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Medium (EUA)

A ignorância, assim como o conhecimento, pode ser produzida

Publicado em 09 outubro 2020

Por Rafaela Monteiro

Na era da internet, com a ascensão das redes sociais e os superestímulos que advêm das mesmas, pesquisadores estão percebendo o aparecimento e a consolidação de um fenômeno social que incentiva a produção e a reprodução da desinformação. Como o conhecimento, o que se vem notando é que a ignorância também pode ser produzida, é sobre isso que trata a Agnotologia.

Esse termo foi cunhado pela primeira vez em 1995 por Robert Proctor, historiador estadunidense e professor na Universidade de Stanford. Trata-se da junção dos termos gregos “agnosía” (ignorância) e “logia” (estudo).

Segundo Renan Leonel, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), em entrevista à Agência Fapesp, a Agnotologia refere-se ao estudo dos fenômenos de produção político-cultural da desinformação, que visam, também, fomentar incertezas na opinião pública.

O projeto “Agnotologia viral: negação da COVID-19 em meio à pandemia no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos”, uma parceria da USP com as Universidades de Columbia (EUA) e Viena (Áustria), levanta informações acerca dos impactos sociais e políticos negativos da crise de fake news durante o período de enfrentamento ao Coronavírus.

“Partimos do pressuposto que esse comportamento estaria relacionado com a produção de desinformação e com o surgimento de um novo movimento: o negacionismo científico como política de Estado, incorporado no discurso oficial. Levantamos então a hipótese de que esse processo de oficialização do negacionismo na figura de líderes políticos teria comprometido, nesses três países, a eficácia das medidas de combate à pandemia”, disse Leonel à Agência Fapesp.

A ideia do projeto inclui o mapeamento das redes sociais no movimento de distorção das informações reproduzidas como discurso oficial na grande mídia. A fim de se identificar casos como é a crescente defesa pelo “isolamento vertical” nos meses iniciais da quarentena no país. Leonel aponta que:

“o Brasil foi o mais impactado pela produção sistemática de desinformação por ter uma educação para a ciência bem menos consolidada que a britânica e a norte-americana, além de uma população com menos anos de estudo em média”.

De acordo com Thiago Medaglia, jornalista científico e agnotologista, existem mecanismos e estratégias (geralmente ligadas aos interesses financeiros e o poder político) para ludibriar as pessoas e a opinião pública:

“a primeira delas é a utilização da Ciência contra a própria Ciência. Pega-se uma verdade específica para deslegitimar uma verdade maior; como é o caso do negacionismo quanto ao aquecimento global, fala-se na verdade parcial de que a Terra já passou por outras mudanças climáticas, contudo, esquece-se a verdade mais ampla, que jamais, em tão curto espaço de tempo na História, houve uma modificação tão brusca”, explica Thiago.

A segunda seria a geração de dúvida, incitada na população a partir de informações apuradas, isso que é também visto como uma estratégica política para gerar alienação. Um exemplo é a descredibilidade dada ao Instituto Nacional de Pesquisa (INPE) por Jair Bolsonaro, acusando de falsos os dados levantados pela instituição.

A terceira é a distração, entendida como uma forma de desviar a atenção de um assunto por meio de outro tópico. Isso é materializado na realização de polêmicas envolta da postura de membros políticos de forma a tomar espaço nas manchetes da imprensa, tirando o foco de assuntos com maior relevância política, como escândalos de corrupção.

Por último, a mídia. Ela pode colaborar, não necessariamente de maneira intencional, na produção da ignorância, isso ocorre, consequentemente, por uma menor ou pouco aprofundada visão crítica.

“O jornalismo tem mania de chamar tudo de ‘estudo’, sendo que às vezes aquela produção pode não ter nem pé nem cabeça. O jornalista precisa ser mais criterioso e cético ao escolher os artigos e cientistas que ele irá trabalhar, pois a Ciência tem diversas ramificações, e nem todo estudioso vai ser especialista naquele assunto”, desabafa o jornalista.

A instabilidade política e o grande número de casos de COVID-19 por desrespeito às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) são algumas das consequências que a ignorância pode findar. Haja visto isso, o recado que fica é que as pessoas, quando em frente a uma informação, devem atentar-se nas distorções dos dados.