Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

A descoberta de talentos

Publicado em 11 novembro 2001

Em certas áreas de conhecimento, como na música e matemática, a genialidade é manifestada de forma precoce. Em outras, essas manifestações não são óbvias e é necessário que a pessoa talentosa seja descoberta por alguém de sensibilidade ou por um sistema montado para tal. Devido ao ambiente educacional, cada vez menos estimulante do ensino fundamental e do segundo grau, na maioria dos casos o estudante que tem um potencial acima do normal recebe pouca atenção e geralmente chega à Universidade com atitudes e vícios que tornam muito difícil o desenvolvimento de suas potencialidades. Dessa forma, é importante que a descoberta de talentos seja feita antes da conclusão do curso de segundo grau. No exterior esta prática é realizada há muitos anos e existem programas consolidados de entrada precoce na Universidade de alunos intelectualmente bem dotados. A absorção de tais alunos, ao longo do tempo, poderia ser uma alternativa ao velho e cansado vestibular. A identificação e a possibilidade do aluno diferenciado do segundo grau de ter uma atividade na Universidade, além de ser um estímulo, fará com que se possa abreviar o tempo de formação universitária. Algumas iniciativas individuais de sucesso já foram feitas em instituições brasileiras: 1. Universidade Federal do Rio de Janeiro, na área da Bioquímica; 2. Instituto de Matemática Pura e Aplicada, na área da Matemática; 3. Universidade de Brasília, na área de Microbiologia. No Brasil a experiência mais consolidada dessa ação em nível institucional é feita há mais de cinco anos no Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ/Rio de Janeiro), em um programa que é conhecido como Programa de Vocação Científica. Alunos de escolas pública ou privadas acompanham e participam de projetos de pesquisas desenvolvidos na instituição. A experiência bem sucedida inspirou 'a criação de um Programa de Iniciação Científica para estudantes do segundo grau, que foi iniciado em 2000 com a concessão de cem bolsas de iniciação científica. Atualmente participam duzentos estudantes que recebem uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ), o equivalente da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Esses estudantes recebem uma bolsa de R$ 80,00 mensais e desenvolvem os seus projetos de iniciação científica nas Universidades e Institutos de Pesquisas do estado do Rio de Janeiro. Adaptando essa idéia para o nível regional, é legitima a proposta de criação de um programa semelhante para a região do Alto Tietê, onde temos Universidades de grande porte e onde já existem núcleos de pesquisas desenvolvendo mais de 30 projetos, a maioria deles financiados pela FAPESP. A Prefeitura de Mogi das Cruzes marcaria um grande gol criando, à semelhança de alguns municípios brasileiros, uma Fundação Municipal de Amparo à Pesquisa, cuja ação inicial poderia será implantação de um Programa de Iniciação Científica para estudantes do segundo grau. Uma dotação anual de R$ 30 mil seria suficiente para financiar o programa, que poderia contar com a participação de 30 estudantes. Esse programa poderia se constituir em um marco importante de integração entre o ensino do segundo grau e o ensino superior. Certamente ele será um instrumento importante na descoberta de novos talentos. As janelas de oportunidade para os nossos jovens seriam construídas. À sociedade como um todo se beneficiaria direta ou indiretamente dessa iniciativa, pois os resultados das pesquisas poderiam ser por ela utilizados. Além disso não há investimento mais nobre que o investimento no futuro, que é a bandeira dos gestores públicos com visão de estadistas. Professor Isaac Roitman Reitor da UMC e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências