. Disponível em: https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_08.09.2016/art_231_.asp>. Acesso em: 1 de maio de 2020.

8 Funai. Disponível em: http://www.funai.gov.br/index.php/nossas-acoes/politica-indigenista?start=2>. Acesso em: 4 de maio de 2020.

9 “Unidade de conservação: espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”. Presidência da República, Casa Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm>. Acesso em: 3 de maio de 2020.

10 A devastação tem aumentado desde então. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento aumentou quase 30% entre agosto de 2018 e julho de 2019. Globo, G1. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/11/18/desmatamento-na-amazonia-cresce-entre-agosto-de-2018-e-julho-de-2019-diz-inpe.ghtml>. Acesso em 3 maio 2020. Quanto às Terras Indígenas, foram desmatados 423,3 km² entre agosto de 2018 e julho de 2019, e no período anterior, 242,5 km²; ou seja, um aumento considerável, e esse valor corresponde a apenas 4% do total do desmatamento da Amazônia. Globo, G1. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/11/28/terras-indigenas-tem-alta-de-74percent-no-desmatamento-area-mais-afetada-protege-povo-isolado.ghtml>. Acesso em: 3 de maio de 2020. Durante a pandemia do novo coronavírus, a ação dos invasores não diminuiu, e agora também está expondo as comunidades indígenas aos riscos desta doença. Segundo dados do Inpe, os alertas de desmatamento bateram recordes históricos no primeiro trimestre de 2020. Globo, G1. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2020/04/13/alertas-de-desmatamento-na-amazonia-crescem-5145percent-no-primeiro-trimestre-mostram-dados-do-inpe.ghtml>. Acesso em: 4 de maio de 2020.

11 El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/06/ciencia/1557132880_458286.html>. Acesso em: 3 de maio de 2020.

12 WRI Brasil (World Resources Institute). Disponível em: https://wribrasil.org.br/pt/blog/2019/04/ranking-paises-que-mais-emitem-carbono-gases-de-efeito-estufa-aquecimento-global>. Acesso em: 5 de maio de 2020.

13 “Corpo” pode ser uma categoria antropológica. Como explica Viveiros de Castro (2002), não se trata, aqui, de diferenças de fisiologia/anatomia (neste aspecto, os ameríndios reconhecem uma uniformidade básica), mas de afecções/capacidades que singularizam cada espécie de corpo: alimentação, movimentação, comunicação, onde vive, se é gregário ou solitário etc. A morfologia corporal é um signo forte, relativo a essas diferenças. “Corpo”, aqui, refere-se, portanto, a um conjunto de modos de ser, um habitus.