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A floresta da chuva

Publicado em 05 novembro 2019

Se 60% da Amazônia é brasileira e 40% de outros oito países, por que o mundo deveria se preocupar com o destino da maior floresta tropical do planeta? Não seria pela produção de oxigênio, mito que sempre ressurge quando as queimadas ganham força e a taxa de desmatamento sobe na região, como ocorreu neste ano, colocando em risco os supostos “pulmões do mundo”. De dia, as plantas fazem fotossíntese e transformam a energia solar em química, basicamente carboidratos (açúcares) vitais para sua sobrevivência. Nesse processo, elas absorvem vapor-d’água e dióxido de carbono (CO2), o mais importante gás de efeito estufa, e liberam oxigênio. Mas à noite, quando não realizam fotossíntese, e apenas respiram, elas consomem oxigênio e expiram CO2. No fim do dia, feitas as contas, há um empate técnico entre a quantidade de oxigênio consumida e liberada. Na verdade, a fotossíntese de toda a vegetação do planeta libera uma quantidade de oxigênio que praticamente não altera a concentração atmosférica desse gás.

Além de ser detentora de cerca de 15% de toda a biodiversidade do planeta, uma razão em si suficiente para preservá-la, a Amazônia desempenha vários papéis fundamentais para a química atmosférica em nível regional, continental e até global. “A floresta é uma grande fonte de vapor-d’água não só para a região Norte como para o Centro-Sul do País e a bacia do Prata”, comenta o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP). “Atua fortemente para regular o clima em diferentes escalas, inclusive remotamente”. Se for para recorrer a uma metáfora, a Amazônia seria o ar-condicionado do planeta, espalhando frescor e umidade — em outras palavras, chuva — sobre si mesma e demais partes do globo. Não é força de expressão a língua inglesa chamar a Amazônia e outras matas úmidas tropicais de rainforests, literalmente florestas da chuva. Nesses pontos do planeta, há coberturas vegetais densas e exuberantes porque chove de forma quase contínua e muito, entre 2 mil e 4.500 milímetros (mm) por ano.

A umidade que chega à imensa bacia amazônica é trazida por ventos que sopram do oceano Atlântico tropical em direção ao continente. Esse vapor-d’água gera chuva sobre a floresta. Em um primeiro momento, a vegetação e o solo absorvem a água. Em um segundo, ocorre o fenômeno conhecido como evapotranspiração: parte da chuva evapora dos solos e as plantas transpiram. Essas ações devolvem uma grande fração da umidade inicial à atmosfera, que produz mais pluviosidade sobre a mata. Essa interação gera um ciclo perene muito eficiente de reaproveitamento da água. Por isso, os pesquisadores dizem que a Amazônia processa parte de sua própria chuva. Mas nem todo esse vapor-d’água permanece estacionado sobre a floresta. Ao ser devolvida à atmosfera, uma parte dessa umidade gera correntes aéreas que transportam chuva para o centro-sul do continente. São os famosos rios voadores. Diariamente, esses rios aéreos transportam cerca de 20 bilhões de toneladas de água, 3 bilhões de toneladas a mais do que o rio Amazonas, o de maior volume de água do mundo, despeja cotidianamente no Atlântico.

O desmatamento e a possível fragmentação da floresta tropical podem comprometer sua capacidade de enviar vapor-d’água para o Brasil Central e o Sul do continente. “A Amazônia é uma área predominantemente plana e contínua, que, nos modelos climáticos, consideramos como um bloco, uma entidade em si”, explica o climatologista José Marengo, chefe do setor de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). “Mudanças significativas em sua cobertura vegetal alteram o sistema de circulação atmosférica e podem ter repercussões sobre o regime de chuvas em lugares distantes. Podem dar origem a eventos extremos, como a diminuição do total de pluviosidade ou sua concentração em pouco dias”. Fora da região Norte, o efeito umidificador da Amazônia é sentido de forma mais evidente no Sudeste, na Bacia do Prata e no Centro-Oeste, cujas atividades agropecuárias se beneficiam de uma redução de temperatura causada por ventos amenos vindos da floresta.

Em 19 de agosto deste ano, os paulistanos tiveram uma amostra das conexões à distância que interligam a atmosfera amazônica com o clima da cidade de São Paulo. Por volta das 15h, no meio da tarde, um temporal invernal escureceu o céu da metrópole. O dia que vira noite chama a atenção, mas não chega a ser um fenômeno raro. Incomum foi a chuva preta que caiu durante a tempestade. Análises feitas no Instituto de Química da USP encontraram na água da chuva o composto orgânico reteno, da classe dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), formado apenas quando ocorre a queima de biomassa, como árvores. Como a data da chuva negra em São Paulo coincidiu com um pico de queimadas na região Norte e em países vizinhos, o reteno deve ter sido produzido pelos incêndios florestais que levaram a Amazônia a ser notícia de primeira página no mundo naquele mês. A fumaça das queimadas foi transportada até a capital paulista, onde se juntou às nuvens de chuva.

Nos últimos anos, alguns trabalhos têm tentado medir qual seria o impacto do desaparecimento ou da redução drástica da área das grandes florestas tropicais sobre o clima em diferentes partes do planeta e suas implicações para a agricultura. Um artigo publicado em 2015 na revista científica Nature Climate Change compilou e analisou dados de mais de 20 estudos de modelagem climática e artigos científicos que tratavam das repercussões do desmatamento total ou parcial das três grandes florestas tropicais: a Amazônia, a maior delas, a da África Central, na bacia do Congo, e a do Sudeste Asiático. As duas primeiras formam blocos contínuos de vegetação, mas a Amazônia é 70% maior e mais úmida do que as florestas africanas, que também sofreram neste ano grandes incêndios. A maior parte das florestas do Sudeste Asiático está espalhada por ilhas da região, como Indonésia e Malásia. A Amazônia é 2,5 vezes maior do que as matas dessa região.

Além de estimular localmente secas e picos de temperatura, o desmatamento completo das florestas tropicais faria o clima do planeta esquentar mais 0,7 ºC, próximo do nível de aquecimento global atualmente experimentado pelo aumento do efeito estufa desde a Revolução Industrial. As maiores repercussões do desmatamento completo, no entanto, seriam sobre o regime de chuvas. “O desflorestamento tropical causaria um golpe duplo no clima e nos agricultores”, disse, em material de divulgação do estudo, a professora de ciências ambientais Deborah Lawrence, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, principal autora do estudo. “A remoção de florestas alteraria a umidade e o fluxo de ar, levando a mudanças que seriam igualmente perigosas e aconteceriam imediatamente. Os impactos iriam além dos trópicos. O Reino Unido e o Havaí poderiam ter um aumento nas chuvas, enquanto o meio-oeste dos EUA e o sul da França, um declínio.” O cultivo de grãos, como milho, trigo, cevada e soja, é disseminado nessa região norte-americana. Na França meridional, além dos grãos, há expressiva produção de vinho e de lavanda.

Em outubro deste ano, em um encontro na Universidade Princeton, nos Estados Unidos, para discutir a importância da Amazônia para o planeta, um trabalho de modelagem climática semelhante foi divulgado. No estudo, coordenado pelo ecólogo Stephen Pacala e a climatologista Elena Shevliakova, ambos de Princeton, foram simuladas quais seriam as consequências se toda a floresta amazônica virasse pastagem. Na escala global, o mundo ficaria 0,25 ºC mais quente. No Brasil, as chuvas seriam reduzidas em um quarto e a própria Amazônia ficaria 2,5 ºC mais quente. O cenário de desaparecimento total das florestas tropicais é muito radical e dificilmente irá se materializar. No entanto, trabalhos como o de Lawrence sinalizam que um desmatamento entre 30% e 50% seria suficiente para produzir fortes impactos globais, além da savanização de parte da floresta.

A ameaça à Amazônia não derivaria apenas da ação das motosserras ou do fogo das queimadas. Uma pesquisa recente sugere que o próprio aquecimento global estaria por trás de um misterioso aumento na mortalidade de certos tipos de árvores em áreas de mata fechada, em zonas bem preservadas, onde teoricamente a resiliência da vegetação deveria ser alta. Publicado em novembro do ano passado na revista científica Global Change Biology, o estudo analisou o diâmetro dos anéis de crescimento de árvores individuais em 106 trechos da floresta e concluiu que as não adaptadas a condições de estresse, como seca prolongada e temperaturas mais elevadas, estariam perecendo mais do que as demais.

As espécies mais aptas a crescer em ambientes úmidos estariam perdendo espaço para as que se desenvolvem mais facilmente em clima seco. “As árvores adaptadas à umidade morrem, abrem pequenas clareiras no meio da floresta e são substituídas por espécies de crescimento mais rápido, como a embaúba”, explica a ecóloga brasileira Adriane Esquivel-Muelbert, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, principal autora do trabalho. “O aquecimento global está mudando a biodiversidade das espécies que compõem a floresta.” Esses trechos da Amazônia são acompanhados há 30 anos por pesquisadores do Brasil e do exterior dentro do projeto Amazon Forest Inventory Network (Rainfor). O problema dessa substituição é que as novas espécies dominantes crescem rápido, mas têm vida efêmera e retiram menos carbono da atmosfera, um dos papéis mais importantes da Amazônia, ao lado de seu efeito de disseminação de umidade.

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

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