Notícia

Gazeta Mercantil

A Embrapa debruça-se sobre o mercado

Publicado em 06 maio 1997

Por Nivaldo T. Manzano - de Brasília
Maior complexo mundial de pesquisa de tecnologia agropecuária tropical, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) redireciona sua filosofia de trabalho, promovendo uma profunda reorganização interna, com o objetivo de atender com maior velocidade de resposta às demandas da produção agropecuária. Com a reforma administrativa do Estado, caem os últimos bastiões do modelo institucional que deu origem nos anos 60 e 70 às grandes estruturas piramidais, com a cabeça em Brasília e os tentáculos espalhados pelo País. Siglas que as identificavam - Cibrazem, Cobal, Conab, Codevasf e outras - antes carregadas de prestígio político pelo volume de dinheiro que permitiam movimentar e pela extensa folha de pagamentos, recolhem-se envergonhadas para os arquivos da história da administração pública. Com elas vai também a estatal Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o maior centro mundial de tecnologia agropecuária tropical. A diferença das primeiras, a Embrapa tirou seu prestígio dos resultados apresentados, da austeridade com que geriu o dinheiro público, da modéstia de suas instalações e da sobriedade espartana de seus salários - R$ 3 mil para um Ph.D. com formação no exterior- segundo atesta a análise de suas contas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Isso é certamente motivo de orgulho para seus administradores. Mas, sob a ótica da reforma proposta pelo ministro Bresser Pereira, não é o que importa agora. Em que pesem tais créditos, a Embrapa, com seus 37 centros de pesquisa distribuídos pelos estados, mais dois de serviços e seus 9.122 funcionários, entre os quais 2.094 pesquisadores, será extinta. Como empresa, nunca apresentou lucros em seus balanços anuais. Os R$ 494,84 milhões que irá consumir neste ano vão deixar, como sempre seus orçamentos deixaram, um rombo de igual tamanho nas contas públicas. Continuidade de trabalhos Felizmente para a pesquisa agropecuária e para o agribusiness brasileiro, uma outra maneira de fazer as contas - a da aferição dos resultados tecnológicos gerados para o País - é que vai redimir a Embrapa e assegurar, nos propósitos do governo Fernando Henrique, a continuidade de seus trabalhos sob um novo estatuto jurídico, ainda por definir, de instituição pública e não mais estatal. Ao mesmo tempo em que passa por uma mudança institucional, a empresa vê-se atropelada pela necessidade de promover uma profunda reorganização interna, de modo a orientar-se para o mercado - um desafio que enfrentam praticamente todas as instituições públicas de pesquisa agropecuária do mundo. "Entre os milhares de tecnologias que produziu nos seus 24 anos de existência, apenas uma - a de obtenção do nitrogênio a partir de uma fonte biológica, a custo zero - garante aos produtores rurais uma economia de R$ 1,5 bilhão por ano, e basta isso para se ter a dimensão do que significam os investimentos do governo na Embrapa", afirma o presidente da empresa, Alberto Duque Portugal. Foi essa empreitada teimosa, vista no início dos anos 70 com ceticismo por pesquisadores americanos, que deu ao Brasil o privilégio de ser o primeiro país no mundo a praticar agricultura moderna em larga escala sem depender totalmente do petróleo. O nitrogênio, o N da fórmula NPK, usualmente extraído do petróleo, é um dos itens que mais pesam na composição de custos da produção. Graças a inovações, como a obtenção do nitrogênio do ar a partir da simbiose das bactérias do gênero Rhisobium com a raiz das plantas leguminosas, a agricultura brasileira apresentou nos últimos 25 anos o mais extraordinário desempenho de sua história, atingindo taxas de crescimento superiores à da maior parte dos demais países, modernizou-se e ganhou competitividade, a ponto de colocar-se no comércio internacional em terceiro lugar, depois dos Estados Unidos e da França. Atualmente, entre os dez produtos de maior presença no comércio mundial, os de procedência brasileira detêm posição de destaque rio ranking de cada um ocupando do primeiro ao quarto lugar. É à luz de uma safra de resultados tão abundantes - para os quais a contribuição da pesquisa foi decisivo -, que deve ser avaliada a decisão estratégica do governo de criar e apoiar uma instituição de pesquisa agropecuária nacional, de excelência mundialmente reconhecida - resultados que hão de pesar também nas decisões próximas sobre o futuro da instituição. Eliseu Alves, ex-presidente da Embrapa e que está na empresa desde sua criação em 1973, lembra que, a dar ouvidos nos anos 50 às recomendações da Usaid, ela não teria nascido. "Na época, os americanos achavam que a agricultura brasileira poderia modernizar-se importando pacotes tecnológicos", diz. Após sua criação, a colaboração de instituições americanas de pesquisa com a Embrapa tem sido intensa. O agribusiness é o maior negócio do mundo. Seu PIB mundial é de US$ 8 trilhões, aproximadamente o tamanho do PIB dos EUA, segundo estima o professor Ray Goldberg, da Universidade de Harvard. No Brasil, atinge US$ 250 bilhões, constituindo-se no maior segmento gerador de renda e de emprego. No elo tecnológico desse negócio, estão grandes instituições públicas e empresas privadas, cujo produto tecnológico é resultado da reunião de componentes oriundos de tecnologias heterogêneas - mecânicas, eletrônicas, químicas, biológicas, etc. A construção da série de mísseis Polaris envolveu componentes de 11 mil fornecedores. Uma refinaria de petróleo utiliza 100 mil componentes. O agribusiness ainda não fez seu inventário, mas supõe-se, pela sua participação no PIB, que seja muito maior. O ex-presidente da Agroceres, Ney Bittencourt de Araújo, costumava desafiar o ceticismo do interlocutor sugerindo-lhe que começasse por averiguar quanta complexidade tecnológica esconde-se atrás de um ovo de galinha na gôndola do supermercado. Ocorre que o ambiente da pesquisa, ou seja, a maneira como em geral se estruturam e se orientam os projetos numa instituição de pesquisa, não tem acompanhado as exigências trazidas pela complexidade, dificultando o trabalho multidisciplinar, justamente numa área em que as disciplinas científicas se cruzam diante dos menores problemas. Os gabinetes dos pesquisadores ainda são estanques, existindo pouca comunicação entre eles e com o mercado. Um exemplo - caricatural, mas elucidativo - ajuda a compreender a importância capital do tema. Suponha-se o problema de ter de integrar dois componentes; apenas, e não dezenas de milhares, como ocorre na realidade. Primeiro componente: bicos de aspersão em equipamento de irrigação. Segundo componente: monitoramento das condições físicas do solo com vistas a manter sua fertilidade natural. Jogo de encaixes No departamento de pesquisa da indústria de equipamentos de irrigação, um engenheiro desenha um novo bico com o objetivo de assegurar uniformidade na distribuição da água sobre a lavoura. Ele tomará decisão em relação ao material empregado, ao diâmetro do furo, ao tamanho da gota de água, entre outras coisas. Ao mesmo tempo, numa instituição pública de pesquisa, um pesquisador estuda o efeito do impacto da gota de água sobre o solo, para verificar até que ponto ela destrói os grumos da terra, provocando erosão e permitindo que a água da chuva leve embora sua camada superficial, a mais fértil. Integrar os dois projetos seria como jogar lego: tendo-se um objetivo em vista, encaixam-se as partes, segundo uma regra de encaixe que pode variar de acordo com a mudança de objetivo. A regra de encaixe no caso é retirada do ambiente da pesquisa. O objetivo, no exemplo, séria desenvolver um novo bico de aspersão que assegure a uniformidade na distribuição da água e o menor dano possível à camada superficial do solo, de modo a obter a melhor produtividade e garantir a competitividade em condições sustentáveis a longo prazo. Mas, no exemplo, os projetos do engenheiro e do pesquisador "não se comunicam". Por isso, também o horizonte temporal de cada um é distinto. O engenheiro está projetando um equipamento que dê resultados imediatos para o agricultor. O pesquisador está pensando na manutenção da fertilidade do solo a longo prazo. Trabalhando dessa forma, o novo equipamento de irrigação poderá ser o melhor, aos olhos do engenheiro, e o pior, segundo os resultados de pesquisa do pesquisador. Uma grave constatação aqui é que, por não estarem integrados, não estão orientados para o mercado: desarticulações tecnológicas no sistema solo-água-planta na agricultura da bacia do rio Mississipi, nos Estados Unidos, são responsáveis pela perda anual de 1 bilhão de toneladas de solo fértil, que são carregadas para o mar, no golfo do México. Em conseqüência da perda da fertilidade natural do solo, os custos de produção irão subir e essa agricultura corre o risco de deixar de ser competitiva no futuro, caso não se tomem providências, como já advertiu o Departamento de Agricultura dos EUA. Como se vê, as implicações da questão da integração dos projetos de pesquisa não são apenas as de ordem metodológica. E é disso que se trata quando a Embrapa se dispõe a aprofundar sua reforma. "É na forma como são conduzidos os projetos de pesquisa que se tem a medida da eficiência no uso dos recursos", diz Fuad Gattaz Sobrinho, "research professor" do Newjersey Institute of Technology, ex-diretor da Embrapa e o primeiro brasileiro a conquistar no exterior a láurea de doutor em Ciências da Computação, pela empresa. "Se os programas de trabalho de unia instituição pública de pesquisa não estiverem orientados na mesma direção - o mercado -, ent3o estará havendo dispersão de recursos". Uma questão relevante para a Embrapa, instituição pública de pesquisa que mais recursos consome do Estado. O processo de integração da pesquisa na instituição começou na metade dos anos 80. "Até recentemente, os pesquisadores de instituições públicas, presos à visão clássica e analítica da ciência, faziam de seus projetos um aglomerado de partes desconexas", continua Gattaz Sobrinho. Agindo dessa forma, o homem não teria chegado à Lua. Estratégia de ataque Avançar nessa área é promover uma revolução na mentalidade acadêmica, porque o cientista é conservador por profissão", diz Gattaz Sobrinho, "tanto mais que ele sempre esteve orientado para a busca de resultados isolados, em desarmonia com o conjunto, estimulado por critérios tradicionais de valorização profissional, que enfatizam os feitos individuais, mais que o trabalho em equipe". A fragmentação da perspectiva na pesquisa tecnológica, ou seja, a prevalência da visão analítica, segundo o pesquisador, dá a medida de seu descompromisso com o mercado. Em outras palavras, se antes o pesquisador clássico impedia a introdução de um cão vivo em seu laboratório com receio de que o movimento de sua cauda perturbasse sua hipótese de trabalho, hoje o que se espera do pesquisador orientado para o mercado é que não tire o olho do rabo do cachorro, para poder orientar sua hipótese de trabalho de acordo com o movimento da cauda. As dificuldades de reorientar uma instituição pública nessa direção vão além. "A maneira fragmentária como se conduziu a pesquisa na Embrapa reflete-se, por exemplo, na distribuição espacial de suas unidades, na localização e vocação de muitos de seus centros." A hipótese de terem de ser reestruturados e eventualmente transferidos alguns para outras instituições ou para a iniciativa privada, pode chocar-se com interesses corporativos e políticos, que gravitam em torno deles. O ativo imobilizado da Embrapa, em imóveis, laboratórios, glebas, máquinas, embarcações, etc, de acordo com o balanço patrimonial de 1996, é de R$378,38 milhões. Assim, ao estremecimento institucional da empresa, provocado pela reforma administrativa, junta-se, circunstancialmente, o problema da necessidade de rever em profundidade sua estratégia de ataque a problemas. E, segundo Gattaz Sobrinho, que foi um dos pioneiros na Embrapa a se bater pela sua orientação para o mercado, "o acerto na correção de rumos deverá ser medido pela capacidade de uma instituição pública de pesquisa de ver espelhada nas demandas tecnológicas do mercado sua própria agenda de trabalho, o que pressupõe integração dos projetos de pesquisa, flexibilidade administrativa e abertura para alianças com outras instituições públicas e com a iniciativa privada", conclui.