Notícia

SciELO em Perspectiva

A fazenda mista colonial paulista entre a economia e a cultura

Publicado em 24 novembro 2020

Por José Jobson de Andrade Arruda

Este texto é uma espécie de manifesto em prol de uma renovada vertente da história agrária colonial. Centra-se no modo de vida constituído no período colonial no espaço da capitania vicentina (São Paulo) que tinha, por epicentro, a vida na fazenda, entendida como microcosmo socioeconômico e cultural.

O artigo “A essencialidade agropastoril da economia colonial: a fazenda mista paulista”, publicado no periódico História (São Paulo, vol. 39), consiste no deslocar consciente do mundo das trocas, das operações mercantis, em favor dos núcleos produtivos, caracterizados por sua extrema diversidade, que lhes facultavam o abastecimento e a produção de excedentes intercambiáveis em escala local e transoceânica.

A pesquisa foi realizada com base em numerosas investigações desenvolvidas a cinco décadas de vida acadêmica. Foi exatamente o profundo envolvimento com o universo da circulação mercantil, com os estudos sobre balança comercial entre Portugal e Brasil, que me vi envolvido com a produção para abastecimento interno, ou seja, a pesquisa do mercado externo colonial conduziu-me à pequena produção de resto essencial para que o sistema exportador mantivesse sua eficiência e continuidade.

O que define a fazenda mista é a diferenciação produtiva agropastoril. Diversificação que se manifesta em escalas variadas conforme a temporalidade e a espacialidade em que se insere, acabando por erigir um sistema econômico e social definido pela resistência e duração, pela incrível maleabilidade de ajustar-se às injunções do tempo, às induções emanadas das circunstâncias imediatas coloniais, locais ou regionais, bem como às pulsões ditadas pelos movimentos econômicos do Império português. Um modo de vida sui generis, que poderia transitar do autoconsumo à condição de células abastecedoras dos centros mais ativos, fossem eles complexos açucareiros ou mineradores, e regredir à quase autossuficiência. A fazenda mista, neste cenário, é uma criação do modo de vida instalado na capitania vicentina.

No fundo, a expectativa é de que esta experiência possa reorientar os estudos de história econômica, atualmente excessivamente centrados na circulação mercantil, nas redes comerciais, no protagonismo excessivo dos comerciantes e mercadores, direcionando-os ao mundo da produção e, consequentemente, a essencialidade da economia colonial como economia escravista, fosse da escravidão interna, dos nativos, ou externa, prodigalizada pelo tráfico africanos escravizados.

Referências

ARRUDA, J. J. A. Decadência ou crise do império luso-brasileiro: o novo padrão de colonização do século XVIII. Revista USP Cascais [online]. 2000, no. 46, pp. 66-78 [viewed 24 November 2020]. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i46p66-78. Available from: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/32880

ARRUDA, J.J. A. O sentido da Colônia. Revisitando a crise do antigo sistema colonial. Bauru: EDUSC/UNESP/Instituto Camões, 2001.

ARRUDA, J.J. A. São Paulo nos séculos XVI-XVII. São Paulo: POIESIS, 2011.

ARRUDA, J.J. A. A época dos vice-reis fluminenses: o novo padrão de colonização, diversificação e integração econômica. In: MAGALHÃES, A. M. et al. Os vice-reis no Rio de Janeiro: 250 anos. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2015.

ARRUDA, J. J. A. Por uma renovada história econômica. In: SAES, A.M. et al. Rumos da história econômica no Brasil. São Paulo: Alameda, 2017

ARRUDA, J. J. A. The Brazilian economy during the colonial period. Oxford Research Encyclopedia of Latin American History [online]. 2019 [viewed 24 November 2020]. Available from: https://oxfordre.com/latinamericanhistory/view/10.1093/acrefore/9780199366439.001.0001/acrefore-9780199366439-e-693

MARTINS, R. B. Crescendo em silêncio: a incrível economia escravista de Minas Gerais no Século XIX. Belo Horizonte: ICAM/ABPHE, 2018.

Para ler o artigo, acesse

ARRUDA, J. J. A. A essencialidade agropastoril da economia colonial: a fazenda mista paulista. História [online]. 2020, vol. 39, e2020022. ISSN: 1980-4369 [viewed 24 November 2020]. https://doi.org/10.1590/1980-4369e2020022. Available from: http://ref.scielo.org/4y62pj

Sobre o autor

José Jobson de Andrade Arruda é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e professor sênior do Programa de Pós-Graduação em História Econômica da Universidade de São Paulo. Tem vários livros e dezenas de artigos publicados e quase uma centena de orientações concluídas. Foi diretor de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do CNPq, vice-presidente da FAPESP, editor da Edusc e, atualmente, lidera, junto com Laura de Mello e Souza, o Grupo de Estudos Historiográficos Ibero-Americanos na Cátedra Jaime Cortesão. E-mail: arruda.a@uol.com.br (http://lattes.cnpq.br/2940905388475026)

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ARRUDA, J. J. A. A fazenda mista colonial paulista entre a economia e a cultura [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/11/24/a-fazenda-mista-colonial-paulista-entre-a-economia-e-a-cultura/

José Jobson de Andrade Arruda, Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil.