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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

A Fapitec-SE e a Ciência em Sergipe: 10 anos (I)

Publicado em 03 outubro 2009

Em 1620, Francis Bacon publica seu livro mais célebre: Novum organum. Nele, há uma notável ilustração, carregada de forte significado. Trata-se de um mar revolto em que navegam caravelas, ultrapassando as colunas de Hércules. O mar representa, desde os gregos antigos, a inconstância, o movimento, o risco sempre iminente, em contraposição ao chão, à terra firme; a caravela simboliza o saber que desbrava novos mundos e horizontes até então desconhecidos; as colunas de Hércules, o limite do mundo, ou seja, o ponto máximo que até então o homem mediterrâneo atingiu. Nessa imagem, as caravelas ultrapassam-nas. Todavia, isso tem um preço: a vulnerabilidade dos nautas aos riscos do desconhecido. Embalada pelos ventos, essa viagem do saber não oferece qualquer certeza, mas apenas expectativas quanto ao que possa acontecer e, por isso, está sujeita ao imponderável. Essa imagem é, pois, a representação da própria Ciência.

A Ciência nasce vinculada a três ideias fundamentais: 1) a do novo lugar do homem no mundo, pois ele passa a ter uma concepção inteiramente nova de si mesmo, não sendo por acaso que o antropocentrismo só surgiu graças ao humanismo; 2) a de que o homem pode transformar o mundo em que vive, deixando de ser expectador para ser ator ou, como diz Descartes, passou a ser "senhor da natureza", dominando-a e transformando-a; 3) finalmente, a idéia de que, ao modificá-la, ele pode inventar artefatos para seu bem-estar.

Em vista disso, a finalidade da Ciência é o entendimento do mundo e, por conseguinte, o aprimoramento das condições da vida humana. Porém, para o sucesso dessa empreitada, é preciso ordenar os procedimentos metódica e adequadamente. Por outro lado, a Ciência, além de permitir a invenção de objetos úteis à vida, instrumentaliza a si própria, capacitando-se para os avanços das pesquisas a que se aplica. Por essa razão, ela tem linguagens próprias, métodos e aparelhos adequados a cada tipo de estudo desenvolvido, além de comunidades dedicadas, que a fazem progredir no tempo e questionam seus sentidos e avanços.

Contudo, a Ciência não pode existir sem a sustentação de um aparato político e financeiro que a estimule e lhe dê suporte. Se nos seus primórdios ela era protegida por mecenas, homens que financiavam cientistas, artistas, pintores e letrados, desde o século XIX ela conta com o apoio de universidades e fundações. Essas, desde o início da Contemporaneidade, são as responsáveis pelos grandes investimentos em Ciência em todo o mundo. São elas que, em sintonia com o diagnóstico fornecido pelo Estado, sustentam os grandes laboratórios, apontam as áreas científicas mais carentes, fornecem bolsas a estudantes, professores e pesquisadores e escolhem as prioridades para o investimento do dinheiro público, no que se refere à Ciência e à tecnologia.

A maior parte dos investimentos em pesquisa, no Brasil, provém do setor público. Além dos Ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia, por meio, respectivamente, da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), as maiores fundações públicas de fomento à pesquisa no país, há também várias outras, ligadas aos estados da federação, que adotam como modelo a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), instituída em 1962.

Em Sergipe, em 1998, o então deputado Marcelo Déda apresentou um projeto de lei que resultou na Lei Estadual nº 4.197, de 29 de dezembro de 1999, para a criação da FAP-SE (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sergipe), tendo ela funcionado razoavelmente até 2003. Nesse ano, o então governador João Alves Filho extinguiu a Fundação, transformando-a em mero departamento do Instituto Tecnológico e de Pesquisa de Sergipe, o ITPS (antigo Instituto de Química). Entre 2003 e 2006, as funções da extinta FAP-SE foram objeto de completo descaso da parte do governo estadual, passando por esvaziamento de recursos, alterações estruturais sucessivas e atrasos de projetos, o que muito afetou seus servidores e provocou, nos pesquisadores, ceticismo total quanto aos rumos da Ciência em Sergipe. Projetos de forte impacto nos setores produtivos do Estado, como o "Casadinho" e o PRODOC, por exemplo, foram cancelados por não haver juridicamente quem administrasse os recursos. O estrago para a história da Ciência em Sergipe só não foi maior graças a alguns abnegados, que não mediram esforços na busca de alternativas que compensassem a insensibilidade do governo estadual de então, em relação a essa temática.

Renascida das cinzas como uma fênix, a FAP-SE transformou-se na Fapitec-SE (Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe), por iniciativa do atual governador, livrando-se, enfim, do cipoal político-administrativo do governo anterior. No curto período de sua nova existência, tem desenvolvido ações firmes e transparentes, que, de fato, tem ajudado sensivelmente no aperfeiçoamento da Ciência e da tecnologia em Sergipe. O fato é que, com dotação orçamentária limitada, pequeno número de funcionários, mas ativo e motivado, a Fapitec-SE vem tentando dar nova feição ao que antes parecia uma espécie de Frankenstein: de tão deformada não se reconhecia como instituição de fomento à pesquisa. O desafio para consolidá-la é, ainda, grandioso.

Entretanto, ao renascer, algumas sequelas ficaram, uma vez que a Fapiptec-SE permanece vinculada à Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico, da Ciência e Tecnologia e do Turismo, o que a priva de orçamento próprio e de autonomia administrativa. Se mudarem os ventos da política (como é de sua natureza), a Ciência e a tecnologia neste estado poderão voltar à fragilidade de outrora. Festejar seus 10 anos é, talvez, uma excelente oportunidade para fortalecê-la, solidificá-la e blindá-la contra ingerências políticas que lhe tirem ou queiram tirar-lhe sua missão precípua: "Fomentar a pesquisa e inovação, divulgando e transferindo o conhecimento em C&T, de forma a contribuir para o desenvolvimento sustentável do Estado".

A viagem da Ciência, assim como a marítima da imagem baconiana, é uma aventura: seu ponto de partida é o despir-se de preceitos e medos, o purificar-se de tudo aquilo que impeça o conhecimento, ainda que não se saiba ao certo aonde se vai chegar, tal como os nautas que não sabem onde vão ancorar as caravelas. Por essa razão, a Ciência contemporânea não trabalha com o conceito de verdade, mas com o de probabilidade. Se, ao longo de uma travessia, a Ciência enfrenta todos os tipos de obstáculo, talvez um dos mais difíceis seja o aspecto político de seu financiamento. Todos que contraem a dengue se querem curados dessa doença, por exemplo, mas nenhum deles, com certeza, calculam o tempo de pesquisas e os recursos financeiros já consumidos para preveni-la e combatê-la. Não é fácil convencer governos de que a Ciência é fruto de grandes investimentos por longos prazos e de forma contínua. Ademais, sempre há aqueles que, mesmo cientes desse fato, se recusam terminantemente a subsidiar o trabalho científico. Portanto, são permanentes e preocupantes os riscos de a nau do saber transformar-se em nau de loucos, aquela que fica à eterna deriva, sem ponto de partida ou de chegada.