Notícia

Jornal do Brasil

A hipótese DEUS

Publicado em 27 janeiro 1996

Por CLÁUDIO CORDOVIL
No início da década de 80, em uma conferência que reuniu cosmólogos no Vaticano, o Papa João Paulo II advertiu os cientistas presentes de que "não havia problemas em estudar a evolução do universo após o big bang [N.R.: A grande explosão que teria dado origem ao cosmos], mas que não devíamos nos interrogar sobre õ momento em si do big bang, pois este era o momento da Criação e por isto era obra de Deus". Quase à mesma época, mais precisamente no dia 25 de agosto de 1981, o Conselho da Academia Nacional de Ciências dos EUA divulgava uma resolução onde afirmava que "religião e ciência são campos distintos e mutuamente excludentes do pensamento humano e que a apresentação de ambos no mesmo contexto leva à má interpretação das teorias científicas e das crenças religiosas". Este jogo de flertes e afastamentos dá bem a idéia de quão polêmicas são as discussões sobre a origem do universo e a conclusão inferida, a partir das teorias cosmológicas mais badaladas na mídia, de que pode existir um Deus Criador. Apesar de condenada pelo establishment teológico, a aproximação entre ciência e religião continua a irritar ortodoxos dos, dois campos. Já há quem ousadamente proponha que a teologia é um ramo da física. E mais. Que é possível, através de cálculos matemáticos, deduzir a existência de Deus e a probabilidade de ressurreição dos mortos. Este é o caso do físico John Tipler, professor do departamento de física matemática da Universidade de Tulane, em Nova Orleans. Tipler acredita que já é hora de "tornar o Paraíso tão real quanto um elétron" (leia ao lado). O namoro da ciência com a religião ganhou novo alento em 1927, quando Georges-Henri Lemaître, um padre belga com doutorado em física, publicou um livro pouco divulgado em que formulava sua hipótese de que o universo estaria se expandindo. Mas uma versão preliminar do big bang, elaborada por Lemaître, só viria à luz em 1931, no Encontro da Associação Britânica sobre a Evolução do Universo. Lá, ele afirmou que se pudéssemos retornar no tempo (ou voltar o filme para trás), o universo inteiro seria uma única partícula, o átomo primordial, com raio zero. Desde a década de 30, os astrônomos descobrem como medir a distância entre as galáxias. Para isto eles utilizam o desvio para o vermelho de Hubble (Hubble redshift). Esta é uma poderosa ferramenta dos astrônomos, que suscitou a idéia do big bang, e que possibilita o cálculo da distância de uma galáxia da Terra, a partir da medição de sua luminosidade. Ora, se o universo supostamente começou em um ponto e adquiriu as dimensões que têm hoje, é possível, a partir do cálculo da distância de uma galáxia, definir a idade do universo. O fato de o universo começar em um ponto que se expande, e não ter estado sempre lá, remete à idéia de um Criador. Como não pode haver supostamente uma cadeia infinita de causas, a nível macroscópico, alguém poderia ter possibilitado o surgimento daquele ponto ultracondensado que deu origem ao cosmos. Repassando rapidamente a história do universo, podemos dizer que hoje se acredita que tudo possivelmente teria começado em algo entre 10 e 20 bilhões de anos, num momento em que o universo era um ponto ultracondensado e infinitamente quente. Curiosamente, os cientistas não conseguem descrever o universo em seu ponto zero. Só conseguem recuar até uma fração de segundo, representada pelo número 10 antecedido de 12 zeros. Para os mais religiosos, isto poderia ser a prova de algum desígnio divino, uma espécie de dispositivo de segurança para que o Mistério da Criação não fosse revelado. Mais tarde, a temperatura do universo foi caindo e alcançou a marca de 10 elevado a 15 graus centígrados. Neste momento, o cosmos teria sido preenchido com um gás que continha todos os tipos de partículas subatômicas conhecidas até hoje. Os núcleos atômicos leves foram formados quando o universo era um bebê de três minutos de idade. Foram necessários mais um milhão de anos para formar os átomos que compõem toda a matéria existente. Depois, foram fabricados, nas estrelas, os elementos atômicos mais pesados. Segundo alguns teóricos, foram eles que possibilitaram a vida na Terra. Seriamos todos poeira de estrelas. A cada ano, 300 toneladas de material orgânico rico em carbono, matéria prima da vida, cai sobre a Terra conto uma chuva de poeira microscópica, proveniente de cometas e asteróides. Alem disso, os meteoritos despejam sobre nosso planeta uma tonelada ou mais destes compostos no mesmo período. UM FÍSICO AMERICANO BUSCA A IMORTALIDADE No limiar de século 21, em que a máxima de alguns filósofos sobre a morte de Deus soa quase como um dogma insofismável, um físico transforma-se em profeta e anuncia a boa nova em versão para ateus: "Se você perdeu um ente querido ou teme a morte, a física moderna lhe diz: Relaxe, Você e ele tornarão a viver". Para Frank Tipler, físico e professor da Universidade de Tulone, em Nova Orleans, "a ciência agora nos dirá como chegar ao Paraíso". É o que ele tenta demonstrar em seu livro A física da mortalidade: cosmologia moderna, Deus e a ressurreição dos mortos, com lançamento previsto no Brasil, pela Ediouro, para e segundo semestre deste ano. Tipler, que tem um título de Ph.D, no campo da relatividade geral global, inicia seu livro com um postulado, que, como tal, não é evidente e nem pode ser demonstrado: O universo deve ter vida eterna. E ponto. A partir daí, tira - através de cálculos matemáticos - conclusões notáveis: Deus? existe e é o Ponto Ômega do Universo. A ressurreição dos mortos não tem mistérios para Tipler. "O mecanismo físico da ressurreição individual é a emulação (simulação) de cada uma das pessoas mortas — e seus mundos - nos computadores do futuro distante. Seu corpo e sua personalidade serão trazidos de volta no fim dos tempos para viver eternamente", garante Tipler. Indagado sobre a reação da comunidade científica a suas teorias pouco ortodoxas em entrevista ao Jornal do Brasil, ele afirma que é variada. "Já esperava por isto. Quando lançamos uma nova teoria, sofremos sempre uma grande dose de crítica. Entretanto, devo ganhar esta parada em 10 ou 20 anos, tempo médio de aceitação de teorias". Para Tipler, Deus se coloca no futuro. Ele cita uma série de passagens da Bíblia e quer mudar o enfoque das pesquisas cosmológicas para dar conta desta questão. "A maior parte da realidade está no futuro. O universo tem apenas 20 bilhões de anos e é provável que continuará a existir por outros 100 bilhões de anos. Por concentrar sua atenção no passado e presente, a ciência tem ignorado quase toda a realidade", sentencia. "O Deus do Ponto Ômega, descrito por mim, existe principalmente no fim dos tempos", acrescenta o autor, que, se não for levado a sério por seus pares, pode se orgulhar de ter criado um belo argumento para um filme de ficção científica. (C.C.) FÍSICOS QUEREM DECIFRAR O COSMOS E TENTAR CONHECER A 'MENTE DE DEUS' Os capítulos mais recentes desta história fascinante têm feito os cientistas acreditarem que "um dia a porta certamente se abrirá e poderemos exibir o reluzente mecanismo central do cosmos em sua beleza e simplicidade", nas palavras do físico John Wheller. Conheceríamos então "a mente de Deus", como pretendia, com notável falta de modéstia, Stephen Hawking. De fato, quando pensamos nas pré condições necessárias para nossa existência na Terra, podemos cogitar a hipótese de um sublime arquiteto a planejar tudo. Para sobrevivermos, um certo empenho cósmico foi necessário. Precisamos de carbono, hidrogênio e oxigênio, assim como cálcio e fósforo em quantidade suficiente para fabricar nossos corpos. Por outro lado, a Terra precisa ser protegida da contaminação por substâncias venenosas. É providencial que nosso planeta não seja repleto de amônia ou metano, como ocorre em outros endereços cósmicos. O check-list de uma morada para a vida pode se estender indefinidamente. Fascinados por esta engenhosa máquina universal, muitos cientistas célebres manifestaram uma religiosidade à sua maneira, despida de invocações fáceis à figura divina, diante do risco de serem malvistos por seus colegas mais pragmáticos. "É certo que a convicção - semelhante ao sentimento religioso -de que o mundo é racional ou ao menos inteligível, é a base de todo trabalho científico um pouco elaborado. Esta convicção de uma razão superior que se manifesta no mundo da experiência é minha concepção de Deus", escreveu Einstein, em 1922. Mas, entre os pesquisadores, ainda há os mais céticos, que acreditam que, "no escuro, todos os gatos são pardos". "A hipotética convergência da teoria quântica moderna e do indeterminismo com a transcendência religiosa pode ser vista como uma mera associação entre interpretações pouco claras daquela teoria e os mistérios da religião, fora do alcance da razão. É uma comparação entre situações obscuras", segundo o físico Luís Pinguelli Rosa, diretor da COPPE-UFRJ (Coordenação dos Cursos de Pós-graduação em Engenharia), para quem é preferível falar em influência mútua do que em confluência entre religião e ciência. Mas o Telescópio Espacial Hubble pode lançar água na fervura do relacionamento harmonioso entre a ciência e a religião, propiciado pelo conceito de big bang, que aponta para a necessidade de um Criador. Imagens enviadas pelo Hubble e analisadas pela astrônoma Wendy Freedman, dos Observatórios Carnegie, em Pasadena, Califórnia, revelaram no ano passado que o universo é mais jovem que algumas estrelas que contém. Uma aparente contradição fundamental. Pelos novos cálculos, o cosmos teria entre 8 e 12 bilhões de anos. Já se sabe, com grande grau de certeza, que as estrelas mais antigas da Via-láctea têm, ao menos, 14 bilhões de anos. Mais recentemente, em setembro do ano passado, a equipe do pesquisador Nial Tanvir, da Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, publicou dados na revista Nature que dão conta de que o universo tem a pífia idade de 9,5 milhões de anos. Mais uma vez, eram os dados do Telescópio Espacial Hubble que criavam uma nova dor de cabeça para os cosmólogos que fazem parte da legião de guardiões de plantão do modelo teórico do big bang. Se forem confirmados por observações posteriores, estes dados podem comprometer seriamente o modelo cosmológico standard, o big bang, na avaliação de especialistas. Já remendado sucessivas vezes na prancheta para dar conta das verificações observacionais de última hora, este modelo teórico que, na década de 30, tinha a singeleza - e elegância - de um monumento clássico, assume agora as feições de um templo rococó, repleto de penduricalhos ad hoc. Para o brasileiro Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia da Universidade de Dartmouth, as coisas não são exatamente assim. "Ainda é muito cedo para se tirar conclusões sobre a validade do modelo teórico do big bang a partir destas medições preliminares. Mesmo que seja verdade, que o universo abrigue estrelas mais velhas do que ele, a teoria ainda não estará destruída. Este é um modelo teórico bastante maleável", explica. Mas, contra este frenesi de tudo explicar cientificamente, o sacrílego físico-teólogo Frank Tipler faz uma advertência, que aponta para a necessidade urgente de um diálogo mais profícuo entre razão e fé. "Se os teólogos forem bem-sucedidos em sua tentativa de separar radicalmente ciência e religião, eles matarão a religião. A teologia simplesmente deve se tornar um ramo da física, se deseja sobreviver. O filósofo americano Thomas Sheehan já demonstrou que até mesmo os teólogos estão se tornando ateus, gradativamente". Em uma alocução proferida na Academia Pontifícia de Ciências em 1951, o Papa Pio XII celebrou a confluência entre a teologia e a física que naquele momento se configurava: "Não se pode negar que um espírito esclarecido e enriquecido pelos conhecimentos científicos modernos é levado a se erguer diante de um Espírito criador. Parece em verdade que a ciência atual conseguirá ser a testemunha deste Fiat lux inicial, deste instante onde surgiu do nada, com a matéria, um oceano de luzes e radiações, enquanto as partículas de elementos químicos se separam e se reúnem em milhões de galáxias". Resta rogar a Deus para que a relativa paz entre ciência e religião possa perdurar, ao menos no aspecto cosmológico, já que se mantém o embate em torno de outras conquistas científicas, como as técnicas de reprodução assistida e a importância do uso de preservativos na prevenção da Aids. (C.C.) UM CATÓLICO E UM FÍSICO TROCAM IDÉIAS SOBRE RELIGIÃO E RAZÃO, COMPARANDO SUAS OPINIÕES SOBRE AS ORIGENS DO UNIVERSO Arrogância de um lado, prepotência do outro. As relações entre razão e fé, entre os cientistas e a Igreja, nunca primaram pela tolerância ou cordialidade. Essa situação, no entanto, está mudando. Esta é uma das conclusões do diálogo entre Frei Betto e o físico Mário Novello, mediado pelo Idéias. "Devido à sombra dos casos de Galileo e do frade Giordano Bruno, queimado vivo na Praça das Flores, em Roma, a Igreja hoje é mais cautelosa", diz Frei Betto. "Até porque o conhecimento científico está hoje mais vulgarizado e não dá para um padre agir como o Episcopado Argentino, que pediu ao presidente Menen que não permita o ensino das teorias darwinianas nas escolas da Argentina. Estas reações jurássicas são, felizmente, cada vez mais raras", constata aliviado. Para Mário Novello, a ciência também está sendo obrigada a recuar da postura arrogante que, em muitas ocasiões, assumiu: "Para a ciência, era muito fácil dizer que, se tivéssemos um ponto de apoio ou os dados iniciais do universo, fazíamos o que queríamos. Os cientistas deste século estão começando a se dar conta de que isto é uma ilusão, que a natureza é muito mais inesgotável e maravilhosa ao que nossos colegas do passado supunham. As religiões, de uma certa maneira, vêem isso com bons olhos." Frei Betto concorda: "Temos de saber que, por mais aprimorada que sejam as previsões científicas, maior é o mistério que fica a ser desvendado. O mesmo vale para a experiência religiosa. Por mais que tenhamos uma experiência religiosa muito intensa, Deus é amor e todo amor é experiência de Deus."(Cláudio Cordovil) "O homem sábio regula sua conduta pelas teorias da ciência e da religião", disse o físico britânico John Scott Haldane. O que pensam desta afirmação? FREI BETTO - A sabedoria não é regulada pela ciência ou religião. Ela funciona muito mais na linha socrática, da intuição, daquele que apresenta mais perguntas do que respostas a respeito da vida. As religiões são uma tentativa de equacionar, numa linguagem transcendente, essas respostas. São sábias nas suas raízes. Buda foi sábio. Jesus foi sábio. Maomé foi sábio. Mas, nem sempre, quando institucionalizadas, elas preservam essa sabedoria. O que é lamentável, para mim que sou cristão e religioso. MÁRIO NOVELLO - Sabedoria não é a mesma coisa do que conhecer a natureza, como o cientista pretende. Qual foi o grande mérito da ciência? Obter eficácia dissecando e retalhando a natureza. Isso fez com que perdêssemos a idéia de unidade da natureza. E acho que, com isso, perdemos a sabedoria. A grande revolução deste final de século é o fato de a ciência estar redescobrindo a unidade do mundo. F.B. - Concordo plenamente. A ciência não pergunta hoje só como a coisa é, mas também qual o sentido da coisa. Esmiuçar o real era considerado, dentro dos paradigmas cartesiano e newtoniano, uma área reservada à ciência. Já imprimir a este real um sentido era uma área reservada à religião. Costumo dizer que os físicos são os grandes filósofos da atualidade. Os físicos teóricos estão de certa forma resgatando este pensamento filosófico que busca apreender a unidade do universo, o que em meu livro A obra do artista descrevo como visão holística. É possível conceber uma criação sem Deus? O universo seria eterno? F.B. - Se o universo teve um início, ou é eterno, não há resposta para essa questão do ponto de vista científico. Mas estou convencido de que o universo é terno. É a nossa morada cósmica. Vivemos bem agasalhados por ele, embora mal agasalhados pelas conjunturas econômicas e políticas que nos cercam. A minha convicção de que há um Deus criador não parte de uma dedução científica, mas de um acolhimento de fé. É evidente que, se amanhã a ciência conseguir comprovar que o universo é eterno, que não teve um início e nem terá um fim, a teologia vai ter que se esforçar para conseguir harmonizar seus princípios e esse dado científico. Em principio, para a teologia, não pode haver incompatibilidade entre um princípio religioso e um princípio científico objetivo. O padre Lemaitre apanhou muito quando elaborou a teoria do big bang. Como ele era padre e cosmólogo, a desconfiança de Einstein era de que ele queria colocar o universo de acordo com a descrição do Gênesis. Para o físico Paul Davies, nenhuma religião que baseia suas crenças em afirmações notoriamente incorretas pode esperar sobreviver por muito tempo... F.B. - Acho que ele está completamente equivocado. A Igreja Católica, apesar de ter acreditado na cosmologia de Ptolomeu durante mil anos, a ponto de ameaçar Galileu de ir para a fogueira, o que obrigou João Paulo II a recentemente pedir desculpas públicas aos cientistas e à História pelo erro, nem por isso deixou de persistir. Agora, ela está tentando se libertar disso. Nós, da Igreja Católica, cometemos muitos equívocos, e nem por isso deixamos de sobreviver como instituição. Por outro lado, os físicos quânticos, como David Bohm, que são interessados nas religiões orientais, constatam surpresos que os vedas, os hinduístas, e mesmo alguns clãs da África e até índios brasileiros, como os ianomâmis, têm concepções cosmológicas que poderíamos dizer que são intuições muito profundas e próximas daquilo que hoje a astrofísica e a cosmologia estão captando empiricamente. E isto é curioso e um dado bonito da sabedoria humana. É a capacidade que o ser humano tem de intuir e nominar o real, embora muitas vezes não possa prová-lo, esquadrinhá-lo e transformá-lo em equações algébricas. M.N. - Concordo. De uma certa maneira, atrelar a fé religiosa a uma atividade científica é certamente um engano histórico. O conhecimento científico, por sua vez, produzindo uma fé, pode ser autocontraditório. Curiosamente, tem um colega americano que está fazendo um estudo sobre essas coincidências nas cosmogonias de várias civilizações. E tem até um brasileiro que vai escrever um livro sobre isso agora. F.B. - Há um dado que quero sublinhar. É muito frágil uma fé que se apóia na ciência, como também é muito suspeita uma ciência que busca apoio nos dados de fé. São dois campos absolutamente distintos. Porém, na nossa vida, são as duas pernas de um corpo que caminha. A maioria dos seres humanos não pode prescindir nem da experiência religiosa e nem do conhecimento científico. Como vêem esta aliança simplista entre religião e ciência feita pela mídia? F.B. - Na verdade aí vai uma crítica à mídia. Acho que a mídia tem uma visão religiosa do científico. A mídia está transformando determinadas descobertas científicas numa espécie de ícone religioso. E aí me vem o exemplo das fotos enviadas pelo telescópio espacial Hubble. Porque isso causa impacto na opinião pública. Então, de repente, você fica extasiado porque se desconfia de que não se trata de 10 bilhões mas de 50 bilhões de galáxias. Porém a mídia não tem feito uma relação holística. Na verdade ela trabalha com nosso inconsciente coletivo, que é judaico-cristão. Então, quando fala dessa maravilha das fotos do Hubble, quase está dizendo: "ajoelhe-se e adore porque isto aí é a foto em negativo do Criador". Acho isso meio engraçado. Não vou dizer que condeno nem que apoio. Não é bem por ai. Por quê? Porque, de repente, olho para um menino de rua, ignorante, com uma gilete para me assaltar, e para mim este garoto é o centro do universo. E se o universo tem 15 bilhões de anos, ele evoluiu durante este período para construir este menino de rua. Isso é uma maravilha também, mas a mídia não enfoca isso a ponto de nos exigir mudanças. Gostaria que a mídia também nos sensibilizasse para as maravilhas que estão muito próximas, exigindo de nós atos maravilhosos, do ponto de vista ético, da generosidade e da compaixão. M.N - Concordo plenamente. Há um big bang dos cientistas, que é uma hipótese séria, de que houve uma condensação muito grande do universo há milhares de anos, mas a mídia transformou isso numa verdade que absolutamente não foi comprovada. É uma hipótese. O que está em jogo, no fundo, é uma exibição de que a ciência veio substituir, no nosso imaginário, uma visão de mundo. Dizia-se há um tempo atrás que Deus estava morto, depois era a história que estava morta, agora é o comunismo, no sentido de uma sociedade idealizada - não como existia na União Soviética -, a idéia de uma sociedade não-capitalista, que desapareceu. Então vivemos num mundo que é uma unidade, montada num sistema capitalista, onde a ciência ocupa um papel importante, através de sua mão mais forte que é a tecnologia. Esse é um problema que deveria ser discutido muito seriamente, o papel do cientista em consolidar, não na sua prática cotidiana, mas no imaginário social, a visão de que a ciência está comprovando uma certa visão neocapitalista do mundo. A ciência pode se reconciliar com a religião? F.B. - A minha impressão é que isso tem evoluído muito. E poderíamos citar um cientista brasileiro - Mário Schemberg - que terminou sua vida como um homem muito espiritualista. Tem o Fritjof Capra que pode suscitar reticências, mas também traz esta contribuição. O próprio Stephen Hawking, que tem a pretensão de conhecer a mente de Deus. Todo este pessoal está colocando questões "teológicas", o que leva um cientista americano chamado John Barrow a dizer que '"os teólogos julgam conhecer as perguntas e os físicos julgam conhecer as respostas". Digo que é o contrário. Os físicos estão levantando tantas questões e por isso incomodam os teólogos, que estavam convencidos de já terem as respostas, mas não as têm para as questões novas que estão sendo colocadas. Vivemos uma fase de coexistência relativamente pacífica em que os físicos, astrofísicos e os cosmólogos estão levantando mais questões que incomodam as instituições religiosas e estas serão, mais cedo ou mais tarde, obrigadas a se debruçar sobre elas. Não temos propriamente um casamento, porque isto não é uma disputa para saber quem tem razão. M.N. - Acho que o que é importante é não trocar os papéis. O cientista tem sua função e especificidade e ambos são importantes a cada momento para cada homem individual. A época em que aparentemente a Igreja se opunha à ciência foi exatamente aquela em que a ciência foi mais arrogante. Ela acreditava piamente que tinha tido acesso à realidade e que este acesso era universal e absoluto. Eu concordo com Frei Betto que houve uma mudança de direção da parte dos cientistas. Mas, no fundo, também há uma fé animal do cientista em suas equações, como dizia o filósofo e físico Alfred Whitehead. É um outro tipo de fé, que faz com que ele dê sentido e significado à natureza. Acho que os cientistas e religiosos estão estabelecendo um diálogo que será benéfico para todos. FREI BETTO Nasceu em Belo Horizonte, em 1944. Frade dominicano e escritor, lecionou física, química e biologia. Em 1987, recebeu um prêmio da Fundação Bruno Kreisky, em Viena, por seu trabalho em prol dos direitos humanos. Desde 1993, integra o conselho da Fundação Sueca de Direitos Humanos. Com obras editadas em vários países, publicou no ano passado o livro A obra do artista: uma visão holística do universo (Ática). Fruto de uma pesquisa de cinco anos, o livro faz uma síntese das recentes descobertas em Física Quântica, Cosmologia e Biologia. Debatendo os novos paradigmas científicos, Frei Betto busca estabelecer "uma relação diferente entre ciência e fé, visão de mundo e visão de Deus". MÁRIO NOVELLO Nasceu no Rio de Janeiro, em 1942. Um dos mais respeitados cosmólogos brasileiros da atualidade, Novello concluiu seu doutorado no Instituto de Física Teórica da Universidade de Genebra em 1972, realizando estudos, posteriores em Oxford, Roma, Trieste, Califórnia e Colônia. Desde 1978, dirige a Escola de Gravitação e Cosmologia do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. É autor de centenas de artigos científicos, publicados em revistas como Physical Review, Astrophysical Journal e Revista Brasileira de Física, dentre outras. É autor do livro Cosmos e contexto (Forense Universitária) e prepara uma obra, destinada ao público leigo informado, sobre viagens na máquina do tempo. NÓS NÃO SOMOS TÃO INTELIGENTES ASSIM Washington Post Diretor do MIT lembra perguntas que a ciência ainda não consegue responder O que não sabemos? Esta foi a pergunta que Charles M. Vest, diretor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), fez aos professores na preparação da conferência anual da instituição, a mais prestigiada no mundo na área de ciências. "Perguntas sem resposta", escreveu Vest, "são simplesmente as coisas mais valiosas que podemos expor aos nossos alunos... Devemos nos recordar - e lembrar ao público - que nosso apreço por questões práticas, como saúde, produtividade econômica e segurança nacional, provém, em última análise, de nosso entusiasmo pelos mistérios: nossa disposição, e de nossos estudantes, para explorar o verdadeiramente desconhecido." Vest levantou a questão com o que chamou de "uma pequena amostra" dos muitos quebra-cabeças que a universidade tenta resolver. Eles incluem: A mente - Nós não sabemos como aprendemos e nos lembramos, ou como pensamos e nos comunicamos. Também não conhecemos a natureza química ou física do armazenamento de informação. Não sabemos em que região a informação é guardada, como ela é retida ou mesmo se há limites para a quantidade de informação que podemos armazenar. Não compreendemos a relação entre linguagem e pensamento. Podemos ter pensamentos que não possam ser expressos em palavras? Tudo que pode ser dito numa língua pode ser expressado em qualquer outra? Energia - Não sabemos como converter energia solar em combustíveis práticos, a um custo razoável, para uma grande variedade de aplicações, assim como não sabemos como criar combustíveis avançados para reatores nucleares. Fontes recicláveis de energia, alternativas e seguras, são cruciais para que estejamos habilitados a melhorar nossa qualidade de vida, assim como para sustentar a qualidade de nosso meio ambiente. Desconhecemos como extrair toda a energia das fontes combustíveis já existentes. Sabemos que uma certa quantidade de energia é armazenada em ligações químicas, mas, quando queimamos o combustível para quebrar estas ligações, perdemos muito da energia emitida como dispersão de calor e subprodutos químicos. Saúde - Não conhecemos todos os genes específicos cujas mutações contribuem para o desenvolvimento do câncer, nem compreendemos os mecanismos pelos quais eles fazem isso. Isto inclui tanto oncogenes, que podem causar câncer, quanto genes supressores de tumor, que reprimem a proliferação e, se ausentes ou danificados, permitem o desenvolvimento de tumores. Não sabemos como formam suas elegantes e geométricas estruturas de tijolos construtores de proteínas, nem compreendemos o papel dessas estruturas no processo infeccioso. Aplicando métodos matemáticos para analisar a estrutura da proteína viral, esperamos conseguir uma compreensão suficiente do processo infeccioso para ajudar o desenvolvimento de drogas antivirais com aplicações que vão do HIV ao vírus da gripe. Não sabemos como células vivas interagem com moléculas de materiais não-vivos. As respostas para essa questão mantêm a esperança de se fazer grandes avanços no desenvolvimento de membros artificiais, órgãos e ossos. Clima - Desconhecemos, mesmo em nível básico, que aspectos do clima podem ser previstos. Mesmo os modelos climáticos mais elaborados, rodados nos computadores mais potentes, não podem reproduzir o clima de hoje sem introduzir desconfortáveis níveis de artificialidade. A teoria do caos evoluiu a partir das descobertas do professor do MIT, E. N. Lorenz, que, em seus estudos sobre o clima, descobriu que perturbações de um sistema tão pequeno que não pode ser observado podem acarretar resultados dramaticamente diferentes depois de um certo tempo. Cientistas estão agora tentando descobrir que elementos do clima são caóticos, assim como a interação entre os subsistemas climáticos (como oceanos, camadas polares e nuvens que ajudam a resfriar a Terra) que irá amplificar ou amortecer o impacto humano no planeta. Não sabemos que tipos de abalos sísmicos podem ser previstos. Não compreendemos o processo que leva a uma falha geológica, ou as interações entre terremotos e outros eventos que ocorrem ao longo de sistemas de falha. Não sabemos com nenhuma segurança onde um sério abalo vai ocorrer ou quando, que é o nível de compreensão que necessitamos para proteger vidas e propriedades. Espaço - Não sabemos quão velho o Universo é, de que ele é feito ou qual será seu destino. Não sabemos se estrelas, além do nosso Sol, têm planetas semelhantes à Terra, capazes de abrigar a vida, e não temos ainda a capacidade de detectar vida ou métodos para detectar os próprios planetas. Não sabemos se antimatéria vem de outras galáxias. Isso poderia responder a questão fundamental sobre a origem do Universo. Não sabemos como planejar uma missão para Marte que não resulte num perigoso dano para a saúde da tripulação. Economia - Não sabemos por que economias nacionais crescem em velocidades tão diferentes tanto num momento particular quanto ao longo do tempo. Sabemos os fatores que aparentemente afetam o crescimento da economia - educação, acumulação de capital, investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento, impostos, políticas comerciais, regulamentação e a estrutura política e legal. A importância relativa desses fatores e suas interações, entretanto, não são conhecidas com qualquer grau de precisão, ainda que os governos continuem a desenvolver e implementar políticas econômicas. Não sabemos como as organizações bem-sucedidas das próximas décadas se configurarão. Mesmo os executivos mais experientes não podem prever que companhias vão prosperar e quais vão afundar. Informação - Não sabemos quais serão as conseqüências para os Estados-Nações de explosão da capacidade de comunicação proporcionada pelas redes. A Internet já começa a se comportar quase como um telefone, e tem o potencial de criar um novo tipo de sociedade, uma entidade em si mesma. Não podemos prever se teremos uma sociedade de redes muito locais, concentradas em torno de indivíduos, ou uma sociedade global massificada. Desconhecemos como a vasta acumulação de informação instantaneamente acessível pode ou vai ser compreendida e usada. O simples acesso por si só não assegura que a informação possa ser localizada ou compreendida. Como o conhecimento pode ser obtido, a partir de diferentes fontes, e então representado e moldado para aumentar nossa compreensão e nossa capacidade para usá-lo produtivamente? Podemos estender nossa capacidade para transmitir e compreender conceitos assim como simples fatos? Estes são os pensamentos de apenas um punhado de professores. Quando consideramos a natureza das universidades, faríamos bem em relembrar que a razão última para fomentar um sistema universitário deriva mais do desconhecido do que do conhecido. DEUS PERDEU SEU LUGAR NA ERA DO COMPUTADOR RALPH GEORGY - Especial para o Los Angeles Times Filósofo diz que, para o homem do século 20, religião tornou-se obsoleta e inútil. "Deus morreu", escreveu Nietzsche há 100 anos. A profunda significação desta simples e, além disso, altamente perturbadora sentença reside em sua repetida demonstrabilidade. Nietzsche pode ter matado Deus, mas nós no final do século 20 o enterramos sem qualquer esperança de ressurreição. A morte de Deus não é mais uma possibilidade metafísica, mas sim a realidade de nossa era, quando a ciência e a tecnologia tornaram-se o delimitador de nossa teologia. Deus não é mais uma força que anima nossos corações. Ele está obsoleto. Nós, os modernos, com toda nossa sofisticação, não precisamos dele. Hoje, em nosso mundo de computadores e faxes, Deus se tornou um anacronismo. Nós não precisamos mais de Deus para responder a nossas surradas perguntas sobre a existência ou nosso lugar no Universo; temos esperança e fé na mecânica quântica e nas teorias unificadoras. Não precisamos de Deus para interceder por nós; temos tecnologias sofisticadas. Não necessitamos mais de Deus para nos consolar e confortar, temos a moderna psicologia. Não precisamos mais orar e venerar Deus; temos outras criações para isso. Não precisamos mais temer a Deus; temos armas nucleares guiadas por laser que podem causar mais danos do que um dilúvio de 40 dias. Nossos objetos de fé hoje são a ciência e a tecnologia. Temos fé em nossos carros, acreditamos nas mãos do cirurgião, confiamos na probabilidade. O salto kierker-gadiano não faz mais sentido. O nosso salto é diferente; um puto que abarca o mundo. Nós, os modernos do final do século 25 aceitamos sem questionar os frutos da ciência; aceitamos sem discutir a inevitabilidade de nosso próprio progresso. As velhas paredes que separavam o sagrado do profano estão desabando. Existem algumas pessoas que ingenuamente se agarram à memória nostálgica de Deus. O freqüentador de igrejas dedica algumas horas de sua semana a experimentar o sagrado; a vivenciar Deus. Mas no resto do tempo, ele está imerso em uma sociedade que não reconhece mais Deus como uma forca onipotente e onisciente a ser amada e venerada. Além disso, esta pessoa, que continua a aceitar Deus como seu salvador, é um membro conivente desta sociedade responsável pela morte de Deus. Esta pessoa pode aceitar certas conclusões científicas que diretamente contradizem o que ela escuta aos domingos. Ela pode buscar os serviços de um psicólogo para ajustar seu estado emocional. Ela pode dirigir um carro, usar um telefone, trabalhar em um computador, ver televisão. O único problema é que seu mundo cotidiano é desprovido de Deus. No passado, Deus não era apenas uma força viva no coração das pessoas, mas também parte de nosso dia-a-dia. Nós não nos lembrávamos dele apenas aos domingos, nós o respirávamos no ar. Deus era parte de nossa linguagem, parte de nossa vida. Hoje somos muito sofisticados para Deus. Pode mos cuidar de nossa vida e estamos preparados para definir nossa própria existência. A morte de Deus é aceita como um ponto pacífico. No final do século 20, os seres humanos são reduzidos a números. Nesta era de imagens fugidias e informação instantânea, de cultos de auto-ajuda e psicologias pop, de solidão e angústia existencial. Isto é o que temos de aceitar como o preço por nosso pecado final contra Deus. A morte de Deus significa que temos de confrontar o absurdo de nossa existência de frente. A ciência tem revelado todo nosso mistério, dissecado- nos sob um microscópio e nos deixado viver em um isolamento profundo. Deus, com todas as suas complicações teóricas, deu-nos moralidade, decência e esperança. Ele nos deu algo permanente para nos amparar. Costumávamos encontrar abrigo e entendimento em Deus. Hoje, encontramos amparo e compreensão em sensações físicas escapamos de nossas vidas através da televisão, do cinema, da música, do sexo e das drogas. Parece que precisamos de mais sensações diferentes para sentir algo completamente. Juntos, temos mata do Deus. Nossas mãos estão manchadas com o sangue de nosso pai. Que ele descanse em paz.