Notícia

Gazeta Mercantil

A globalização não abriu o comércio

Publicado em 10 setembro 1997

Por Cristina Borges - do Rio
O processo de globalização em todo o mundo decorre de uma construção ideológica, iniciada no período pós-Guerra e, mais precisamente, nos anos 60 e 70. O fenômeno é resultado da desagregação do modelo anterior e, desde o seu aparecimento, quase toda a humanidade viveu sob sistemas globais ao viés de políticas sociais e culturais, por necessidade de os países reconstruírem o desenvolvimento econômico. A tese é defendida por Alain Touraine, professor e sociólogo francês, que rejeita o conceito de que a globalização é uma descrição da realidade. Em aula magna, na faculdade Cândido Mendes, ontem, ele sustentou que o mundo está passando por uma transição liberal, por um processo capitalista necessário. "Não se trata da formação de um novo desenvolvimento e sim de um processo de mudança. Há um nome antigo, mais adequado, para classificar o fenômeno: capitalismo", afirmou o intelectual. De acordo com essa teoria, acrescentou, a primeira fase corresponde à liberalização da economia de qualquer controle social. Como exemplo recorreu à revolução industrial inglesa, no século XIX, quando houve a ruptura com o sistema antigo, impondo a destruição de toda a agricultura e da lei dos pobres em favor da aceitação da miséria e da proletarização para lançar a economia industrial e o comércio internacional. O resultado foi, em 1850, a conquista da Inglaterra de 50% da totalidade das máquinas a vapor em todo o mundo. No período pós-Guerra, os EUA ocuparam o palco ao deter metade da produção industrial. "Não há desenvolvimento econômico possível sem essas rupturas, sem desgarramento dos sistemas institucionais de uma sociedade", ilustrou Touraine. Ele lembrou, ainda, que num segundo momento, há a necessidade de reestruturação da economia e dos sistemas institucionais porque, caso contrário, não haverá uma economia livre e sim "uma economia selvagem, brutal, que elimina as pessoas. Aumentam a desigualdade, a segregação e a miséria para se chegar, finalmente, ao caos", ensina o professor. O que caracteriza este fim de século, no seu entendimento, é a separação de vários elementos da vida social que ele classifica em cinco fenômenos importantes. O primeiro deles, o mais atraente, refere-se aos avanços da informação e da comunicação que promoveram uma transformação imensa na consciência de espaço. As cidades transformaram-se em sociedade global, na medida em que os indivíduos participam de redes de comunicação. Como efeitos da globalização o sociólogo francês destaca a importância do comércio mundial, um fenômeno novo e dominante, sem contudo poder ser caracterizado como uma tendência. "O resultado econômico de um país depende da sua capacidade de mobilizar recursos culturais, políticos e sociais e não só de deixar as portas abertas ao mercado internacional", ressaltou. Segundo ele, os países mais abertos ao mercado mundial, hoje, são muito menos abertos que a Inglaterra em 1903, lembrando que na época o comércio exterior representava 45% da economia inglesa, e quanto atualmente a participação nos EUA chega a menos de 15% e nos países europeus, de 25% a 30%. Outro fenômeno importante da globalização, destacado por Touraine, é o desenvolvimento do capital financeiro que não guarda relação com o comércio internacional, cuja participação é de apenas 2% no movimento financeiro diário do capital mundial. Ele criticou as vantagens financeiras que atraem empresas de todo o mundo em aplicações globais em detrimento de investimentos produtivos. "É uma péssima maneira de ganhar dinheiro", desabafou. A formação de economias emergentes também é tema de seus estudos sobre a globalização, com enfoque sobre a manutenção de saldos comerciais francamente favoráveis para os países desenvolvidos. O quinto fenômeno promovido com a onda globalizante que Touraine listou envolve a hegemonia militar, não econômica mas cultural dos EUA. "Pelos meios de comunicação, houve a formação de um modelo cultural criado em Hollywood e em Nova York, adotado pelo Japão e por novelas brasileiras, transmitindo produtos norte-americanos ao mundo imaginário infantil que está globalizado. Todos conhecem as mesmas fábulas", disse. FHC RECEBE TOURAINE Cristina Borges - do Rio Alain Touraine, professor e sociólogo francês, será hóspede especial do presidente Fernando Henrique Cardoso a partir de hoje até domingo, quando retorna à França. Em um "tour" politicamente correto, ele incluiu uma visita à favela da Mangueira, na segunda-feira, e tem programada a ida a um assentamento na Bahia, nesta sexta-feira. Ao retornar a Brasília, tem ainda encontros marcados com o governador Cristóvan Buarque, com o senador Antônio Carlos Magalhães e com ministros próximos a Fernando Henrique, entre eles, Paulo Renato de Souza, da Educação; Francisco Weffort, da Cultura; e Sérgio Motta, das Comunicações. Amigo de longa data de Fernando Henrique, com quem divide preocupações e prazeres intelectuais, Touraine revelou sua intenção de falar com o presidente sobre temas que envolvem consciência moral e ética. Ele tentará falar com o amigo sobre a necessidade de restabelecer o Estado de Direito, segundo Touraine a única forma de o País destruir a imagem de um sistema violento incapaz de controlar a violência. Para o sociólogo, esse ponto é prioritário para o Brasil conseguir transformar em ações positivas a capacidade de auto-organização de suas instituições. O sociólogo mostrou-se preocupado com a capacidade do País de associar aspectos sociais e racionais, visão que não tinha há dois e três anos. "O jogo político me parece mais um processo de retração que de expansão, o que significa uma eventual situação de crise. A sustentação política de Fernando Henrique Cardoso através de aliança de centro-direita, na avaliação de Touraine, não o inclina a interpretar que o amigo esteja sendo instrumentalizado pela direita. Ele acredita que o contrário esteja acontecendo. "Não seria escandaloso fazer uma aliança que aceita o Brasil moderno para reconstruir uma vida política social aberta. Mas também pode ser um buraco em que o presidente caiu e que ele esteja sendo utilizado por velhos dirigentes. As duas hipóteses são possíveis", admitiu o sociólogo.