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A importância do setor sucroenergético - Tarcisio Angelo Mascarim

Publicado em 13 janeiro 2014

Por Tarcisio Angelo Mascarim

Tenho escrito diversos artigos sobre a omissão do governo em reconhecer a importância do etanol, inclusive em um deles reforcei o trabalho do técnico responsável da Companhia Nacional de Abastecimento, Angelo Bressan Filho, que também é funcionário de carreira e mestre em economia pela USP, elaborado em agosto/2008, antes, portanto, da chegada da crise, com o título “O etanol como um novo combustível universal”. Infelizmente, este trabalho foi ignorado pelo nosso governo.

Depois, outro trabalho foi elaborado por Marcelo Soares Valente, Diego Nyko, Bruno Luiz Siqueira Ferreira Soares dos Reis e Artur Yabe Milanez, respectivamente engenheiro, economista, estagiário e gerente do Departamento de Biocombustíveis da Área Industrial do BNDES, do qual tomo a liberdade de transcrever parte da “Conclusão”:

“O setor sucroenergético empreendeu um grande esforço de investimento ao longo do período de 2005 a 2009, o que resultou na inauguração de mais de cem novas unidades industriais. A partir de 2009, contudo, o setor passou a enfrentar período de estagnação dos investimentos e, com isso, experimentou redução significativa das encomendas de bens de capital sucroenergéticos. A continuidade desse cenário tem gerado ambiente econômico adverso para os fabricanates, em especial para aqueles mais dependentes das encomendas do setor sucroenergético.

Por outro lado, dadas as projeções de demanda de açúcar e etanol brasileiros, estima-se que 134 novas usinas, com capacidade de moagem de quatro milhões de toneladas de cana cada, sejam necessárias para atender à demanda projetada para os próximos anos. Isso equivale à instalação de cerca de 17 unidades por safra a partir de 2013-2014.

É dentro desse contexto que, com base na pesquisa de campo com os principais fornecedores de bens de capital sucroenergéticos e grandes grupos de usinas, este artigo procurou identificar se o atual parque fabril de máquinas e equipamentos para açúcar e etanol, mesmo enfrentando um período duradouro de baixo volume de encomendas, estaria em condições de atender a novo ciclo vigoroso de investimentos em novas usinas sucroenergéticas”.

Pois bem, havia a esperança da retomada do desenvolvimento do setor sucroenergético, mas, infelizmente, nenhuma posição positiva foi tomada pelo governo.

Recentemente, foi instalada a Frente Parlamentar em Defesa do Setor Sucroenergético, mas também não tem surtido o efeito esperado para a retomada do setor.

Agora, um artigo foi publicado no O Estado de S. Paulo, em 26 de dezembro, pelo diretor da Agroicone, André Meloni Nassar, com o título “Bioenergia e ciência na ilha da fantasia”, no qual traz novas esperanças para a retomada do desenvolvimento do setor, desde que o nosso governo reconheça a importância do setor sucroenergético para o nosso País.

Deste artigo, transcrevo alguns parágrafos:

“O Comitê Científico sobre Problemas Ambientais (Scope, na sigla em inglês), organização vinculada, entre outros, à Unesco e Unep, convidou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para coordenar a produção de um relatório analisando as questões de sustentabilidade das bioenergias. A participação da Fapesp vem com a bagagem dos programas de bioenergia (Bioen), de biodiversidade (Biota) e sobre mudanças climáticas (PFPMCG), coordenados pela fundação. A Fapesp montou um time de peso de cientistas e pesquisadores reconhecidos internacionalmente para produzir esse relatório (o grifo é nosso).

Os coordenadores dos capítulos do relatório passaram uma semana reunidos na Unesco em intensos debates, buscando chegar a acordos sobre questões centrais ligadas à bioenergia. Temas como bioenergia e segurança alimentar, bioenergia e segurança energética, bioenergia e desenvolvimento e bioenergia e meio ambiente foram discutidos em profundidade. E, mais importante, foram analisados sob uma perspectiva de ciência, sem engajamentos políticos ou ideológicos.

O relatório, quando publicado, derrubará muitos mitos sobre as interfaces entre bioenergia e sustentabilidade e deixará claro que a bioenergia tem um importante papel a cumprir nas questões ambientais, sociais e econômicas. Ele vai dar argumentos e fatos àqueles que acreditam que substituir fontes não renováveis por bioenergias é uma opção a ser seguida por todas as sociedades. Pena que o governo brasileiro não escute seus cientistas (o grifo é nosso). (...)

A bioenergia já entrou numa fase de transição dos modelos de primeira geração para as tecnologias de segunda geração, nas quais o aproveitamento das plantas utilizadas é muito maior e das quais se produz uma gama mais ampla e diversificada de produtos, que vão muito além do etanol do suco de cana e energia pela queima do bagaço. O Brasil está em situação privilegiada porque, por causa da combinação entre álcool anidro, hidratado e açúcar, tem grande produção de cana-de-açúcar disponível para múltiplos usos de segunda geração.

Mas o desenvolvimento das tecnologias de segunda geração no Brasil não está garantido porque temos cana-de-açúcar. Disponibilidade de biomassa, sem dúvida, é fator determinante. E também não está garantido porque o BNDES tem um programa de financiamento para inovação nesta área. O Brasil precisa escolher qual o papel da bioenergia na oferta de combustíveis líquidos, produtos químicos e eletricidade. A escolha feita pelo atual governo foi subsidiar os combustíveis fósseis, e sua consequência mais óbvia, além dos prejuízos ao caixa da Petrobras, foi eliminar todos os estímulos em investimentos em bioenergia (o grifo é nosso).

Ao subsidiar os derivados de petróleo, o governo brecou todos os investimentos em cana, prejudicando não só o etanol, mas também a eletricidade do bagaço, tão importante para garantir segurança em certos períodos do ano. Mais do que isso, o governo pode pôr o Brasil à margem dos investidores que hoje procuram regiões com oferta de biomassa para investir em segunda geração de base agrícola. Se alguns reclamavam de que o Brasil tinha virado uma grande senzala, imaginem o que será deste país quando estivermos na era do carvão (o grifo é nosso).”

Vamos torcer para que, desta vez, o governo acompanhe com a devida atenção o relatório a ser publicado e reconheça a importância do setor sucroenergético brasileiro e contrarie o articulista quando ele disse: “Pena que o governo brasileiro não escute seus cientistas” (Tarcisio Angelo Mascarim é secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Piracicaba)