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Jornal da Unicamp online

A exposição das chagas e a cura dos males sociais

Publicado em 01 novembro 2013

Por Carmo Gallo Netto

Ao final dos programas Quem tem medo de música clássica, que apresentava na TV Senado, o ex-senador Artur da Távola, falecido em 2008, dizia: “Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”. Certamente o mesmo se pode dizer da boa literatura e do cultivo dos clássicos de todas as épocas. Essas evocações emergem quando se conversa com Leandro Thomaz de Almeida sobre sua tese de doutorado, apresentada ao Departamento de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos de Linguagem (IEL) da Unicamp, orientada pela professora Márcia Azevedo de Abreu, que versa sobre literatura naturalista, moralidade e natureza. A abordagem é cara aos que se interessam pelo resgate da aventura intelectual do homem, que permite entender o passado e explicar o presente, contribuindo para o enriquecimento do intelecto.

Apoiado por bolsas da Fapesp e da Capes, ele realizou, durante quatro anos, um doutorado sanduíche, permanecendo um ano na Université Sorbonne Paris III, sob orientação do professor Alain Pagès. Nesses estudos, procurou resgatar os critérios de recepção crítica dos romances naturalistas publicados na França e no Brasil no final do século XIX. Almeida pretendia também compreender dois momentos da crítica sobre os romances naturalistas nesses países: a contemporânea a eles e a decorrente das visões do século XX, que não obedecem aos mesmos critérios. A propósito, o autor cita Lucien Febvre, em epígrafe inicial da publicação: “Cada época fabrica mentalmente seu universo (...) De maneira semelhante, cada época fabrica mentalmente sua representação do passado histórico.”

Com efeito, o naturalismo precisa ser visto dentro do contexto de uma época, na qual, se visualizava tanto o positivismo de Augusto Comte e a seleção natural de Charles Darwin, quanto ganhava espaço a experimentação no estudo dos fenômenos naturais. Consolidava-se o cientificismo, baseado na observação e na experimentação, frente a explicações filosóficas ou religiosas para os fenômenos da natureza. Razões científicas deviam explicar os fenômenos sociais. Na literatura, o naturalismo defendia um romance que se ativesse a descrever o comportamento dos personagens colocados em determinadas situações. A esta proposta está subjacente o experimentalismo. Para Émile Zola, o romance naturalista mostra sintonia com os métodos de experimentação científica ao descrever o que se observa através do comportamento dos personagens colocados em determinado meio.

Ele opera uma distinção em relação ao cenário predominante no romantismo, no qual a preocupação moral impunha aos romances o ideal de castigar o vício e premiar a virtude, pois se acreditava que o romance influenciava o leitor. Ele podia fomentar a virtude ou estimular o vício, o que determinava, em grande medida, a avaliação de sua qualidade. Essa preocupação moral também permeava as críticas ao naturalismo no século XIX, de certa forma, compreensível em uma época em que se lia muito e os romances de sucesso dominavam os encontros sociais, a exemplo das novelas hoje.

Visconde de Taunay, literato brasileiro da época, baseado nessa moralidade, critica veementemente Émile Zola, considerando que seus romances muito bem escritos e elaborados utilizam uma linguagem sedutora para deseducar o leitor. Seria o caso de Nana, uma das obras mais famosas do escritor francês, que relata a vida de uma prostituta de luxo. Na mesma época, críticos como Urbano Duarte concordam com a importância da questão moral, embora se coloquem contra os romances de meados do século XIX em cujos enredos o vício era castigado e a virtude premiada de maneira considerada artificial.

Diferenças

Em suas elaborações teóricas, Zola defende que à moralidade se chega com a exposição da verdade e não maquiando a realidade por meio de enredos distorcidos. Apropriam-se dessas ideias escritores brasileiros como Aluísio Azevedo e Júlio Ribeiro, que, como Zola, também se viram às voltas com acusações de imoralidade. A estratégia de defesa era a mesma: não somos imorais, moralizamos pela exposição da verdade. Revelar a verdade como ela é, mostrar a sociedade com todos os seus vícios e defeitos seria o primeiro passo para sua cura. Daí a exploração nos romances naturalistas das cenas de sexo, da vida nas classes mais baixas, da exposição da homossexualidade na Marinha, como em Bom-crioulo, de Adolfo Caminha.

Para Leandro, a questão da moralidade constitui a grande diferença entre as críticas dos séculos XIX e XX. Neste último período, a questão moralizante não está posta e não se pergunta se determinada literatura contribui para a moral ou para a perversão de costumes. As críticas dessas duas épocas partem de critérios diferentes, inseridos em e decorrentes de realidades diversas. No século XX, as preocupações são principalmente de ordem formal e procuram relacionar o romance com a sociedade do seu tempo.

Em relação à questão formal, o naturalismo é acusado pelos críticos mais moralistas de que o narrador se exime de fazer um julgamento de valores das ações que descreve, reprovando-as ou elogiando-as. Os naturalistas defendem-se afirmando que o narrador que se exime de emitir juízo sobre seus personagens e sobre as ações narradas está se limitando apenas a expor o que observa. Não existe, portanto, somente a preocupação com a construção formal mas, também, com os resultados que ela pode gerar. Segundo a tese “os autores do século XIX não podem ser analisados apenas em relação às suas características formais sem compromissos externos em relação a si mesmos”.

Para o pesquisador, o resgate da questão moral no XIX é muito importante até para compreender a própria feição dos romances. Considera anacrônica a acusação, própria de algumas posturas críticas do XX, de que o naturalismo, por defender uma exposição objetiva da “realidade”, apresente uma espécie de “ideologia”, que deveria ser substituída por romances capazes de apresentar algum tipo de gesto autorreflexivo sobre o próprio fazer romanesco.

Como acusar o romance naturalista, que se pretende objetivo, de ideológico, se era a impressão de objetividade que se pretendia alcançar com o romance nesses finais de século XIX? Hoje se sabe que ela não é atingível, porque toda a exposição da realidade constitui um recorte, uma seleção, uma escolha. Almejava-se, contudo, o efeito de verossimilhança. O próprio Zola reconhece isso claramente ao dizer que o romance é uma porção da natureza vista através de um temperamento.

Embates

Ao recuperar os debates na França e no Brasil à época do surgimento do naturalismo, o pesquisador se dá conta da importância de resgatar o conceito de natureza para fundamentar as críticas do século XIX. Trata-se de uma questão colocada desde há muitos séculos, mas que recebeu desdobramentos decisivos no século XVIII: qual o papel da arte? A resposta, representar a natureza, suscitava outra pergunta: qual natureza? Duas correntes são perceptíveis. Uma afirma que toda natureza pode servir de tema à arte. A prevalecente, contudo, defende a ideia de que a arte deve se ocupar apenas da bela natureza. Mas afinal, o que é a bela natureza? A bela natureza é aquela já amainada, escoimada, dos contornos mais repugnantes. É a natureza selecionada. A natureza digna de comparecer na arte é aquela que passa pelo crivo do artista.

Desta ideia, que ainda perdura no século XIX, surge o embate entre naturalistas e seus críticos. Os naturalistas defendem que o papel que cabe ao romance é o de descrever toda a natureza, o que seus críticos rebatem dizendo que a arte não pode ser rebaixada, mas reservar-se à bela natureza, aquela desvestida dos seus aspectos repugnantes. O autor então recupera as críticas que se faz ao naturalismo com base no uso que se deve fazer da arte. Mostra e mobiliza elementos teóricos e práticos para apresentar, ao final do trabalho, uma proposta de leitura de três romances brasileiros do final do século XIX: A carne, de Júlio Ribeiro; Bom-crioulo, de Adolfo Caminha; e Livro de uma sogra, de Aluísio de Azevedo. São analisadas então as razões das ambientações dos romances, a verossimilhança dos personagens, a coerência dos seus comportamentos em relação aos ambientes em que são situados e as discussões suscitadas pela crítica.

Na França, berço do naturalismo, o pesquisador procurou compreender como o movimento foi recebido pela crítica da época e as bases teóricas defendidas por Zola, seu expoente maior, que lhe permitiram estabelecer relações com a apropriação que lhe fizeram escritores brasileiros. Ele parte do pressuposto teórico de que é importante conhecer os debates postos nos contextos da época. Ao correlacionar o naturalismo entre os dois países, ele conclui que não é adequado falar meramente em termos de influência e influenciado, matriz e cópia: “Ocorreu uma apropriação. Os escritores brasileiros se apropriam, mas não são copistas do que fazia Zola. Incorporam seus parâmetros e os utilizam segundo suas concepções. Foi possível observar também uma simultaneidade de ideias entre a crítica brasileira e francesa”.

Contexto

Sobre a abordagem adotada, o autor destaca a importância de analisar o naturalismo à luz da moralidade, não levada em conta pela crítica realizada no século XX. E mais, que o naturalismo não é movimento isolado na história da literatura. “Procurei mostrar que o naturalismo se apropria e transforma discussões artísticas fundamentais, que remetem não apenas ao século XIX, mas também ao XVIII e, consideradas as devidas diferenças, até a Aristóteles”, diz ele.

Para Leandro, todos esses elementos enriquecem a compreensão do naturalismo, que fica prejudicada ao considerá-lo, como comumente se faz, apenas à luz da influência do temperamento e do meio na construção de enredos e personagens. Esse reducionismo diz pouco sobre o movimento que é muito mais vasto.

A concepção do trabalho se completa com a afirmação de que “a literatura enquanto produto cultural não é indiferente às construções próprias do momento de sua produção, exigindo a compreensão de suas injunções históricas”.

Publicação

Tese: “Literatura naturalista, moralidade e natureza”

Autor: Leandro Thomaz de Almeida

Orientadora: Márcia Azevedo de Abreu

Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Financiamento: Capes e Fapesp