Notícia

Gazeta Mercantil

A função da universidade - Os desafios que a área acadêmica terá que superar

Publicado em 13 maio 1996

Por Aldo Ferrer*
Desde o início da aproximação argentino-brasileira, com a ata de Foz do Iguaçu, em 30 de novembro de 1985, o processo de integração avançou rapidamente e sem pausas. O Tratado de Assunção de março de 1991 e a incorporação do Paraguai e do Uruguai terminaram por moldar o Mercosul, que abrange um território de 11 milhões de quilômetros quadrados, 200 milhões de habitantes e um produto da ordem de US$ 1 bilhão. A criação do Mercosul transforma o quadro de desenvolvimento econômico, social e cultural dos países membros. O sistema abrange todos os planos da realidade e pleiteia questões novas no funcionamento dos mercados, a harmonização das políticas dos estados e suas relações internacionais, o desenvolvimento humano e a proteção do ecossistema. Os documentos da fundação revelam que os objetivos finais da criação do Mercosul são o aumento da qualidade de vida e a afirmação da presença dos nossos países em um mundo global. Esse caráter complexo e abrangente revela que a integração é muito mais do que a simples expansão do comércio e dos investimentos intra-regionais ou o entendimento entre funcionários. Por isso mesmo, o processo não está reduzido à interpretação de agentes importantes mas de aspectos parciais da integração regional. Colocam-se, em conseqüência, duas questões centrais. Por um lado, a necessidade de conceber o desenvolvimento, a integração e a inserção internacional do Mercosul como instrumento do desenvolvimento humano sustentável. Por outro, o planejamento e a execução de decisões particulares e das políticas públicas fundadas em uma visão sistêmica do processo de integração. Em ambas as questões a universidade tem responsabilidades insuspeitáveis. Ela é o âmbito natural onde nossas sociedades analisam sua realidade e seu desenvolvimento. E, ao mesmo tempo, depositária principal da maioria coletiva, da identidade cultural dos nossos povos e de núcleos fundamentais dos sistemas nacionais de ciência e tecnologia. Constitui, assim mesmo, o espaço natural da abordagem integrada e sistêmica das questões culturais, econômicas, financeiras, sociais, ambientais, jurídicas, administrativas, políticas e institucionais. Finalmente, a universidade é protagonista na formação de recursos humanos. Desse modo, o Mercosul pleiteia à universidade desafios inadiáveis ou incluíveis em vários campos principais. Entre eles: 1. Formação de recursos humanos. O Mercosul está gerando, a partir das áreas privadas e públicas, uma crescente demanda de pessoal qualificado. Nos estudos de graduação e nas pós-graduações de especializações e mestrados, é preciso incorporar assinaturas, seminários, oficinas e outros meios de formação de recursos humanos, referentes às questões críticas da integração. 2. Pesquisa. A natureza complexa e sistêmica da integração exige a investigação dos seus problemas a partir de uma perspectiva abrangente que privilegie os conteúdos axiológicos e finais do Mercosul. Desse modo, questões como as do desenvolvi mento humano, da proteção do meio ambiente e afirmação da identidade em um mundo global constituem campos privilegiados da investigação e da interface pesquisa-docência. A atividade da universidade nesses campos contribuiria, por isso, à promoção de ações, desde as esferas privadas e públicas, tendentes a enriquecer os tecidos econômico-sociais e culturais que sustentam o Mercosul. 3. Formação de redes com os agentes do Mercosul e o mundo acadêmico da região e do resto do mundo. Pela sua própria natureza, a universidade é um âmbito natural de encontro e tecido de redes entre os agentes econômicos e sociais (empresários, sindicalistas, políticos, diplomatas, formadores de opinião, etc.). A finalidade dessas ações é ampliar e enriquecer as perspectivas e os meios da ação de todos os protagonistas e fortalecer a visão pluralista, sistêmica e democrática da integração. A formação de redes dentro do mesmo mundo acadêmico é outra questão vital. Nesse sentido já se tem dado passos importantes que viabilizam a cooperação de diversas universidades, dentro da Argentina e dos outros países do Mercosul, assim como também do resto do mundo. Tais como, por exemplo, o Grupo de Montevidéu, que congrega várias universidades da região, o Programa Alfa, com várias universidades européias, e diversos entendimentos bilaterais entre universidades (como os existentes entre a de Buenos Aires com as de Campinas e a Federal do Rio Grande do Sul, do Brasil). Existem assim mesmo múltiplas vias de cooperação possíveis com outras organizações conto as realizadas e no projeto com o Conselho Argentino para as Relações Internacionais e o Grupo de Análise para a Integração do Cone Sul. No caso da Universidade de Buenos Aires, suas diversas unidades acadêmicas desenvolvem atualmente atividades - cursos, seminários, conferências internacionais, etc. - para atender as demandas pleiteadas pelo Mercosul. Em fins de 1995 o Conselho Superior da UBA estabeleceu o Programa sobre Processos de Integração Regional do Mercosul, com vistas a ampliar o desempenho da universidade nesse campo. O programa se inspira em uma visão sistêmica e axiológica da integração e promove uma estratégia de formação de redes ao interior das diversas unidades acadêmicas da universidade e aos agentes da integração. O programa promove, assim, a formação de redes com outras universidades do país, da região e do resto do mundo. Dentro do programa e no âmbito do Centro de Estudos Avançados da UBA, no princípio de 1996 começaram as atividades do mestrado Mercosul. Trata-se de uma atividade destinada aos universitários graduados do país e do exterior da qual se espera uma contribuição significativa na capacitação de recursos humanos qualificados e na pesquisa dos problemas fundamentais do Mercosul. * Diretor da Universidade de Buenos Aires e ex-ministro da Economia da Argentina.