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Foco Economia e Negócios

A ficção como análise

Publicado em 27 junho 2005

Por Yudith Rosenbaum

É difícil sair imune da leitura instigante e perigosa dos textos de Clarice  Lispector, que abrem feridas e derrubam máscaras, convidando a um mergulho, sem garantias, no desconhecido
"Escrever é uma maldição. Mas uma maldição que salva." Essa frase de Clarice Lispector, escritora ucraniana que migrou com a família para o Brasil em 1920, revela uma relação tensa e incômoda entre o autor e as palavras, mas aposta claramente na força afirmativa da literatura. O que significou o ato de escrever para uma das maiores escritoras da literatura moderna brasileira? E qual o efeito dessa escrita angustiada e salvadora na legião de leitores que a adotaram?
Entre os inúmeros fragmentos, crônicas, trechos biográficos, epigramas, contos e romances publicados em mais de 30 anos de produção literária — do romance de estréia, Perto do Coração Selvagem (A Noite, 1944), até o último livro editado em vida, A Hora da Estrela (José Olympio, 1977), além dos póstumos, como Um Sopro de Vida (Nova Fronteira, 1978) — (veja informações sobre edições atuais na página 72) — é possível depreender uma atitude desconfiada e cética em relação à linguagem.
Clarice parece dizer a todo momento que a escrita está sempre aquém das coisas reais, que o mundo vivido e experimentado pelos homens pede para ser dito e representado, mas não cabe no nosso pobre e limitado código lingüístico. Nisso, é bom lembrar, Clarice não está sozinha. A crise da palavra, que deixa de ser um modo de expressão plena da vida, é uma característica da atormentada escrita da modernidade, de Kafka a Borges, de Joyce a Samuel Beckett. Clarice pertence, assim, à linhagem dos autores fadados a se confrontar com o vazio das impossibilidades verbais. Ela diria o mesmo que o romântico Schiller afirmou: "Quando a alma fala, já não fala à alma".
Alguns exemplos dessa descrença nas funções habituais da linguagem estão dispersos em toda a obra da autora. Tal vez seu ponto de origem remonte à infância da escritora, que aos 7 anos via suas histórias serem sistematicamente recusadas pelo Jornal de Recife (cidade onde morou até a adolescência), por não terem um enredo convencional, do tipo "Era uma vez...". Na crônica Ainda Impossível, de 1972, ela se coloca o desafio, agora adulta, de escrever algo que, finalmente, relatasse um acontecimento. Mas, ao ter escrito a primeira frase, ela percebeu que ainda era impossível: "Eu havia escrito: "Era uma vez um pássaro, meu Deus'" (A Descoberta do Mundo, Nova Fronteira, 1984).
Esse curioso relato desvenda um traço marcante de sua obra. O assombro diante do real, seja ele imenso ou ínfimo, é maior do que a capacidade artística de representá-lo. Sempre haverá algo que escapará às frases, que restará na sombra do que foi dito, que não se ouvirá e que, no entanto, será considerado vital pela narradora: "Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. [...] Capta essa outra coisa de que na verdade falo por que eu mesma não posso". (Água Viva, Arte-Nova, 1973.)
Para Clarice, as palavras podem solapar, encobrir, abafar as coisas ao invés de iluminá-las, o que a levou a afirmar "o meu melhor livro acontecerá quando eu de todo não escrever". Só o silêncio, no limite, poderia dizer tudo sem trair a realidade. Uma de suas frases mais citadas sugere ao leitor que escute o texto de forma oblíqua, deslocada, ou seja, atento ao que nele se oculta ou se disfarça nos buracos e nos intervalos das palavras: "Já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas" (A Legião Estrangeira, Editora do Autor, 1964).
Mas, como se vê, essa frase revela também que a escrita, ainda que traiçoeira ou limitada, é uma necessidade inevitável, imperiosa, como se fosse impossível escapar ao chamado da escrita. Escrever, para essa autora, era uma forma de entender o mundo, de clarear intuições ao transpô-las em palavras: "É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia" (A Descoberta do Mundo).
Mas, e os leitores? Como se relacionam com essa escrita tantas vezes obscura (que pode parecer hermética para não "mentir o sentimento", como ela mesma diz; para preservar "uma certa clareza peculiar ao mistério natural, não substituível por clareza outra nenhuma" (D.M.)? Para muitos, não é fácil ler Clarice. Algo na sua linguagem parece afastar os que não aceitam o convite para um mergulho, sem garantias, no desconhecido. Sua literatura não opta pelo senso comum e muito menos pelo bom senso. Somos levados a testemunhar, na maioria das vezes, o momento em que as personagens perdem o chão acomodado onde viviam um sono tranqüilo. No conto "Amor" (Laços de Família, Francisco Alves, 1960), por exemplo, Ana se acreditava feliz como mãe e esposa, até que a visão banal e corriqueira de um cego mascando chiclete no ponto do bonde faz desmoronar o mundo da ordem doméstica e das referências que até então a sustentavam. Nesse momento, o narrador é implacável: "O Mal estava feito" . A imagem dos ovos se quebrando na sacola de Ana — "gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede" — não deixa dúvidas de que a casca que protegia Ana ruiu e um mundo sem controle vem à tona. "Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse."
A experiência de G.H., em A Paixão Segundo G.H. (Editora do Autor, 1964), também é um exemplar do mesmo processo. Uma dona-de-casa resolve limpar o quarto da empregada e depara com uma barata saindo do fundo do armário. Transtornada, arrastada para um abismo de vida primária, G.H. tentará narrar o impacto não relatável: "O que vi arrebenta minha vida diária". Novamente a metáfora se coloca: no lugar de uma rotina arrumada e serena, eclode uma vida ruidosa e tumultuada, sem limites e sem domínio.
Talvez por isso a leitura dos textos de Clarice seja instigante e perigosa, pois abre feridas e derruba máscaras. Mas há os que se entregam de tal modo aos textos que os efeitos dessa leitura não se distanciam daqueles experimentados num processo de uma análise. Pelas vivências insólitas das personagens — (expressas numa linguagem inusitada, imprevista, surpreendente, que suspende as definições dicionarizadas das palavras para subvertê-las e propor novos sentidos), os leitores acabam experimentando, eles também, caminhos pouco usuais e podem se identificar com as jornadas epifânicas de pessoas comuns em meio ao mais prosaico cotidiano.
No conto "O Ovo e a Galinha" (A Legião Estrangeira), a cena doméstica de uma dona-de-casa mirando um ovo em cima da mesa da cozinha transforma-se no estopim de uma reflexão sem fronteiras — metafísica, psíquica, astronômica, lingüística. O conto nos retira de nossa vida banal para lançar-nos no mundo dos paradoxos, dos enigmas insolúveis e do que excede nossa vã compreensão. A própria narração parece ser arrastada por uma força além de si mesma, guiando-se apenas por uma associação livre de idéias.
Esse território aberto por tantos textos de Clarice nos é familiar e estranho. E é pelo estranhamento do conhecido (o que a psicanálise batizou de "unheimlich", o sinistro ou o estranho) que a ficção clariciana se aproxima do processo analítico. Através de sua obra podemos contatar regiões fugidias de nós mesmos, faces inapreendidas ou obscuras, paixões turvas das quais tantas vezes buscamos nos defender. Clarice Lispector tumultua aquilo que deveria permanecer oculto.
O primeiro parágrafo do conto "Os Obedientes" é bastante revelador dessa potência desestruturante de sua prosa: "Trata-se de uma situação simples, um fato a contar e esquecer. /Mas se alguém comete a imprudência de parar um instante a mais do que deveria, um pé afunda dentro e fica-se comprometido" (A Legião Estrangeira). O texto imprudente de Clarice nos força a parar. E essa parada é uma espécie de suspensão do tempo convencional, do espaço corriqueiro, do raciocínio habitual, dos sentimentos amortecidos. Afunda-se dentro do tecido da vida e uma sensação de estranheza anuncia uma mudança de posição: estamos deslocados do nosso lugar de sempre para mais bem percebê-lo. Perdemos, por alguns instantes — enquanto perdura o efeito analítico da ficção de Clarice —, um modo anestesiado, modelado e padronizado de sentir e interagir. Ganhamos, em troca, uma forma nova de sermos nós mesmos. O preço dessa travessia pode ser bem alto. A lucidez que se apodera de algumas personagens mostra-se intolerável dentro do contorno bem comportado de nosso dia-a-dia. "Pois sei que [diz Clarice] — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me de novo a consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém" (D.M.).
Difícil sair imune da literatura de Clarice Lispector. Mas difícil é explicar por quê, já que o crítico também corre o risco de ofuscar com palavras interpretativas o que o texto diz com simplicidade. O melhor é deixá-lo dizer. "O hábito tem-lhe amortecido as quedas. Mas, sentindo menos dor, perdeu a vantagem da dor como aviso e sintoma. Hoje em dia vive incomparavelmente mais sereno, porém em grande perigo de vida: pode estar a um passo de estar morrendo, a um passo de já ter morrido, e sem o benefício de seu próprio aviso prévio."
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Yudith Rosenbaum é psicóloga e professora de Literatura Brasileira da USP. É autora dos livros Metamorfoses do Mal: Uma Leitura de Clarice Lispector [Edusp/Fapesp, 1999] e Clarice Lispector (Publifolha, 2002].
Atualmente, toda a obra de Clarice Lispector é editada pela Rocco: Perto do Coração Selvagem, 202 págs., R$ 26,50; A Hora da Estrela, 87 págs., R$ 16; Um Sopro de Vida, 160 págs., R$ 22,30; A Descoberta do Mundo, 400 págs., R$ 40; Água Viva, 88 págs., 17,88; A Legião Estrangeira, 104 págs., R$ 17; Laços de Família, 135 págs., R$ 20; A Paixão Segundo G.H., 180 págs., R$ 25. (Preços da Livraria Cultura, SP.)