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Bravo

A corrida do ensino

Publicado em 01 março 2005

Por Renato Janine Ribeiro

Vivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, científico, acadêmico. Isso e ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. O aprendizado é mais democrático do que a herança. Mas há um problema nisso, porque a universidade de qualidade, que geral mente é pública, não dá conta dessa demanda. O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto.
Tomemos um exemplo sofisticado desse conhecimento ofereci do ã sociedade. É o da Casa do Saber, que ministra cursos de qualidade em ambiente muito agradável. É excelente que a iniciativa privada invista na difusão do conhecimento e recorra a pessoas de gabarito (digo-o com certo pudor, porque às vezes me convidam para falar lá). O problema não está aí, mas no fato de que a universidade pública não possa atender a essa demanda.
Qual é o reme de uma boa universidade? Eis uma pergunta difícil. Pode haver faculdades tendo por foco único a graduação — e que sejam boas. É o que nos diz a experiência internacional. Mesmo elas precisam ter professores com título de doutor. Sem doutores, isto é, sem experiência de pesquisa, é difícil formar bem os alunos.
Mas a boa universidade, de verdade, precisa ter pesquisa e seu braço direito, a pós-graduação, O problema é que as universidades privadas, em especial as que buscam o lucro, raramente fazem boa pesquisa.
Quando fazem, o dinheiro acaba No Brasil, até o doutoramento dos professores das escolas privadas é pago pelas agências de pesquisa estatais, como CNPq, Capes e FAPESP.
Na verdade, um dos principais resultados da pesquisa (só que esse é um segredo conhecido só pelos pesquisadores) é o próprio pesquisador. A pesquisa não rende lucro, nem sempre resulta em patente.
Forma gente capacitada. Talvez seja esse o seu melhor produto. Por que. formando pesquisadores, se aposta em 30 ou 40 anos de bom trabalho futuro.
já os cursos para leigos são o que se chama 'extensão" (significando: extensão de serviços à sociedade) — e nenhuma universidade de ponta dá a eles importância comparável à da pesquisa, da pós-graduação e da graduação. Explico: não se trata de negar importância à ex tensão, ou à sociedade. É questão de prioridade.
Qual é a prioridade? As universidades escolhem entre duas. Uma, a graduação: a formação de profissionais que, na sua maioria, vão sair aos 20 e poucos anos prontos para trabalhar. Para a sociedade, o ensino superior é isso. A própria exigência de cotas, que eu apóio a fim de reduzir a desigualdade social, tem a ver com a redução da universidade à formação de profissionais. já a outra prioridade é a da pesquisa e pós-graduação — a formação de gente e a produção de descobertas que terão efeito de longo prazo no avanço do conhecimento. Para quem conhece mesmo a universidade, este é o filé-mignon. Ou seja, há uma visão da universidade de quem está fora dela (a graduação) e outra de quem está nela (pesquisa e pós).
A terceira possibilidade, a extensão, acaba sendo a irmã pobre. Divididas entre duas opções caras, compreende-se que as universidades dêem menor peso à extensão. já a sociedade — ignorando o que é a universidade e reduzindo-a ao lugar que forma um profissional que, de posse do canudo, nunca volta a estudar—também ignora que a extensão pode ser o modo de tornar permanente a educação. Sem isso, o conhecimento adquirido nos bancos se esteriliza.
Esse quadro traz problemas. Não discutirei a formação de pessoal qualificado para as empresas, ponto importante mas que não é a prioridade do leitor de BRAVO!, interessado na cultura. A questão aqui, para nós, : como o melhor do conhecimento científico, em qualquer área, pode enriquecer pessoas que têm interesse cultural e não científico?
A ciência tem várias formas de beneficiar a sociedade. Por exemplo, gera tecnologia. Da cabeça aos pés, cada um de nós veste uma ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. É o que deseja quem pro cura um bom curso de extensão ou lê uma revista sofisticada. Dou exemplos. Se acompanho as pesquisas de nutrição, aprendo que nosso prato típico, o arroz com feijão, é rico e saudável (há 20 anos, ele era acusado de ser péssimo para a saúde). Se leio antropologia, vejo que os valores não são absolutos mas variam, conforme a sociedade ou mesmo o grupo social —e me torno mais tolerante. Se conheço al go de física, dificilmente serei criacionista ou fundamentalista cristão e minhas chances devotar em Bush (se for cidadão norte-america no) despencam. Em suma, a ciência ajuda a minar o preconceito e melhora o conhecimento—e a ação — sobre o mundo e sobre mim mesmo. Isso já não tem a ver com tecnologia ou com empresas. Nem passa propriamente pelo mercado, como a tecnologia. O que está em jogo aqui é a formação de um público.
Temos público para a ciência? Mais do que se pensa. A medicina deslanchou na mídia, nos últimos 15 anos. É verdade que antes disso a revista Seleções e o programa Fantástico já falavam de saúde — que, no Brasil, é mais valorizada do que a educação. Mas quantos sabiam do colesterol em 1980? Os cuidados que hoje aprendemos a ter com a saúde são, com freqüência, de última geração. Outro exemplo de como a ciência se torna consciência está na política. Nossa democracia, em que pesem suas falhas, deve parte de sua qualidade à participação de intelectuais na geração de uma opinião pública, por exemplo, em reuniões da SBPC durante a ditadura. Intelectuais aparecem na mídia brasileira mais até do que na França, que é a pátria da profissão de "intelectual".
A extensão é um continente. Penso que expressa uma nova aliança entre o mundo acadêmico e a sociedade. As pessoas percebem cada vez mais que o conhecimento as enriquece. Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria sa machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade — inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não.
Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. Os cursos de Adauto Novaes foram o começo. Mostraram que havia um enorme público para aulas abertas e livros de alta qualidade. Os sentidos da Paixão vendeu mais de 40 mil exemplares. Quem pagou esses cursos foi essencialmente a União. Desde Collor, porém, o dinheiro minguou. Hoje a extensão depende muito dos recursos privados. Mas, se o problema ai é o acesso de novos atores a esses cursos, o lado bom da coisa é que as experiências de Adauto, do SESC, e mais recentemente da CPFL Cultural e da Casa do Saber testam modelos que poderão mais tarde ser ampliados a novos públicos.