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Revista da Semana

A fuga de cérebros pode ser benéfica

Publicado em 23 outubro 2008

Por Fabrício Marques, revista Pesquisa Fapesp

Pesquisadores no exterior podem contribuir para o desenvolvimento do País

 

Ganhou novos contornos o debate sobre a “fuga de cérebros”, o êxodo rumo a nações ricas de talentos formados a duras penas por países pobres. Acentuou-se de tal modo a mobilidade internacional de profissionais que a academia passou a compreender o fenômeno como algo bem mais complexo e multifacetado, capaz de trazer compensações e benefícios. Várias estratégias foram concebidas ou testadas para enfrentar a fuga de cérebros. O Brasil seguiu nas últimas quatro décadas uma opção de retenção ao patrocinar o desenvolvimento de um forte sistema de pós-graduação. Estudo liderado pelo sociólogo Simon Schwartzman em 1972 constatou que a fuga de cérebros era pequena. Apenas 5% dos brasileiros de sua amostra permaneceram no exterior. Pesquisa feita em 2002 chegou a resultado semelhante.

Uma acentuada tendência de voltar ao país separa os pesquisadores brasileiros no exterior de colegas de outras nacionalidades. As agências de fomento têm políticas rigorosas no sentido de exigir o retorno de seus bolsistas, sob pena de devolverem o dinheiro investido. Além disso, as agências passaram a priorizar modalidades como o doutorado sanduíche ou o pós-doutorado, de permanência bem mais curta. Os brasileiros também são avessos à mobilidade até mesmo dentro do território nacional.

Um dos efeitos benéficos registrados em alguns países tradicionalmente atingidos pela fuga de cérebros é em educação. Há indícios de que a perspectiva da obtenção de um visto de permanência num país desenvolvido estimula mais pessoas em países pobres a investir em ensino. Como nem todos os aspirantes efetivamente vão embora, o saldo final é positivo para o país.

Jean-Baptiste Meyer, especialista francês em mobilidade de talentos, tornou-se um dos principais defensores do retorno (cuja idéia é atrair de volta profissionais emigrados) e da diáspora (que tenta engajar a distância os pesquisadores dispersos no exterior com seu país de origem). “Nesse caso a perda de cérebros se converteria em ganho, pois o país em desenvolvimento se apropriaria de um capital humano cujo treinamento foi feito e financiado em outro país”, afirma. Anna Lee Saxenian, professora da Universidade da Califórnia, Berkeley, mostra que é possível, por meio da mobilidade de talentos, transferir conhecimento técnico e institucional entre economias distantes de modo rápido e flexível. Em 2000 cerca de metade dos cientistas e engenheiros do Vale do Silício era de estrangeiros. Segundo Anna, existem exemplos de pesquisadores responsáveis por estreitar os laços tecnológicos entre seu país e as economias mais avançadas.