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A ciência que sabemos (que nada sabemos): Evolução Biológica e os “pedreiros” científicos

Publicado em 11 setembro 2019

O fato é que não sabemos dizer, com exatidão, quantas espécies existiram no planeta, durante os 3,5 bilhões de anos de história da vida, trabalhando apenas com inferências e estimativas. Muitas lacunas do conhecimento científico sobre os grupos de organismos que se extinguiram não estão preenchidas por conta da ausência de fósseis devidamente preservados que possam contar uma história esclarecedora desse passado conflitante – partindo do pressuposto “sentencioso” de que nem todos os organismos tiveram sucesso durante a fossilização.

Predizemos sobre o passado – e de seus acontecimentos espetaculares – por meio de teorias e hipóteses fomentadas, principalmente, através da Biologia Comparada (muito utilizada nos princípios da Sistemática Filogenética ou Cladística, com também é chamada). Se há dificuldades nesse sentido, quem dirá sobre a própria diversidade biológica atual, representada por apenas 0,0001% das “megas-faunas” que já existiram!

Além disso, a dificuldade de se conhecer e/ou inferir sobre a diversidade biológica decorre muito, por exemplo, do próprio déficit de conhecimento que se tem sobre as espécies durante a construção de databases (banco de dados) que usamos para salvaguardar os registros da atividade científica, que tem por papel de elucidar essa diversidade (claro que, para deixar bem claro, que uma lista de fatores, não apenas o citado, interfere nesse tipo de abordagem, como a natureza e a frequência com que as coletas de amostras são – e onde são – realizadas, quando se trata da investigação de biotas macro e microscópicas distintas, em complexidade; as extinções de espécies causadas pelas consequências das atividades antrópicas, que interferem nas amostragens, dentre outros).

Existem progressos em relação à saber sobre a distribuição e abundância dos organismos na atualidade, como por exemplo um estudo de 2011 publicado na revista PLoS Biology e depositado no Census of Marine Life, trazendo à tona dados relevantes, inferindo que nosso planeta abriga um total de 8,7 milhões de espécies (foto 01) com uma “gritante” margem de erro de 1,3 milhão. Apesar da margem incômoda, o cálculo é o mais preciso já feito sobre a presença de vida na Terra. Do total apresentado, cerca de 6,5 milhões são espécies terrestres e 2,5 milhões são marinhas. A pesquisa levou 10 anos para ser feita, sob uma rede de pesquisadores de mais de 80 países. Mesmo assim, existem muitos desafios (associados às dificuldades aqui colocadas em pauta) a serem sanados.

O conhecimento sistematizado, “peneirado” pelo crivo científico (vamos pegar o exemplo do estudo) é, por sua vez, depositado nos bancos de dados, onde cada família taxonômica possui sua representatividade. No entanto, nada impede de que os pesquisadores de qualquer região do planeta façam novos levantamentos e revisões (até mesmo agora no momento em que você está lendo essa postagem) e modifique alguma informação sobre uma determinada espécie, gênero, família (ou qualquer nível taxonômico), encontre erros e/ou aponte carência nas informações disponíveis.

Isso pode acontecer e está acontecendo, não é algo isento de falhas, ao mesmo tempo que um artigo publicado na Revista Nature ou na Science não “rotula” a pesquisa realizada como “a verdade absoluta” sobre um determinado tema, só porque está indexado nos periódicos de prestígio internacional citados (e por um pesquisador renomado). Apesar da ótica levantada, há o condicionamento inevitável do julgamento das pessoas que se atualizam das pesquisas que são apresentadas. Por isso é importante não confundir “prestígio” com “confiabilidade.” A ciência não funciona desse modo.

Ela cresce e ganha volume, refinando-se através das discussões (não apenas) biológicas initerruptíveis fomentadas pelas comunidades científicas. Novas descobertas são feitas para agregar conhecimento, e construir “tijolos” de dados consistentes (afinal todos querem fazer uma boa ciência). Não é o fim, muito menos o começo. É um processo onde todos acabam aprendendo.

Cada artigo publicado, que oferece luz à alguma discussão ou descoberta, trata-se desse “tijolo” mencionado, em meio a tantos, que necessita de “cimento” e “alinhamento” durante a construção da parede delicada chamada ciência. Tendo em mente de que as explicações mais próximas da realidade circundante é algo conquistado com o tempo, debates e o fortalecimento do método científico, os pesquisadores possuem cada vez mais o importante papel de refinar esses blocos de construção.

As perguntas certas através dos objetivos de cada artigo tornam possível a construção de dispositivos de investigação mais incisivos, sofisticando ao longo dos anos à análise metodológica dos fenômenos naturais e do levantamento de dados. Um exemplo dessas intrincadas discussões é justamente, resgatando o escopo da nossa conversa, os estudos sobre o comportamento ímpar da evolução biológica ao longo das eras geológicas (foto 02).

As descobertas de evidências no registro fóssil, trazidas à tona ao longo da história da ciência, nos convida a pensar sobre o “quebra-cabeça” do porquê e como existiram espécies incrivelmente diferenciadas dos grupos modernos (foto 03) por meio do processo evolutivo, além das suas histórias de vida, habitats, retratos de morte e ancestralidade comum entre ambas. Discutir sobre isso nos ajuda a encontrar as “peças corretas” – os fósseis – e organizá-las no espaço e no tempo, da qual teremos pelo menos um breve escopo desse jogo que a natureza se dispôs a criar, permeado de testes bem sucedidos e becos sem saída, durante a história de evolução da vida.

Então, toda pesquisa que um dado cientista desenvolve pode ou não contribuir como um bloco de construção do conhecimento científico (podendo ser rejeitado ou rebatido por pares, durante uma revisão de seu conteúdo). Porém, é nesses momentos que a sofisticação do conhecimento é fator imprescindível, contribuindo para o progresso da ciência. Levantar uma parede com a intenção de que ela seja sólida é cortejar um trabalho sofisticado, mesmo que seja árduo e pesado, com bons tijolos. Posso saber como está o seu “tijolo”?

Em suma, todas as questões que interferem na compreensão da natureza parte dessas e muitas outras vertentes. Não somente apenas estamos lidando com fatores naturais da biosfera que podem impedir que façamos as devidas análises, como também estamos sujeitos à própria evolução e construção da ciência, da sua sistematização e compartilhamento das informações que, por vezes, demoram pra “sair do forno” e a posteriori alimentar a grande roldana dos periódicos científicos, mostrando ao público interessado o que descobrimos e do seu porquê.

Referências: AGÊNCIA FAPESP. Cientistas calculam quantas espécies existem. Agência FAPESP, 24 ago. 2011. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/cientistas-calculam-quantas-especies-existem/14383/>. Acesso em: 30 jul. 2019. AMORIM, D. S. Fundamentos de sistemática filogenética. Ribeirão Preto: Holos, 2002. 156 p. CARVALHO, L. S.; FIGUEIREDO, D. Princípios de sistemática filogenética. Teresina: EDUFPI/UAPI, 2012. 110 p. CENSUS OF MARINE LIFE. Disponível em: http://www.coml.org/>. Acesso em: 30 jul. 2019. MORA, C. et al. How many species are there on earth and in the ocean? PLoS Biology, 23 ago. 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pbio.1001127>. Acesso em: 30 jul. 2019. RIDLEY, M. Evolução. 3. ed. Porto Alegre, editora Artmed, 2006. 752 p.