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A desconexão de hábitats e o declínio global de anfíbios voltar

Publicado em 29 janeiro 2008

De um lado, o topo dos morros da Mata Atlântica, com suas florestas que servem de moradia para diversas espécies de anfíbios (sapos, rãs e pererecas). Do outro, os vales, com seus rios, lagoas e lagos, que são um ambiente favorável para esses animais se reproduzirem. E entre esses dois ambientes, surge uma "desconexão": áreas desmatadas, pastagens e plantações que deixam as populações de anfíbios vulneráveis, podendo até levar à extinção de algumas espécies menos resistentes, durante as viagens obrigatórias para a reprodução.

Essa hipótese — desconexão de habitats — é a explicação proposta pelos pesquisadores Carlos Guilherme Becker (Unicamp), Carlos Roberto Fonseca (UNISINOS), Célio Haddad (UNESP), Rômulo Batista (Unicamp, SDS-AM) e Paulo Inácio Prado (USP) para o problema do declínio global dos anfíbios.

Esse problema começou a ser percebido pelos cientistas a partir das décadas de 1980/1990 em todo o mundo. A idéia dos cientistas brasileiros foi bem aceita na comunidade científica. Em Dezembro último, a Revista Science publicou um artigo desses pesquisadores.

"Muitos animais adultos morrem antes de se reproduzirem. E os filhotes morrem antes de conseguirem chegar às matas", afirma o professor Paulo Inácio Prado, do Instituto de Biociências da USP.

Ele explica que, quanto maior for a desconexão entre os cursos d'água e o topo das matas, maior será a redução da riqueza de espécies de anfíbios locais. "Além disso, as espécies que dependem de rios, lagos e lagoas para se reproduzirem sofrem mais do que aqueles anfíbios que não são tão dependentes dos cursos d'água para reprodução."

Segundo Prado, várias hipóteses já haviam sido levantadas para explicar o fenômeno do declínio global de anfíbios: a ação de agrotóxicos, de poluentes, do desmatamento e até o buraco na camada de ozônio (que prejudicaria a sensível pele desses animais).

A hipótese da desconexão de habitats começou com a pesquisa realizada por Carlos Guilherme Becker, na Unicamp. O mestrado, realizado entre 2005 e 2006 (defesa em 2007), foi feito na região rural de São Luis do Paraitinga (cidade do Vale do Paraíba a 171 km a Leste da Capital paulista). Becker montou armadilhas entre o topo das matas e o vale dos rios, o que comprovou que de fato ocorria a migração de anfíbios entre aqueles habitats.

Prado, Becker e Fonseca decidiram levar os dados para análise do professor Célio Haddad (UNESP, Rio Claro), reconhecido especialista em anfíbios. "Segundo o professor Haddad, aquelas conclusões eram bastante plausíveis e inovadoras, pois nunca havia sido feita uma pesquisa semelhante", conta Prado. O professor Haddad realizou o inventário de 12 trabalhos de anfíbios na Mata Atlântica, abrangendo desde áreas fragmentadas, como São Luis do Paraitinga, até locais com extensa cobertura florestal, como a Reserva de Boracéia. Foi a partir daí que o artigo enviado à Revista Science foi tomando forma.

O professor Prado explica que os anfíbios têm um importante papel nos ecossistemas. Eles tanto exercem o papel de predadores de insetos e de outros invertebrados, como também fazem parte da alimentação de uma série de outros animais.

No aspecto aplicado, há também um grande potencial farmacêutico, por meio do uso de algumas substâncias encontradas em sua pele e órgãos.

Outro dado interessante apontado pelo professor Prado é que anfíbios são um dos grupos de vertebrados mais diversificados. "No Brasil, existem cerca de 550 espécies de mamíferos (5 mil no mundo). Já em relação aos anfíbios, são cerca de 700 no Brasil (6 mil no mundo). Um terço de todas as espécies está sob algum tipo de ameaça", conclui.

As pesquisas reuniram pesquisadores dos projetos "Biodiversidade e Processos Sociais em São Luiz do Paraitinga" e "Diversidade de Anfíbios Anuros do Estado de São Paulo", ambos do Projeto Biota-FAPESP. Também contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Universidade Vale dos Sinos (UNISINOS-RS).