Notícia

Gazeta Mercantil

A era de ouro das descobertas

Publicado em 09 janeiro 1996

Apesar do desenvolvimento tecnológico, muitas fronteiras ainda esperam para ser cruzadas Os satélites artificiais podem ler as placas dos carros. Podem fotografar os cristais de rocha no topo das montanhas. Podem contemplar os vales enormes, maiores do que o Grand Canyon, do fundo dos oceanos. Madeireiras, mineradoras, construtoras de estradas estão acabando com as florestas tropicais e destruindo a vida dos últimos "nobres selvagens" do mundo. O gelo, a montanha, b mar e o deserto já não resistem mais às artimanhas do homem moderno e, suas máquinas. O mundo se atrofiou nos últimos dois séculos. Foi apenas, em 1806 que dois exploradores americanos, Meriwether Lewis e seu amigo William Clark, tornaram-se os primeiros (você pode apostar que nenhum personagem pré-colombiano teria sido tão louco) a percorrer o continente norte-americano. Há cem anos, uma grande, área da África ainda era desconhecida dos estrangeiros. Foi somente em 1909 e 1912 que o Homo supostamente sapiens conseguiu subjugar a natureza para se estabelecer nos pólos Sul e Norte. Já na segunda metade deste século, grandes áreas do mundo, e mesmo pessoas, eram desconhecidas do homem industrial curioso. Depois da Segunda Guerra Mundial, povos desconhecidos - um deles com 60 mil pessoas vivendo nas montanhas e vales de Papua Nova Guiné - foram "contatados" por estrangeiros pela primeira vez. Grande parte da terra era uma incógnita. Nas últimas décadas, locais e pessoas de áreas remotas foram visitados, mapeados e freqüentemente profanados. Ao mesmo tempo que tribos vulneráveis desaparecem completamente, os "mochileiros" podem pegar uma "carona" (não tão facilmente, é verdade) no Saara. O Monte Everest, o pico mais alto do mundo, que só foi atingido pela primeira vez em 1953 foi escalado pelo menos 750 vezes por 33 pessoas, há dois anos, em um dia. Os turistas vêm chegando em número cada vez maior no pólo Norte. Excêntricos cruzam o Atlântico, em "garrafas de gim anfíbias cada vez menores", como diz Sir Ranulph Fiennes, um explorador sério e que quebrou vários recordes. Mas centenas, se não milhares, de picos e montanhas devem ainda ser escalados. Numerosos desafios na região ártica e antártica ainda devem ser vencidos. As florestas tropicais do Amazonas, partes da África, Nova Guiné (essa imensa ilha ao norte da Austrália formada por Irian Jaya, parte da Indonésia, a oeste, e Papua Nova Guiné a leste), todas ainda estão cheias de mistérios; uma grande quantidade de flora e fauna e mesmo de grupos de pessoas ainda é praticamente desconhecida. Mais de 70% da superfície terrestre é água: E os oceanos, em certa medida, são os locais mais ricos em biodiversidade, porém os menos conhecidos. Apenas uma vez uma pessoa (ou duas pessoas juntas, para ser mais exato) chegaram às áreas mais profundas do oceano. Tanto na terra como no mar, 97% das espécies do mundo precisam ainda - segundo alguns cálculos recentes - ser descobertas. Exatamente: 97%. Exploração significa muitas coisas. Uma delas é encontrar lugares em que nunca um pé humano pisou. Outra é satisfazer a ânsia do homem industrial na busca de novos povos isolados, cujas línguas ou meio de vida pouco foram registrados ou analisados, muito menos compreendidos. Uma terceira coisa que normalmente se pensa pertencer à exploração é a proeza da força de vontade e da habilidade do homem predominando sobre os elementos naturais, medidas não só "pelas primeiras visitas," a picos montanhosos ou leitos dos oceanos mas pelos métodos novos e cada vez mais precisos para se chegar a esses lugares. Um quarto tipo de exploração é científico. A ciência da terra, mais do que a antropologia ou os desafios pessoais, talvez seja a força motriz exploratória maior com que a mente e o corpo humanos, deparam no tocante aos elementos naturais. Explorar - definido no dicionário Oxford como "examinar" (um país, etc.) atravessando-o, tornou-se mais do que uma "micro" empresa. Atualmente, apenas "atravessar" não é suficiente. A exploração, para um número cada vez maior de pessoas, significa o exame de todos os ecossistemas. Nesse aspecto, a maior, parte do mundo ainda está analisando as possibilidades da exploração. Os velhos parâmetros ainda fornecem aos sonhadores, aos filantrópicos, aos ambiciosos, aos religiosos, curiosos, intrépidos e aos simplesmente loucos, milhares de desa-, fios ainda não vencidos. Esqueça, por um momento, os talvez 40 milhões de espécies de flora e fauna que devem ainda ser classificados. Pense nos locais e mesmo nas pessoas que nunca foram "descobertos", os feitos humanos que devem ser ainda realizados em novos percursos. A maior parte dos pontos mais extremos do mundo e os locais mais remotos foram visitados, mas não todos. Desertos foram quase inteiramente percorridos - contudo, é surpreendente quantas "primeiras vezes", mesmo de carro, ainda não estão registradas nos livros de recordes. A maior parte das florestas do mundo foi, em termos aproximados, visitada e mapeada. Mas muitas não foram examinadas em profundidade. No nível mais simples, inúmeras trilhas na selva provavelmente nunca foram pisadas pelo homem industrial antes. Na África, lugares como a floresta Ndoki, na fronteira do Congo com Camarões, ou a densa faixa de selva entre o rio Lualaba (como o rio Zaire, outrora chamado Congo, é mais conhecido na sua parte mais alta) e um de seus afluentes, o Lomami, ainda estão praticamente inexplorados pelos estrangeiros. E desafios relativos à sobrevivência e às viagens, especialmente se você foge do maquinário, existem mesmo nas áreas já bastante exploradas da África. Foi apenas em 1986, por exemplo, que alguém (uma dupla na realidade) foi do oeste para leste de camelo através do continente, dividindo ao meio o Saara. "As possibilidades para explorar e descobrir são infinitas", diz John Hemming, diretor da Royal Geographical Society. "Novas espécies estão surgindo mais rápido do que os homens podem extinguir as velhas". Exploradores, ele acredita, estão entrando em "uma nova era dourada de descoberta". Apesar de ter vivido situações de perigo (um amigo próximo foi morto por índios da Amazônia) durante décadas de exploração, Hemming enfatiza o lado científico e filantrópico e tem lutado pela defesa dos direitos, assim como a sobrevivência, de populações indígenas ameaçadas pelo homem moderno. A ciência pode predominar hoje na exploração, mas romance, poesia e heroísmos ainda existem. Até mesmo pesquisadores e classificadores de insetos podem, algumas vezes, admitir que a exploração também diz respeito a voltar-se para a alma e questionar sua própria existência. Alpinistas, em particular, gostam de competir, tanto com as rochas que escalam e sobre as quais muitas vezes morrem como com seus companheiros. "O alpinismo não pode ser seguro, submisso e chato... o homem nunca deveria se impor à montanha", disse um deles. Wilfred Thesiger, 85 anos, o último membro da velha escola inglesa de exploradores, admite até competir com os indígenas com quem viveu nos desertos. Entre os Rashid, no sudeste da Arábia, candidamente diz: "eu tive que enfrentar os desafios do deserto em igualdade de condições com eles. Eu não, podia me igualar fisicamente e o verdadeiro desafio foi acompanhá-los mental e moralmente. Mas eles foram as únicas pessoas com quem nunca pude competir no nível moral - em honestidade, generosidade, lealdade e coragem. Eles sempre se acharam superiores a todos os demais - e eram".