Notícia

Correio Popular

A flora do Brasil, enfim, na internet

Publicado em 19 março 2006

Por Raquel Lima, da Agência Anhangüera (rlima@rac.com.br)
Clássico do século 19, obra monumental do alemão Von Martius foi digitalizada e estará acessível a partir de quarta-feira

A mais completa e abrangente obra sobre a flora do Brasil, que tem original e cópias trancadas em salas de raridades de algumas bibliotecas, está prestes a se tornar algo mais do que público. O livro Flora Brasiliensis, resultado do trabalho do botânico alemão Carl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868), poderá ser acessado gratuitamente pela internet a partir da quarta-feira, dia 22. Numa harmoniosa junção entre ciência e arte, a obra traz a descrição de 22.767 espécies e 3.811 desenhos em alta resolução e com riqueza de detalhes de plantas, suas flores, frutos e sementes.
A popularização do Flora Brasiliensis ocorre exatamente um século depois da publicação do último de seus volumes, em 1906. O levantamento, no entanto, teve início em 1817, quando Von Martius desembarcou no Brasil na comitiva da imperatriz Leopoldina. Na companhia do cientista Johann Baptiste Spix, o botânico percorreu 10 mil quilômetros durante três anos. O trabalho de Von Martius resultou em 15 volumes constituídos por 40 partes com 130 fascículos.
A versão eletrônica é coordenada pelo botânico George Shepherd, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, o objetivo do trabalho é facilitar o campo de pesquisa, criando um "laboratório sem paredes". O desenvolvimento e gerenciamento do site (http://florabrasiliensis.cria.org.br) é feito pelo Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), com sede em Campinas. A digitalização das ilustrações e dos textos está sendo feita pelo Jardim Botânico do Missouri, em St. Louis (EUA).
Os desenhos poderão ser consultados pelo nome científico de cada espécie, por volume ou página da obra. Outro atrativo do site é que os usuários poderão aproximar a imagem, como se estivesse utilizando uma lente de aumento para observar os desenhos.
Por enquanto, estarão disponíveis 40% das espécies e 90% dos gêneros apontados na obra de Von Martius. Já os textos, cerca de 11 mil (todos em latim) estão em fase de digitalização.
O professor aposentado da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp Vanderlei Perez Canhos contou que o desafio dos pesquisadores agora é dar continuidade ao trabalho de Von Martius, já que o Ministério do Meio Ambiente estima que entre 50 mil e 70 mil espécies componham a flora brasileira. "Nossa idéia é reunir em julho próximo cientistas de todo o mundo para discutir e revisar a flora do Brasil", disse. "É um trabalho que pode demorar décadas, mas hoje temos mais tecnologias à disposição. O importante é que tem de ser uma iniciativa internacional liderada pelo Brasil", completou. De acordo com Shepherd, muitos nomes na obra Flora Brasiliensis são diferentes dos nomes pelos quais as plantas são conhecidas atualmente.

Financiamento
A produção do site, orçado em R$ 425,8 mil, foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Vitae Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social, e Natura Cosméticos. O lançamento oficial da versão digital do Flora Brasiliensis está marcado para quarta-feira (22), durante a 8 Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, que começa amanhã e vai até o dia 31 de março, em Curitiba (PR).

Saiba mais
Homenagens a von Martius
Prêmio Ambiental Von Martius;
Cátedra de Ecologia "Carl Friedrich Phillip Von Martius" — Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo;
Centro de Visitantes Von Martius — Parque Nacional da Serra dos Órgãos;
Instituto Martius-Standen;
Rua Von Martius (Rio de Janeiro);
Rua Frederico Von Martius (São Paulo)

Botânico veio na comitiva de nobre austríaca
O botânico alemão Carl Friedrich Philip von Martius teve a vida dedicada às ciências naturais. Além de botânico, era médico e antropólogo. Tinha apenas 23 anos quando integrou a missão científica organizada em 1817 pelos governos bávaro e austríaco para pesquisar a flora tropical. Ele desembarcou no porto do Rio de Janeiro em 15 de julho daquele ano, fazendo parte da comitiva da grã-duquesa austríaca Leopoldina, que viajava para o Brasil a fim de casar-se com D. Pedro I. O jovem ficou com a responsabilidade das pesquisas sobre botânica. Nessa mesma expedição veio ao Brasil o cientista Johann Baptiste Spix (1781-1826) que, juntamente com Martius, recebera da Academia de Ciências da Baviera o encargo de pesquisar as províncias mais importantes do País e formar coleções botânicas, zoológicas e mineralógicas.
Durante três anos, eles percorreram cerca de 10 mil quilômetros. O trabalhou começou no Rio de Janeiro, seguindo para São Paulo e Minas Gerais. Depois, o grupo cruzou a Bahia, passou por Pernambuco, Piauí e Maranhão. De navio, seguiu para Belém (PA) e subiu o Rio Amazonas até o Solimões. A partir desse ponto, Spix continuou pelo Amazonas até os limites do Peru. Enquanto isso, Von Martius seguiu pelo Rio Japurá até a fronteira com a Colômbia. Os dois se reencontraram e seguiram a expedição pelo Rio Madeira.
As pesquisas de Von Martius foram importantes e até hoje são as bases para a botânica sistemática brasileira. Von Martius foi o primeiro a dar nome à Mata Atlântica, batizando-a de "Dríades".

Obras
Viagens ao Brasil
Flora Brasilienses;
História Natural dos Palmares;
Novos Gêneros e espécies de plantas;
História Natural das Palmeiras;
Novos Gêneros e espécies de plantas;
Desenhos selecionados das plantas criptogâmicas brasileiras;
Sistemas dos remédios vegetais brasileiros