Notícia

Gazeta Mercantil

A humilhante simplicidade do traço de Helinho

Publicado em 15 dezembro 2008

Na apresentação da primorosa edição da seleta com os melhores momentos da obra de Hélio de Almeida, o crítico e jornalista Geraldo Galvão Ferraz classificou o mais completo artista gráfico do Brasil da geração que emergiu na mídia nacional no início e meados dos anos 60 de o "homem capa". Ele registrava o lado mais conhecido de Helinho, nos traços e criações para livros de diversas editoras e de revistas como Veja, Isto É, Exame, Pesquisa Fapesp, Visão.

É uma das faces desse artista múltiplo e multifacetado. E Ferraz não lhe faz injustiça nem comete o grave pecado que assola boa parte da crítica mais preguiçosa entre nós - a do facilitário, do reducionismo, em que tudo é enquadrado em dois ou três (pré) conceitos. Ferraz vaga pelo Helinho das capas, sim, mas também das esculturas, das aquarelas, da diagramação de livros, das colagens, das montagens, todos os terrenos onde a imaginação e a criatividade do autor plantam belezas.

Creio, porém, que a soma disso tudo, aplicado à uma extraordinária aplicação para o trabalho, faz do autor mais que tudo isso - ele é um homem conteúdo. Suas obras - e olhem, de uma humilhante simplicidade no traço e na concepção – representam por si sós, uma notícia, uma reportagem, a história de um livro. Não há nada gratuito. Não há uma ilustração, uma criação, um risco apenas para preencher um espaço ou servir de bordado.

Poderíamos pegar de exemplos, o leitor os encontrará à vontade no livro. Fiquemos com alguns, apenas. A capa da revista Veja para o fim da Guerra do Vietnã: nela, com uma foto rasgada, está todo o horror da tenebrosa aventura americana no Oriente. Ou, ainda, a série para a revista Isto É, no auge da luta da sociedade para a volta da democracia e pela anistia. Ou, então, para a mesma publicação, o emocionante "adeus" a Elis Regina - uma capa com fundo preto e um fato da Elis cantando, num gesto em que parece estar flutuando a subindo ao eterno.

Por estas e tantas mais, conhecer e fruir as criações de Helinho não é apenas gozar de um prazer estético inesquecível. É dar também um passeio enriquecedor sobre um pedaço da política e da história do Brasil nos últimos 40 anos.

 

José Márcio Mendonça - Jornalista, editor do blog A política como ela é (www.voit.com.br) e co-responsável pela coluna "Política e Economia na Real no www.migalhas.com.br)