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JC Notícias (São Paulo, SP)

A desigualdade escondida no equilíbrio

Publicado em 09 março 2020

Mulheres conquistam espaço na carreira científica no Brasil, mas obstáculos no acesso a algumas áreas são desafio

A presença das mulheres na ciência do Brasil pode ser analisada segundo duas perspectivas diferentes — ambas são válidas, embora pareçam divergentes. A visão mais favorável se baseia em indicadores que mostram uma grande evolução da participação feminina em laboratórios e universidades. As mulheres são hoje 55,2% dos alunos que ingressam no ensino superior e 61% dos que se graduam, segundo o Ministério da Educação. Desde 2003, tornaram-se maioria em número de doutores e, em 2017, alcançaram o patamar de 54% dos titulados. Também puderam aproveitar oportunidades na carreira acadêmica. Se nos anos 1990 havia quase duas vezes mais homens do que mulheres na liderança de grupos de pesquisa no país, a estatística mais recente, divulgada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2016, mostra que a vantagem masculina caiu para 15%.

Mas esses dados gerais, que colocam o país entre os que mais avançam rumo ao equilíbrio de gênero na ciência, não dão conta de mostrar uma outra perspectiva igualmente importante. De forma mais acentuada do que se vê em outras nações, há carreiras dominadas por homens, por exemplo em matemática e engenharias, enquanto outras, como enfermagem e pedagogia, permanecem territórios femininos. “A igualdade está distante”, diz a bióloga Jacqueline Leta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma estudiosa das questões de gênero na ciência. Segundo ela, o Brasil tem um diferencial em relação a outros países, que é o maior ingresso de mulheres nos níveis mais altos de educação formal. “A ciência no país não mudou com a presença feminina maior”, afirma. “Os cargos de maior poder em universidades e agências de fomento são ocupados prioritariamente por homens e a concepção da ciência segue a mesma formulada pelos pioneiros em cada campo do conhecimento, em geral homens, voltada para produzir e publicar resultados em revistas de prestígio.”

A desigualdade é visível no relatório A jornada do pesquisador pela lente de gênero, que a editora Elsevier divulga dia 5 de março. O trabalho analisou o sexo de autores de 15 países que publicaram artigos em periódicos da base Scopus entre 2014 e 2018. O Brasil aparece entre as nações mais equânimes, com 0,8 mulher por homem (ante 0,55 no período de 1999 a 2003). O desempenho só foi superado por Portugal (0,9) e Argentina (pouco mais de 1 mulher por homem), mas ficou à frente de Reino Unido (0,6), Estados Unidos e Alemanha (0,5).

Leia na íntegra: Pesquisa Fapesp

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