Notícia

Antes que Ele Cresça

A criança e o racismo

Publicado em 03 abril 2019

Antes Que Ele Cresça

Ela estava grávida. Era o Dia das Mães. Alguém fez um bolo, o bolo queimou. Essa pessoa disse para a mulher grávida, a única mulher parda da família:

— Não faz mal. Seu filho vai nascer queimado mesmo.

II

— Como será que vai nascer seu filho? – perguntaram.

— Vai ser um preto – disse alguém da família “inter-racial”, com ódio na voz e nos olhos.

III

— Acho a menina F. linda.

— Acho a F. muito feia.

— Isso tem alguma coisa a ver com a cor da pele da F. Ela é linda!

IV

— Olha que menino lindo – disse a mulher grávida após levar um vídeo de crianças cantando um hino. O menino moreno era o solista.

— Não acho. Olha aquele de olhos azuis. Esse, sim, é lindo.

V

O menino pardo brincava com a terra. Alguém que já havia lhe apertado as mãozinhas e lhe dado puxões, disse-lhe:

— Seu porco, seu sujo.

Todas essas cenas não são do apartheid norte-americano, nem de tempos pré-áureos do Brasil, não são brincadeiras de mau gosto nem algo sobre o qual se deva silenciar. O racismo não está distante de nós. Faz parte do dia a dia de crianças negras, pardas e indígenas brasileiras, não-cristãs ou cristãs.

Para as leis brasileiras, racismo é crime.

Deus se importa com o racismo? O amor cobre todas as transgressões?

Miriam, uma anciã influente, foi racista em relação a Zípora, a mulher de pele escura casada com seu irmão Moisés, mãe de dois filhos, possivelmente pardos. Deus chamou Miriam e declarou seu pecado, que incluía difamação no acampamento e entre a família. Ela foi acometida de lepra, a mais temível doença da época, incurável. Ironicamente, era a doença da pele esbranquiçada.

Certamente arrependida, com seu pecado exposto em público, na pele, Miriam foi perdoada, após oração intercessória. Mas teve de ficar algum tempo fora do acampamento, distante do lar. Quem excluiu sentiu a dor da exclusão.

O racismo causa isolamento, mas em uma sociedade injusta, a solidão, frequentemente, recai sobre a vítima e não sobre o agressor. Para encobrir os seus atos, o agressor difama. A comunidade pode até ser conivente, mas Deus não age assim. Na Bíblia, Ele nos ensina: o amor é perfeito porque beija a justiça.

Se você é mãe, e seu filho é vítima de racismo, não consinta. Ore pelo agressor. Converse com ele. Se a situação não mudar, afasta-se. O afastamento não é um ato de vingança, mas uma expressão de amor pelo seu filho, ainda que o preço social a ser pago seja alto. A Igreja Adventista do Sétimo Dia promove uma campanha muito importante para combater o abuso sexual, intitulada “Quebrando o silêncio”. O racismo, tanto quanto o abuso sexual de crianças, é grave, é crime.

Fale sobre o racismo, escreva, dialogue, posicione-se, sinta a dimensão dessa dor, comova-se. O racismo dói. Ainda que laços familiares e comunitários o forcem a não agir, aja. Quando a mãe e o pai se calam, o peso recai sobre a criança.

Uma criança pequena precisa de toda proteção que os pais podem dar. Ela não sabe reagir. Mas, à medida que cresce, ao ser protegida de situações de abuso, aprende que o abuso não é normal nem aceitável. É destrutivo, seja praticado por quem for. Outro modo de proteger a criança é ensiná-la a se defender, a se posicionar diante das agressões, a não aceitar a dor infligida pelo outro. A criança tem que ser ensinada sobre o quanto ela é amada por Deus, seu Criador.

De que maneira a criança vítima de racismo é afetada?

Uma importante pesquisa, financiada pela Fapesp, fala do racismo dentro dos círculos familiares, em famílias “inter-raciais”: um racismo “cordial” e um racismo violento. Assim como no caso do abuso físico, o racismo é praticado também entre familiares. A psicóloga Lia Vainer Schucman fez a pesquisa de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Veja aqui.

De acordo com pesquisa publicada no The New York Times, no artigo “Como o preconceito pode prejudicar sua saúde”, o racismo contra mulheres afeta drasticamente sua saúde e a saúde de seus filhos. Está relacionado com diversas doenças, tais como bebês menores, maiores taxas de mortalidade infantil, bebês prematuros, câncer de mama, doenças cardíacas, hipertensão, entre outras. Veja aqui.

Se o racismo faz isso com uma pessoa adulta e em bebês, o que provoca em uma criança? Você tem dimensão dessa dor? Você se importa? Deus se importa, eu também.

O amor cobre todas as transgressões?

Quem erra deve pedir perdão em público – se houve pecado em público, como a difamação, por exemplo –, perdão contra quem pecou, perdão a Deus. O tempo não apaga a transgressão. Passe o tempo que passar, não há redenção sem confissão. O amor de Deus cobre todas as transgressões que foram verdadeiramente confessadas e abandonadas. Deus é expressão do perfeito amor.

Quem erra e busca o perdão aceita as consequências do erro. Não foge da punição. Se essa punição significa ficar afastado da pessoa que sofreu o abuso – por um tempo ou para sempre, dependendo da extensão da agressão –, o ofensor deve respeitar a decisão daquele que foi agredido. Quem sofreu o abuso tem o direito de voltar ou não a conviver com o agressor, após aceitar o pedido de perdão e perdoar. Se esse direito for desrespeitado ou criticado por causa de um discurso religioso, isso se chama abuso espiritual.

A ciência denuncia as dores que o racismo provoca. O bom jornalismo não esconde essas mazelas. A religião não se cala. Deus não consente.

Naquele dia, farei de Jerusalém uma pedra pesada para todos os povos. […] Naquele dia, o Senhor protegerá os habitantes de Jerusalém; e o mais fraco dentre eles, naquele dia, será como Davi […] Zacarias 12: 3, 8