Notícia

Blog Noblat

A greve terminou, as águas continuam a rolar

Publicado em 06 outubro 2005

Por Mariluce Moura

Quem exatamente é este homem que conseguiu, em seu solitário ato radical, cujo fundamento é um denso amálgama de razões religiosas, éticas e políticas, abalar de forma tão profunda por vários dias, senão as decisões, pelo menos a tranqüilidade da República? Uma república, é necessário ressaltar, presidida por um político de quem ele já se declarou um dia franco admirador, além de um aliado nada desprezível?
Esse homem empenhado de dia 26 de setembro a 6 de outubro numa greve de fome contra a transposição das águas do rio São Francisco, difundida por toda a mídia  nacional e boa parte da mídia internacional, o frade franciscano Luiz Flávio Cappio, 59 anos recém-completados, pode ser entrevisto numa cena inesquecível de 2001, mais exatamente do dia 29 de setembro daquele ano, para a qual a mesma mídia, aliás, virou as costas, à frente de uma grande romaria em Brotas de Macaúbas. Da sede desse município do sertão baiano ligado à diocese de Barra, que o tem como bispo desde 1997, o frei Luiz Cappio conduz a enorme procissão dos fiéis vindos de 14 paróquias, e muitas outras pessoas ligadas a movimentos sociais e a organizações políticas de esquerda, até o distrito de Pintada. E lá, junto com o pastor Djalma Torres e outros chefes religiosos, dirige um ato ecumênico em homenagem a Carlos Lamarca e Zequinha, ali assassinados pelas forças da ditadura militar 30 anos antes, e dedicado também a outros jovens revolucionários mortos na região. Bem embaixo da enorme baraúna perto da qual Lamarca tombou, onde, aliás, dois dias depois de seu assassinato foi possível, além de ver rastros escuros do sangue, recolher cápsulas de balas, um pequeno embornal de lona, pedaços de fumo de corda, entre outros pequenos objetos perdidos (guardei por um tempo duas dessas cápsulas), o bispo de Barra fez erguer uma cruz de 5 metros por esses mártires "que deram sua vida pela vida".
Seria o bispo Luiz Flávio Cappio, filho de um técnico em tecelagem e de uma dona-de-casa, imigrantes italianos de classe média, a julgar por essa cena, uma personagem típica da combativa esquerda da igreja católica, presente por todo o Vale do São Francisco mesmo na segunda metade dos anos 70, quando parecia quase nada mais restar de forças atuantes de esquerda no país. Integraria, assim, uma linhagem de bispos que, no final daquela década, tinha entre suas figuras de proa, no Nordeste, Dom José Rodrigues, um padre redentorista, gaúcho e valente, que dirigia a diocese baiana de Juazeiro, na divisa com Pernambuco, região do Sub-Médio São Francisco, e mesmo Dom Orlando Dotti, bispo da própria Barra, então uma cidade ainda bela às margens do rio, com seu casario colonial e produtora de uma cerâmica preciosa, toda filigranada, digamos assim. Eram esses bispos, junto com alguns outros, apoios fundamentais para o trabalho da Comissão Pastoral da Terra naquela região, violentada pela grilagem privada  e por ações estatais voltadas para o desenvolvimento econômico, mas marcadas por um descompromisso dramático com os efeitos sociais dessas obras — de que é um exemplo a construção da barragem de Sobradinho, que impôs a transferência caótica de mais de 70 mil pessoas de suas casas e roças para novas áreas sem nenhum preparo sério. Em outras regiões do país apareciam na mesma época como corajosos prelados ligados à esquerda da Igreja, com diferenças de tom, matizes, intensidades, os bispos Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e Dom Paulo Evaristo Arns, entre outros.
Na verdade, não seria exatamente apropriado colocar nessa lista o nome de Dom Luiz Flávio  Cappio, um homem que se formou em economia pela Universidade Católica de Petrópolis, em 1972, mas nunca exerceu a profissão. Aliás, arquitetura foi outra área a que ele um dia pensou em se dedicar, mas ao concluir o segundo grau - hoje equivalente ao ensino médio-, em vez de fazer isso, terminou entrando no seminário franciscano de Guaratinguetá, em São Paulo, cidade onde nasceu e morava com a família.
Para se aproximar de um perfil mais real do atual bispo de Barra, é preciso primeiro de tudo considerar que "ele é um franciscano", explica Fernando Altenmeyer, ouvidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (e por conta desse cargo, temporariamente afastado da função de professor), mestre em teologia pela Universidade de Louvain. E a questão ecológica, observa ele, é marcante, é paradigmática mesmo para um franciscano. Em segundo lugar, diz ainda Altenmeyer, que foi porta-voz da Arquidiocese de São Paulo e já há alguns anos pediu dispensa de suas funções de sacerdote, Cappio tem sua trajetória muito marcada pela região sofrida da Bahia onde se instalou, e onde a questão fundiária sempre foi muito séria. E em terceiro lugar, ele é um bispo no sentido de pastor, daqueles que zelam por seu povo, supervisiona-o com carinho. "De uma maneira muito singela, ele se colocou do lado do rio e do lado do povo", resume Altenmeyer.
Aliás, Cappio é autor de "Rio São Francisco: caminhos de vida e morte", um livro editado pela Vozes em 1995, que não está fácil de encontrar nas livrarias. Em janeiro passado, em decorrência do tema da Campanha da Fraternidade de 2004, que era justamente sobre o bom uso da água  (üm dom de Deus"), o bispo de Barra esteve no Tuca, o famoso teatro da PUC de São Paulo, falando para mais de 500 jovens sobre a questão do Semi-Árido nordestino, sobre a necessidade da construção de cisternas, etc. São frentes que ele vai abrindo em favor do povo da  região pelo qual se sente responsável. E que compõem uma luta reconhecida mesmo por quem vê em Dom Luiz Flávio Cappio uma figura muito mística, muito marcada por uma religiosidade arcaica, por um messianismo na linha de Antônio Conselheiro — e simultaneamente, uma personalidade carismática.
A greve de fome do bispo de Barra foi um acontecimento com muitos aspectos e que prestou variados serviços. Serviu, entre outras coisas, para fazer a opinião pública do país prestar atenção ao projeto polêmico de transposição do São Francisco. Não existe consenso político, e muito menos técnico sobre esse projeto. A esse respeito, uma reportagem na revista Pesquisa FAPESP, de julho passado, procurou deslindar o novelo tecnológico que a transposição abarca, levantando o maior número de argumentos tecnicamente embasados dos que são contra e dos que são a favor do projeto. E, claro, se eximiu de uma conclusão nesses termos, até aqui impossível. A greve serviu também para mostrar uma vez mais como estão fluidas as noções de direita e esquerda no país, como fica difícil alinhar projetos de grande impacto social e econômico na conta de inicativas à direita ou de iniciativas à esquerda. Afinal, o bispo que inequivocamente defende seu povo, teve o apoio imediato de representantes das velhas oligarquias do Nordeste em seu ato político.
A questão do paradoxo que a greve de fome representa para um cristão que tem um compromisso fundamental com a proteção à vida também foi levantada. E sobre isso Altenmeyer observa que trata-se, sim, de uma decisão radical que não põe em crise só o cristianismo, mas um sistema ético mais geral. "No entanto, se muito refletida e pensada, assumida com liberdade plena, por uma causa que merece ser tomada como maior que a própria vida, nada tem de uma atitude suicida, nem de pecado. É paradoxal, não é para ser acompanhada, mas é digna de todo o respeito", diz. E é evidente que as religiões têm um certo respaldo para atos assim.
Para encerrar, alguns dados biográficos mais do bispo de Barra, que podem ajudar a uma melhor compreensão de seu perfil:  ele foi ordenado pelo ex-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, em 1971. Em 1973 passou a trabalhar em São Paulo, já como sacerdote, ao lado do frei Luiz Maria Sartori, dirigente da Pastoral Operária. Cappio se mudou para a Bahia em 1974, só com a roupa do corpo e o hábito de frei. Fixou residência em Barra, a 610 quilômetros de Salvador. Em 4 de outubro de 1992, dia de são Francisco e data de seu aniversário, iniciou uma peregrinação da nascente até a foz do rio São Francisco, da qual resultou o seu livro.

Mariluce Moura é jornalista e diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp