Notícia

Panorama Farmacêutico

A difícil missão da inovação no Brasil

Publicado em 29 agosto 2018

“Tecnologia é qualquer coisa que não estava por aí quando você nasceu”. Alan Kay – cientista da computação.

As dificuldades e entraves enfrentados pelos inovadores no Brasil foi tema de uma publicação lançada em junho no auditório da Fapesp, em São Paulo. Trata-se do livro Novos Caminhos para a Inovação no Brasil, da economista Fernanda de Negri, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O trabalho foi desenvolvido com apoio da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) e do Wilson Center Brazil Institute, em Washington, a partir de entrevistas com parlamentares brasileiros e empreendedores.

No livro, a autora traz um levantamento sistematizado dos fatores que afetam a inovação, apontando três fatores principais – pessoas, infraestrutura e o ambiente. Os três são influenciados pelas políticas públicas, formando um ecossistema propício ou não para a inovação. O livro mostra que ainda falta muito no ecossistema brasileiro de inovação, seja nos três fatores principais, seja nas políticas públicas. Conclusão: é difícil inovar no Brasil.

Nas entrevistas com empresários, a economista ouviu argumentos de que inovação não depende apenas de financiamento e de instalações, mas também de um ambiente estimulante e dinâmico, onde as competências existentes possam prosperar e se desenvolver adequadamente. Há uma crença de que o Brasil tem competências relevantes em várias áreas, mas a burocracia dificulta que os conhecimentos produzidos nos ambientes universitários se transformem em novos produtos.

Algumas condições para a melhoria do ambiente de inovação foram apontadas na pesquisa de De Negri. Em primeiro lugar, capital humano. Nas se faz ciência sem pessoas. Depois, uma infraestrutura adequada para que esse capital humano possa produzir, incluindo aí instalações, equipamentos, etc. Cercando isso, uma regulação menos burocratizada e que proporcione que o conhecimento científico seja transferido para o setor produtivo. Para complementar, um sistema de propriedade intelectual que dê segurança e previsibilidade, para que os investimentos de risco sejam incentivados.

O último fator relacionado ao ambiente diz respeito à estrutura de mercado. O argumento é de que a competição é o motor fundamental da inovação. Uma economia fechada, com empresas protegidas de seus concorrentes, não tem incentivos para produzir inovação.

Outro aspecto interessante da publicação diz respeito aos investimentos públicos e empresariais em inovação. Somando gastos públicos e empresariais, o Brasil investe 1,27% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em P&D. Isso é bem menos do que a média dos países da OCDE, onde esse investimento representa 2,38% do PIB, mas está acima de países latino-americanos, como México e Argentina. “Mas, se os investimentos totais em P&D do Brasil não são tão baixos, os investimentos empresariais, que deveriam ser estimulados pelas políticas públicas, são menores do que em vários outros países e têm permanecido relativamente estáveis ao longo do tempo. No Brasil, as empresas respondem por pouco menos da metade dos investimentos em P&D realizados no país, o que totalizou aproximadamente 0,6% do PIB em 2014. Essa proporção costuma ser maior nos países desenvolvidos. Tomando a média da OCDE como exemplo, nesses países as empresas são responsáveis por quase 70% do investimento total em P&D, ou cerca de 1,63% do PIB”, conclui a autora.

Então, a melhoria das condições institucionais e sistêmicas, produzindo conhecimento de ponta ao mesmo tempo que incentiva as empresas para inovarem, através de um ambiente favorável e estimulante é o que poderá mudar este cenário no Brasil.