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A civilização domadora de águas: novas teses sobre os geoglifos do Acre

Publicado em 06 março 2009

Teorias de Franklin Levy sobre as antigas estruturas de terra consideram "o homem dos drenos" o povo que construiu os geoglifos

Já se falou que os construtores dos geoglifos, os sítios arqueológicos prevalecentes no Acre, sul do Amazonas e noroeste de Rondônia, foram obras de povos especialistas na movimentação de terra.  No entanto, uma nova teoria surge com os estudos de Franklin Levy, pesquisador que participou das expedições pioneiras organizadas há trinta anos pelo professor Ondemar Dias junto às estruturas arqueológicas presentes no oeste amazônico.

Para Levy, os antigos decidiram pelos geoglifos como engenharia de rebaixamento do lençol freático, estrutura que permitiria a habitação e o cultivo de plantas nos interflúvios.  Habitaram savanas nos interflúvios mais altos, mas, mesmo assim, as águas impediam habitar e plantar.  Então cavaram grandes valas envolventes ao lugar a ser beneficiado, rebaixando o lençol freático insurgente, desafogando as raízes, e conseguiram manter o chão das casas mais seco na estação das chuvas, e ainda encontrando inúmeros usos para as valas, que, encharcadas, serviriam para depositar animais e formar húmus.  Quando as chuvas cessassem e fosse necessário queimar a palhada dos campos, seriam refúgios seguros e preservariam o ambiente doméstico, sendo barreira bastante a mureta externa e a largura da valeta.  Assim seguros, também pelo fogo controlariam o avanço da floresta.  Diversificavam a economia com os recursos das várzeas que a descoberto, no fim das chuvas, fornecia o que faltava nas terras altas.  Lá permaneciam por rápidas temporadas, como provado pelos restos arqueológicos", diz o professor em resposta a uma entrevista concedida à Revista Fapesp.

Ele é o primeiro a se referir à movimentação de águas como mais importante que a terraplanagem nos objetivos dos geoglifos.  E mais: os povos que os construíram os utilizaram por milhares de anos.  "Garanto que uma sociedade que pelas evidências arqueológicas permaneceu nos seus geoglifos, mesmo com idas e vindas, por mais de 2.500 anos, teve tempo de desenvolver uma cultura tão complexa, que jamais a resgataremos em toda as suas nuances."

Essas teses reforçam o elevado grau de conhecimento das mais variadas áreas disponíveis pelos povos dos geoglifos.  "Dominaram o ambiente, com os inúmeros recursos técnicos de que dispunham, venceram as vicissitudes do clima, mantendo a produção em todas as estações do ano", afirma o pesquisador, que também faz comparação com os drenos produzidos em Llano de Mojos, na região do Beni, Bolívia, o modelo mais próximo dos geoglifos acrianos.  "No Acre os drenos são obra de engenharia única, para o uso coletivo.  Nos Llanos Moxos há um conjunto de obras de uso comum e coletivo (canais e diques) e outras associadas a obras de uso particular ou familiar: os canteiros de cultivo.  Portanto, lá as águas são desejadas como meio de vida.  Já no Acre, vemos as valetas como defesa contra o excesso", sustenta Levy no artigo "O povo domador de águas".