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Galileu

A febre do etanol

Publicado em 01 abril 2007

Parece que o mundo passou a ver o etanol como a solução para todos os males das mudanças climáticas. Afinal, ele é renovável e contribui menos para o efeito estufa. Segundo a Petrobrás, tanto a gasolina quanto o álcool liberam, em média, 1,8kg de CO2 para rodar 10km em um carro flex 1.0. "A diferença é que aquilo emitido pelo etanol e pela queima da cana é reabsorvido pelas plantações" diz Emilio La Rovere, da UFRJ. O Brasil produz atualmente 17,5 bilhões de litros/ano de etanol. O governo pretende dobrar esse número até 2013. Os carros que rodam com ambos os combustíveis, representam cerca de 730 dos automóveis novos.
Hoje o País exporta 3 bilhões de litros/ano. "Quando a produção dobrar, talvez sobrem pelo menos entre 4 e 6 bilhões para exportar" diz Frederico Durães, chefe da Embrapa Agroenergia. Se os EUA concretizarem o plano de reduzir o uso do petróleo em 2 em 10 anos, precisarão de 130 bilhões de litros de biocombustível. O excedente brasileiro pode ser ínfimo perto desse número, mas, ainda que produzam a maior parte desses 130 bi, os EUA continuarão dependendo de importações. E o etanol brasileiro é o mais barato e eficiente do mundo. Tão importante quando vender o produto é investir em pesquisa e exportar conhecimento. Ainda que mercados como o europeu prefiram fomentar outras fontes renováveis, como o hidrogênio, o Brasil tem muito espaço para levar sua expertise para nações em desenvolvimento. Jamaica e Nigéria já possuem usinas "made in Brazil".
Muitos pesquisadores, porém, temem o avanço da cana sobre a vegetação nativa ou cultivos alimentícios. Os defensores discordam. "Há 200 milhões de hectares de pastagem no Brasil. Se 10% fossem usados para plantar cana, já seriam três vezes mais do que a área atual" afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Além disso, se a tecnologia da hidrólise se consolidar, será possível dobrar a produção só com o que já existe.
Com a hidrólise, o bagaço queimado para gerar energia na usina é convertido em celulose, e depois em etanol.
Mas o buraco é mais embaixo. Segundo o engenheiro agrônomo Manoel Ferreira, a região de Ribeirão Preto produzia 250/o dos alimentos do País antes do Proálcool, programa do governo b de substituição de petróleo iniciado em 1975, durante o embargo dos países árabes produtores. "Hoje, a região importa comida, e a população sofre com preços altos" diz o engenheiro, presidente da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil. Outro problema é a liberação de partículas pela queima, que agrava problemas respiratórios. "Os atendimentos médicos crescem pelo menos 20% nessa época" diz José Carlos Manço, professor aposentado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP.
Segundo Ferreira, alguns produtores que adotaram a colheita mecanizada voltaram a queimar cana, já que a máquina tem rendimento dobrado no corte da planta queimada. "Deveríamos investir mais em transporte coletivo em energia solar eólica" afirma. O entusiasmo com o etanol se justifica econômica e tecnicamente para o Brasil, mas todos os riscos devem ser analisados para o País liderar o setor sustentavelmente.