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ABC - Academia Brasileira de Ciências

A importância da Ciência transcende a obtenção de vacinas para a covid

Publicado em 11 setembro 2020

Leia artigo do Acadêmico Isaac Roitman , professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Movimento2022-2030 o Brasil que queremos, publicado no Monitor Mercantil em 10/9:

A pandemia da Covid-19 ativou o sinal vermelho em todo o planeta, devido ao desconhecimento da biologia do vírus causador da doença, pela vertiginosa contaminação da doença, pelos altos índices de óbitos e pelos efeitos sociais e econômicos da pandemia. Cientistas de todo o planeta tentam desenvolver vacinas para a prevenção da doença. O desenvolvimento de várias vacinas, estão sendo estudadas na fase 03 com o objetivo de testar as suas eficácias em numerosos/as voluntários/as. Certamente teremos sucesso nessa empreitada.

É absolutamente fundamental que todos os habitantes do planeta, de todas as classes sociais, tenham acesso a essas vacinas. Os cientistas brasileiros, em várias Universidades e Institutos de Pesquisas estão desempenhando um papel importante para nos livrarmos dessa nefasta pandemia.

Uma pergunta frequente é sobre o papel do cientista e da ciência no desenvolvimento brasileiro. A resposta é que na Era do Conhecimento que vivemos, a ciência e os cientistas terão um papel fundamental.

O desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil teve marcos importantes: a criação do Museu Nacional (1818), primórdios da Fundação Oswaldo Cruz (1900), criação do Instituto Butantan (1901), fundação da Academia Brasileira de Ciências (1916), fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (1948), fundação do ITA (1950), criação do CNPq (1951), criação da Capes (1951), criação da Fapesp (1960), criação da Finep (1967), criação da Embrapa (1972),e a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (1985).

Podemos nos orgulhar de cientistas brasileiros que deixaram como legado contribuições marcantes. Entre eles, Alberto Santos Dumont , Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Celso Furtado, Joahana Dobereiner, Milton Santos, Ruth Nussensweig, Luiz Hildebrando Pereira da Silva , Maria Deane, Bertha Becker, Paulo Freire, Cesar Lattes, Otto Gottlieb e Mario Schenberg. Temos mais de uma centena de Sociedades Científicas coordenadas pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que tem estreita parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) em defesa da Ciência brasileira.

Estamos testemunhando uma fragilização no nosso desenvolvimento científico e tecnológico pela redução de investimentos, que certamente terá graves consequências no nosso desenvolvimento social e econômico. Os/as doutores/as, em várias áreas de conhecimento, não estão sendo absorvidos/as adequadamente em universidades, institutos de pesquisas e no setor produtivo.

Se o processo de desmonte não for interrompido, teremos um êxodo de cientistas brasileiros para países avançados onde a Ciência é valorizada. A inserção do Brasil na Era do Conhecimento é uma questão de soberania. A reversão do presente quadro deve ser rápida, pois grupos de pesquisas que levaram anos para serem construídos serão desativados.

Apesar de a Ciência brasileira não ter tido o apoio necessário, na formação de cientistas, no fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação, incluindo dificuldades na aquisição e insumos e equipamentos, houve avanços importantes, graças à energia e aos esforços dos/as cientistas brasileiros/as.

Por iniciativa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) temos o maior celeiro de formação científica, o Programa de Iniciação Científica para estudantes do ensino básico e universitário. Temos também um robusto sistema de pós-graduação (mestrado e doutorado).

Estamos preparados para dar um salto no nosso Sistema de Ciência e Tecnologia, que será o grande passo para conquistarmos uma sociedade humana honrada, justa, fraterna, harmoniosa e feliz. Vamos construir um desenvolvimento científico e tecnológico com humanismo.

É pertinente lembrar o pensamento de Mahatma Gandhi: “Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho, prazeres sem escrúpulos, conhecimento sem sabedoria, comércio sem moral, política sem idealismo, religião sem sacrifício e ciência sem humanismo”.

(Isaac Roitman para Monitor Mercantil, 10/9)