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Jornal da Unicamp online

A flauta de monges e samurais

Publicado em 27 fevereiro 2015

Por Luiz Sugimoto

Shakuhachi é uma flauta secular, feita de bambu e de sonoridade marcante, que no passado serviu como ferramenta espiritual de monges budistas nas práticas meditativas e também como arma para samurais derrotados na guerra e que tiveram a espada confiscada no período Edo (1603-1867); e que agora, na contemporaneidade, vem sendo introduzido em obras de estilos diversos, como jazz e orquestra, inclusive com aumento significativo de tocadores não descendentes de japoneses. O flautista Rafael Hiroshi Fuchigami conta essa história em “Aspectos culturais e musicológicos do shakuhachi no Brasil”, a primeira pesquisa de mestrado específica sobre o instrumento realizada no país, orientada pelo professor Eduardo Augusto Ostergren e apresentada no Instituto de Artes (IA) da Unicamp.

Para levantar os aspectos históricos e etnomusicológicos da introdução e difusão da flauta shakuhachi no Brasil, desde o início do século XX até os dias atuais, o autor fez uma vasta pesquisa de campo que incluiu duas viagens ao Japão: a primeira em 2012, para um estudo etnográfico do World Shakuhachi Festival, com apoio do Faepex da Unicamp; e outra em 2013, para um estágio de seis meses no Centro de Treinamento Internacional de Shakuhachi, em Tóquio, com Bolsa de Estágio e Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fapesp. A dissertação resultou ainda na peça “Musashi – Poema sinfônico para shakuhachi e orquestra”, composta por Tomaz Vital e que estreou em maio de 2013 sob a regência de Daisuke Shibata – compositor e maestro são ex-alunos do IA.

Fuchigami, como evidencia o nome, descende de japoneses, mas antes de conhecer o shakuhachi não tinha envolvimento maior com grupos nikkei. Em 2008, ensaiando com a Orquestra Filarmônica Brasileira do Humanismo Ikeda, que se preparava para se apresentar no Sambódromo de São Paulo durante as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa, o flautista ouviu do maestro: “Para esta música, pense no som da sua flauta como se fosse um shakuhachi”. “O que é um shakuhachi?”, perguntou-se o graduando da Unicamp, que então desenvolveria duas pesquisas de iniciação científica, a primeira sobre a história do instrumento e a segunda explicando como ele é fabricado.

O músico conta que, mesmo no Japão, a maioria das pessoas jamais teve contato com o shakuhachi, ainda que dele tenham ouvido falar. “Quando morei em Tóquio, não podia estudar em casa nos finais de semana porque era o descanso dos vizinhos; tocava no parque, para surpresa dos que viam alguém com sotaque estrangeiro aprendendo sobre a cultura tradicional japonesa. Dentre várias versões, vigora a de que um ancestral da flauta, originalmente chinesa, chegou ao Japão através da orquestra Gagaku, sofrendo alterações no correr dos séculos até adquirir o formato de hoje. O shakuhachi está inserido em diferentes contextos que variam conforme a época e a concepção de cada tocador.”

Segundo o autor da dissertação, a princípio o instrumento era exclusivo da música da corte, onde foi perdendo espaço até passar às mãos de monges que tocavam a flauta de bambu (ainda bastante simples) nas suas peregrinações, em troca de alimentos e outras oferendas. “Este movimento de monges foi se ampliando e o shakuhachi se tornou uma ferramenta religiosa, mudando do contexto da corte para o templo. No período Edo, muitos samurais do lado derrotado nas guerras, os ronin, tiveram suas espadas confiscadas pelo xogunato Tokugawa e se transformaram em mercenários, bandidos e também em monges.”

Entretanto, prossegue Fuchigami, esses antigos samurais consideravam-se de classe social mais elevada e não queriam ser rebaixados a monges mendicantes. Eles se incorporaram à seita zen-budista Fuke como uma classe diferenciada de tocadores de shakuhachi, cuja peculiaridade estava no grande chapéu em formato de cesto que cobria completamente suas cabeças durante a peregrinação. Diziam-se “sacerdotes do vazio” (komuso), que tinham como ideal o Ichion Jobutsu: prática de meditação em que se tocava o shakuhachi para experimentar a iluminação e tornar-se Buda através do sopro do instrumento. Mas diz a lenda que os komuso redesenharam a flauta com um bambu mais longo e resistente, utilizando-a também como arma.

Justamente pela reputação de abrigar arruaceiros, espiões e bandidos disfarçados sob o chapéu-cesto, a seita Fuke foi abolida no período Meiji (1868-1912), quando o Japão começou a se ocidentalizar. “Como o fim da seita também significaria o fim do shakuhachi, o instrumento deixou de ter um caráter monástico para voltar a ter um caráter artístico. Hoje em dia toca-se a flauta não apenas na música tradicional japonesa, mas inserida no jazz e na orquestra sinfônica, ao lado de instrumentos ocidentais, como em ‘November Steps’, peça composta por Toro Takemitsu para shakuhachi e biwa (instrumento de cordas igualmente tradicional).”

A difusão no Brasil

Fuchigami afirma que o shakuhachi veio para o Brasil com os imigrantes japoneses, mas chegou a outras partes do mundo de maneiras diversas, como através de músicos que foram ao Japão aprender sobre o instrumento e na volta criaram escolas de tocadores; ou de intercâmbios em que grupos japoneses saem para apresentações e workshops em outros países. “Vemos hoje, grosso modo, três concepções em relação ao shakuhachi: a mais conservadora, de que o instrumento é uma tradição; a de que é música e podemos expandi-lo para outros contextos, como jazz ou bossa nova; e a espiritual, enquanto ferramenta de prática meditativa. Como um ator, o shakuhachi assume um personagem diferente dependendo do contexto.”

Em seu mestrado, o autor interessou-se em mapear e buscar informações sobre a difusão do instrumento em várias regiões do país – junto a imigrantes japoneses e descendentes que formaram alunos e grupos para apresentações – e também sobre os modos como é utilizado atualmente. “A partir de pesquisadores como o americano Dale Olsen e a brasileira Alice Satomi, que estudaram a música tradicional japonesa no Brasil, fiz um recorte e me aprofundei no shakuhachi. E encontrei informações muito interessantes, como a existência de brasileiros que vêm se tornando lideranças de grupos de música japonesa e introduzindo repertórios e estilos novos.”

Na opinião de Fuchigami, atualmente, a cultura japonesa está se difundindo independentemente do deslocamento populacional, graças à eficiência dos meios de comunicação (Internet) e aos intercâmbios. “Outra dimensão da pesquisa é de como o shakuhachi interfere no senso de identidade dos tocadores. Encontrei não descendentes que acreditam terem sido japoneses em vidas passadas e que apenas nasceram em um corpo de brasileiro; buscam namoro ou casamento com japoneses; em suas casas há quadros com escritos em japonês e cortinas tradicionais (noren) na porta de entrada, onde devemos tirar os sapatos. Enfim, manifestam um sentimento que vai além da dimensão musical.”

O próprio autor flautista, que preferia tocar música clássica ou brasileira até iniciar suas pesquisas em 2008, mostra incontida felicidade com um fruto da dissertação que continua saboreando: a performance com o instrumento. A última apresentação de shakuhachi em Campinas ocorreu no Planetário da Cidade, juntamente com o tocador japonês Hiromu Motonaga e Tomaz Vital. “Descobri duas paixões: o shakuhachi (e as coisas do Japão) e a pesquisa acadêmica. Criei gosto não só por estar nas salas de concerto como músico, mas também na biblioteca e no trabalho de campo como pesquisador.”

Tratamento torna o som mais potente

Rafael Fuchigami explica que a flauta shakuhachi tem o corpo feito de bambu da espécie Phyllostachys bambusoides (que os japoneses chamam de madake), por causa de suas características físicas, como por exemplo, a densidade e as paredes mais grossas e duras. No interior do tubo aplica-se uma pasta chamada ji, que consiste de uma mistura de tonoko (um tipo de pó, que pode ser gesso de paris), água e urushi (laca); após a modelagem do interior do instrumento aplica-se novamente o urushi, que confere um tom avermelhado ou preto – e possui outras aplicabilidades, como na cerâmica japonesa.

“Este tratamento é importante porque o bambu, por ser naturalmente poroso, não oferece tanta projeção sonora; aplicando-se a laca, o som ganha potência e estabilidade, tornando possível construir um shakuhachi já com uma afinação mais precisa e com a projeção que um palco exige, diferentemente do instrumento que era tocado no monastério”, esclarece Fuchigami.

Outra característica são os cinco orifícios no tubo, quatro na frente e um atrás. “Na Europa, a flauta e os demais instrumentos de sopro foram evoluindo no sentido de adquirir homogeneidade sonora, tendo como parâmetro o piano, tocando escalas cromáticas e com muita velocidade. Os japoneses criaram versões do shakuhachi inspirados nesta concepção, tal como o okuraulo, que utiliza o bocal de um shakuhachi e o corpo de uma flauta transversal; porém, a versão tradicional de cinco furos é a mais difundida, por manter as características do instrumento dentro do contexto da sonoridade da música clássica japonesa.”

Fuchigami observa que, por ter sobrevivido ao longo dos séculos e a inúmeras mudanças ocorridas no Japão, o shakuhachi se adaptou ao mundo contemporâneo, o que permitiu sua inserção em contextos culturais distintos. “Mantendo seu colorido sonoro peculiar, ao se combinar com instrumentos ocidentais, abre novas possibilidades musicais. E, quando atua em seu meio original (a música clássica japonesa), expressa de maneira singular a beleza estética tradicional do Japão.”

Publicação

Dissertação: “Aspectos culturais e musicológicos do shakuhachi no Brasil”

Autor: Rafael Hiroshi Fuchigami

Orientador: Eduardo Augusto Ostergren

Unidade: Instituto de Artes (IA)