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Futuro da Saúde

A epidemia de obesidade continua a avançar e deve ser combatida

Publicado em 22 setembro 2020

No ano de 2020, a população brasileira e os gestores públicos só se preocupam com uma única doença: a Covid-19. Assim como a mídia e as redes sociais têm dedicado seus conteúdos a uma única pandemia, a do novo coronavírus. No entanto, já faz algum tempo que o sinal vermelho acendeu para uma outra epidemia, que avança em silêncio, mas que é visível e gera graves impactos na saúde física e emocional de quem dela sofre. É a doença crônica e multifuncional conhecida como obesidade.

Para muitos, tratar a obesidade é somente uma questão de equacionar a quantidade do que se come com a quantidade de atividade física que se pratica. Mas isso já é, há um bom tempo, uma definição que caiu por terra. A ciência já provou que a obesidade é ocasionada por fatores genéticos, metabólicos, sociais, psicológicos e ambientais, que não pode ser combatida somente reduzindo a ingestão de alimentos e aumentando a prática de atividade física.

Por ser uma doença crônica, a obesidade não tem cura, mas pode ser controlada, o que torna ainda mais urgente que o Brasil tome atitudes efetivas para prevenir o seu desenvolvimento desde os primeiros anos de vida da criança e, também, atue fortemente para tratar quem já a desenvolveu.

Segundo o Ministério da saúde, 55,7% da população adulta brasileira está acima do peso e 19,8% já está obesa. Na comparação entre 2006 e 2019, o Brasil registrou 30,8% de aumento de obesos, sendo que a faixa etária mais sensível está entre 18 a 24 anos. Ainda, o Ministério da Saúde e a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) indicam que 12,9% das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos de idade e 7% dos adolescentes na faixa etária de 12 a 17 anos estão obesos. Esse é um cenário gravíssimo e que não há razões admissíveis para que o País retarde as ações necessárias para interromper uma curva que não para de crescer. Sobrepeso e obesidade constituem o sexto fator de risco mais preocupante das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), pois estão associados a várias outras comorbidades.

Das seis principais causas de morte no Brasil por doenças cardiovasculares, quatro estão diretamente ligadas à obesidade: acidente vascular cerebral (AVC), infarto do miocárdio, diabetes e hipertensão. E não posso deixar de ressaltar, também, que a obesidade é fator de risco comprovado para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, como por exemplo o de intestino e próstata, nos homens, e de mama, ovário e endométrio, nas mulheres. Segundo uma notícia divulgada em 2018 pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), estima-se que pelo menos 15 mil casos de câncer por ano no Brasil poderiam ter sido evitados com a redução do excesso de peso e da obesidade. A informação foi tirada de um estudo epidemiológico feito no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em colaboração com a universidade Harvard (Estados Unidos), que indicou que esse número deve crescer até 2025, pois estima-se que mais de 29 mil novos casos de câncer atribuíveis à obesidade e sobrepeso devam ser diagnosticados.

Impactos emocionais e sociais

Se os impactos à saúde física não são suficientes para que uma força tarefa seja criada no Brasil para combater essa doença, acrescento os graves efeitos emocionais e sociais causados pela obesidade. Por exemplo, as crianças com sobrepeso ou obesas têm quatro vezes mais chance de apresentar problemas de aprendizado em relação àquelas com peso normal. Sem mencionar o fato de que são mais propensas a faltar na escola, muitas vezes por já terem desenvolvido diabetes ou asma. As crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesas são, invariavelmente, excluídas de brincadeiras, jogos esportivos ou atividades sociais e tornam-se alvos fáceis para atitudes discriminatórias, provocações e bulling. Esse conjunto de ações impactam o desenvolvimento da autoestima e geram baixa autoconfiança, o que as desestimulam a reagir e, muitas vezes, aumentam o isolamento e o consumo de alimentos. O conhecido círculo vicioso.

Mas não são somente os pequenos que se tornam indivíduos marginalizados. Adultos sofrem tanto ou mais. Não são poucos os relatos de assédio moral em empresas ou mesmo em comunidades direcionados àqueles e àquelas que não se encaixam ao “padrão estético ideal”.

O próprio Ministério da Saúde divulgou que “assumiu o compromisso de enfrentar a obesidade e trabalha com estratégias que incluem a continuidade do Plano de Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (2011-2022) que tem como meta reduzir a prevalência de obesidade em crianças e adolescentes e deter o crescimento da obesidade em adultos”.

O Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL), organização da sociedade civil que fundei e presido desde 2008, é a única no Brasil e, até dado em contrário, do mundo, que trabalha as duas principais causas de mortes: as doenças cardiovasculares e o câncer. Tendo essa pauta, a obesidade não poderia deixar de ser tema dos mais relevantes de nossa agenda. Por isso, seguimos incansáveis em divulgar dados, informações e a criar ações que alertem não só a população, mas as autoridades governamentais e os líderes empresariais e sociais de que temos uma bomba relógio acionada e prestes a explodir, se não nos unirmos para combater o crescimento da obesidade entre os brasileiros.

Com relação aos adultos com sobrepeso e obesidade, temos de atuar para que mudem comportamento e chamá-los à consciência para que tomem imediatamente uma atitude que interrompa o aumento de peso e o sedentarismo. E, também, incentivá-los a investigarem quais são as causas que os levaram a desenvolver a obesidade e entendam a importância da adesão ao tratamento, para enfrentar uma doença crônica gravíssima, que leva à morte, mas que pode ser controlada.

Com relação às crianças e adolescentes, temos de atuar imediatamente na prevenção e na promoção da saúde, pois essa será sempre a melhor estratégia e opção para combater doenças que podem ser evitadas. No que depender do Instituto LAL, a bandeirada já foi dada e logo o país conhecerá o que estamos preparando para virar o jogo e tornar o Brasil um exemplo para o mundo. Somente com vontade política e comprometimento da população será possível inverter a curva do crescimento e reduzir as mortes e sequelas causadas pela obesidade.

Com a Covid-19 tivemos um belo exemplo de que nenhum desses dois atores assumiram suas responsabilidades. Mas eu não me canso e não vou desistir de tornar a nossa nação um exemplo para o mundo no combate à obesidade.