Notícia

Jornal do Brasil

A corrida do domínio

Publicado em 13 janeiro 2000

Por RODRIGO DE PAULA
Quanto vale um conjunto de letrinhas que guia o seu navegador até uma determinada home page no infindável universo da Internet? Por enquanto boa parte dos internautas não sabe responder. A única certeza atualmente é que "alguma coisa ponto-com-ponto-bê-erre" está se transformando em iguaria fina e rara. Com um cadastro que cresce em 10 mil registros por mês e já soma 150 mil domínios no Brasil, a Fapesp - órgão responsável pelo registro de domínios no país - está acionando o alerta vermelho para o que já vem sendo chamado de "a corrida do domínio". Além de uma legião de pessoas físicas e jurídicas sem domínio, outro problema causado por essa oferta menor que a demanda atende pelo nome de cyber squatting, como é chamada a prática de venda de domínios nos EUA. A malandragem consiste em reservar um domínio potencialmente famoso para num futuro próximo poder embolsar uma boa grana com a venda do endereço. E se a história conta que malandro bom só tem na Lapa, a Internet brasileira é uma reprodução fiel do folclórico berço da astúcia carioca. Água na cerveja - Que o diga a cervejaria holandesa Heineken, que ouviu de um antigo distribuidor a salgada proposta de R$ 20 mil pelo domínio heineken.com.br. O empresário Ricardo Monteiro, da Brazil Conections, que reserva domínios na Internet, conta outro caso de "especulação imobiliária" que movimentou o mercado da Internet no ano passado. Ao tentar reservar um domínio para publicar sua home page, a Daslu -sofisticada loja paulista, representante de grifes como Gucci, Valentino e Dolce Gabana - percebeu que daslu.com.br já atendia pelo nome de uma outra empresa, que só começaria a conversar por pelo menos R$ 6 mil. Ricardo conta que o argumento da antiga dona do domínio foi dos mais esfarrapados: "Íamos abrir um restaurante chamado Daslu". No entanto, aparentemente, a disputa foi resolvida sem ninguém ter que meter a mão no bolso. "Tudo foi solucionado na base da conversa", desconversa o diretor financeiro da Daslu, José Luis Baraúna. O empresário conta que alguns webmasters são os autores da malandragem, "Essa é uma maneira de pressionar o cliente a fazer o site com ele. Mas nem sempre a estratégia dá certo. Algumas empresas grandes dão um boi para não entrar numa briga e 20 advogados para não sair de uma", diz Ricardo. Comprar a briga, no entanto, é só para quem pode. "Uma decisão costuma levar anos", conta o advogado Gilberto Almeida, craque em legislação na Rede. Gata escaldada, a Brazil Connections dá a dica para quem cobiça o domínio alheio. "É sempre recomendável que o cliente tente um acordo ao invés de entrar na Justiça. Mas a grande dica é: se você tem uma marca, corra para reservar seu domínio o quanto antes. Ou então reze para Jesus", aconselha Ricardo Monteiro. Investimento divino - O próprio Messias já foi protagonista de uma dessas batalhas. Um dos sócios da Impex Comunicação, dona do domínio jesus.com.br, Sergio Chilvarguer, afirma que alguns cristãos já ofereceram R$ 1 milhão para que o domínio fosse transformado num culto mais efetivo ao filho de Deus. "Não aceitei porque se eles ofereceram isso deve valer muito mais", conta, infringindo no pecado da ganância, mas acumulando pontos no quesito visão empresarial. Enquanto o Juízo Final não vem, Sérgio corre o risco de ficar milionário, já que também é responsável pelo domínio deus.com.br. Se levarmos em consideração que o domínio business.com foi vendido por US$ 7 milhões, a estratégia dele é tiro e queda. Profana, mas tão lucrativa quanto, a Ypisis Bitsen, empresa responsável pela marca Teletubbies, levou um susto ao saber que no endereço www.teletubbies.com.br não há nenhuma pista dos gorduchinhos Tinky Winky, Po, Lala e Dipsy. Irregular - Responsável pelo registro, a empresa WebTop, que também atende pelo nome de Bonna Pães e Doces ou Nelson Juarez de Campos Tempobono, parece ser profissional no assunto. Na mesma tacada, a firma paulistana registrou o domínio danielamercury.com.br. Só esqueceu de avisar à cantora baiana. Esqueceu-se também de colocar dados cadastrais, como telefone e endereço. "Está claro que trata-se de uma firma fantasma especialista em extorquir pessoas para vender domínios", acusa um funcionário do Ministério da Fazenda no Rio. Problemas como esse são um grande calo no sapato da Fapesp. "Isso é pior que especulação imobiliária, que pelo menos envolve risco. Nesse caso é falta de caráter", esbraveja o professor Hartmut Glaser, coordenador da Rede ANSP da Fapesp. Apesar de assumir que existe uma brecha no sistema de cadastro que permite esse tipo de sagacidade, ele entende que não cabe à Fapesp resolver esse tipo de problemas. World Wide Problem - Para Glaser o problema é mundial "O próprio Bill Gates já passou por isso, quando descobriu que bgates.com estava à venda por milhões de dólares", conta. Integrante do Comitê Gestor da Internet brasileira. Fernando Nery concorda. "O que acontece atualmente é que o conceito de marca é extrapolado no domínio", teoriza Nery, citando o exemplo de multinacionais como a Coca-Cola e a Nike, que registram sua marca em todos os setores, justamente para não passar pelo problema. "Não existe o risco de eles terem que disputar domínio com o Nike Frigorífico ou com a Oficina Mecânica Coca-Cola", explica. Para ele, é necessária a criação de câmaras de arbitragem. A matéria é muito nova e precisa ser seguida de perto por um órgão que possa julgar tais questões", acredita. O professor Hartmut Glaser aproveita para lembrar que o Brasil tem a maior taxa de crescimento da Internet no planeta. "Por isso estamos procurando educar o sistema", afirma. Na tarde de hoje integrantes do Comitê Gestor e da Fapesp e de outros organismos relacionados à Internet no Brasil se reúnem no Rio com a intenção de encaminhar um relatório à Comissão de Tecnologia da Câmara. . Novas Idéias - Enquanto soluções não são apresentadas, uma nova tecnologia pode estar a caminho, se não para resolver o problema da falta de domínios, pelo menos amenizá-lo. O especialista em Internet-working, Alexandre Chagas, conta que a incorporação de acentos e sinais gráficos aos endereços eletrônicos pode viabilizar milhares de domínios duplicados. Essa iniciativa é de uma empresa norueguesa que está testando o registro de domínios com caracteres estendidos", explica Alexandre. A nova técnica pode acabar gerando endereços do tipo: (http://SödraKärr.se.nu) ou (http://FöreningsSparbanken.se.nu) e mais um capítulo da série: problemas que só a Internet cria, só se resolvera na Internet.