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Revista Inova ABCD

A ciência minúscula em que os grandes estão de olho

Publicado em 01 novembro 2011

Por Sônia Nabarrete

Existe consenso entre os cientistas que a nanotecnologia é uma ferramenta indispensável para aumentar a competitividade da indústria brasileira no mercado global, e que permite a criação de itens realmente inovadores em toda a cadeia do setor produtivo.

Entre os exemplos de sua aplicação no Brasil estão as roupas fabricadas com tecido que equilibra a temperatura do corpo à do ambiente, um nanotubo de carbono de grande resistência e capaz de fazer perfurações a oito quilômetros abaixo do nível do mar, em campos de petróleo e gás, ou o cimento mais leve que o convencional e com funções de isolante acústico.

Mas, entre os empresários, na prática, não existe consenso sobre a nanotecnologia, vista como um remédio maravilhoso, do qual ainda pouco se conhecem os efeitos colaterais. Sua aplicação depende de alianças entre a academia, a indústria e o governo. E a falta de garantia da segurança de pesquisadores, produtores, consumidores e até do meio ambiente, é outro grande entrave à sua expansão.

Os prós e contras da aplicação industrial da nanotecnologia foram o ponto central de debate promovido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em outubro. Ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a entidade coordena o Projeto Estratégia Nacional de Nanotecnologia, que dá ênfase à aproximação do governo com o setor privado com o objetivo de fazer o plano avançar. Para isso, deu o nome de "Nanotecnologias: da ciência ao mundo dos negócios" ao workshop que realizou em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e que reuniu representantes dos principais setores industriais em que a nova tecnologia já é usada.

Durante o encontro, os pontos obscuros e de atrito que envolvem a questão foram discutidos visando o encaminhamento de soluções. E, embora tenha ficado evidente a insegurança a respeito de nanotecnologia, a relação das vantagens elencadas foi destaque entre os debatedores,

A nanotecnologia é um moderno vetor da inovação industrial e de segmentos como a microeletrônica e a biotecnologia, com grande potencial, na opinião de Mauro Borges de Lemos, presidente da ABDI. A nanotecnologia, acrescenta Nelson Fujimo-to, secretário de inovação do MDIC, permite fabricar produtos com maior eficiência e a menor custo, revolucionando o cenário produtivo. Por isso, diz Mario Reali, prefeito de Diadema e presidente do Consórcio Intermunicipal do ABC, essa é a porta de entrada para o desenvolvimento de novos produtos e de diferentes setores, contribuindo para diminuir a dependência da região ao trio indústria automobilística-autopeças-petroquímica.

João Alfredo Saraiva Delgado, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), segue na mesma linha: "As descobertas da nanotecnologia permitirão redução significativas no consumo de matérias primas e de energia". Delgado sugere a elaboração de uma agenda para o setor de bens de capital nos próximos 20 anos, focada no potencial da nanotecnologia.

José Ricardo Roriz, da Associação Brasileira de Indústria do Plástico (Abiplast), informa que metade das 13 mil empresas do setor dedica-se à produção de embalagens que poderão passar por transformações surpreendentes, com a aplicação da tecnologia.

Por exemplo, embalagens com ação antimicrobiana e barreira a gases, além de mais resistentes que as atuais. "A embalagem vai proteger mais o alimento, o que pode mudar até a logística de exportação. O que hoje tem de seguir de avião, poderá ir de navio", afirma.

Fernando Pimentel, da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), diz que o Brasil conseguiu enfrentar a forte concorrência asiática, mantendo sua posição no ranking setorial global de 2010, elaborado pelo Fibber Organon, do Instituto de Estudos e Marketing Industrial: é o quarto maior, no mundo, entre as confecções e o quinto entre as indústrias têxteis.

Isso é, em parte, efeito do Projeto Têxtil, que, lançado em 2008, pela Abit em parceria com a ABDI, introduz essa tecnologia, além de outras estratégias, como percepção do mercado e integração entre governo, associação e companhias. Pimentel menciona, como um de seus primeiros resultados concretos, a criação de uniformes de trabalho, com características específicas para cada atividade, para a qual a nanotecnologia contribuiu fortemente apontando esses diferenciais.

Tomas Casanova, diretor da Rodhia Têxtil na área de fibras, plásticos e engenharia para a América do Sul, cita outro exemplo prático: as inovações aplicadas em roupas para atletas, contribuindo para melhorar o desempenho em competições. "Com a nanotecnologia, podemos desenvolver novas matérias primas e novos processos", explica.

E na indústria automobilística que a nanotecnologia encontra a maior área de aplicação. Marcus Vinícius Aguiar, da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e responsável pela área de engenharia de produtos da Fiat, enumera itens de um veículo com nanotecnologia embutida: "Ela está presente nos motores de combustão interna, para reduzir a emissão de poluentes. Nos vidros eletrocrômicos, para controle da luminosidade dentro do veículo. Na superfície dos vidros, para impedir acúmulo de água e poeira, podendo dispensar limpadores. Na pintura, dando-lhe maior resistência. Nos pneus, que ganharam aderência. Nos estofados, que recebem tratamento antibáctericida".

MARCO REGULATÓRIO

Começam aqui a aparecer os contras. Essas inovações, por enquanto, só estão presentes nos automóveis importados, e de luxo. Nos fabricados no país, a nanotecnologia é apenas incipiente, comenta Aguiar, pois "falta uma plataforma de fornecedores e, além disso, o foco do mercado é o carro popular, com produção barata." Ele acredita que, no setor automotivo, essa tecnologia será introduzida gradativamente, começando pelos componentes eletroeletrônicos. "A nanotecnologia pode facilitar a reciclagem de componentes e ajudar na redução do peso total do veículo, diminuindo os níveis de emissão de gases poluentes e gastos com combustíveis."

O que mais tem retardado a adoção da nanotecnologia nos processos de produção tem sido a falta de um marco regulatório e de estudos que tornem mais seguros a pesquisa, a fabricação e o consumo de produtos nano-

tecnológicos. Marcelo Kós, da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), resumiu bem essa preocupação geral: "Falta uma regulamentação que defina o que é nanotecnologia. Hoje, tudo pode ser e tudo pode não ser. A nanotecnologia precisa ser uma solução segura, dentro das práticas de boa fabricação e da política de atuação responsável que preconizamos", afirma.

A questão da segurança também é preocupação de Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo, que sugere em todos os projetos de investimentos em nanotecnologia, que seja reservada uma parcela para estudos e avaliação de seus impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Daniel Minozzi, da Nanox, empresa pioneira no setor, considera natural o temor dos efeitos da nanotecnologia ao ser humano e ao meio ambiente. "O desconhecido é duvidoso e nanotecnologia é desconhecida para a maioria das pessoas. Na Nanox. sofremos com o retardo de lançamento de produtos pela falta de legislação e regulação específica. Talvez esse seja o preço do pioneirismo", diz ele.

Por se tratar de uma tecnologia emergente, não existem ainda padrões consensuais ao redor do mundo, o que torna o debate mais complexo. Nos últimos três anos, várias agências internacionais, organizações e governos passaram a elaborar recomendações, normas e procedimentos. Procuram chegar a uma definição na linha da Reach (cujo nome é formado pelas iniciais de registro, avaliação, autorização e restrição a produtos químicos - em inglês, registration, evaluation, authorisation e restriction -, os chemicals), conjunto de normas para produtos químicos na área da União Europeia, em vigor desde 2007.

RECEITA PARA AVANÇAR

Hoje, o Brasil precisa exportar 21.445 toneladas de minério de ferro ou 1.742 toneladas de soja para importar 1 tonelada de circuitos integrados. Com esta comparação, Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), defende a aplicação de novas tecnologias no processo industrial. Para sustentar o crescimento, diz ele, as empresas precisam diversificar sua produção e serviços, o que só ocorre quando há ampliação de suas competências.

Arbix informa que, para investimentos em nanotecnologia, de 2009 a 2011, a Finep liberou R$ 143 milhões para auxílio a instituições de pesquisa e desenvolvimento e universidades, sendo RS 104 milhões para projetos e R$ 40 milhões para subvenções a empresas. ¦

MAIOR EMPRESA DE NANOTECNOLOGIA BRASILEIRA QUER AM PU AR MERCADO

Em 2004, Gustavo Simões, André Araújo e Daniel Minozzi, pesquisadores" -graduandos de eletroquímica e cerâmica da Universidade São Carlos e da Universidade Estadual de São Paulo, decidiram passar da teoria à prática: transformar pesquisas em soluções para a vida cotidiana e oferecer tec nologia de qualidade às empresas brasileiras. Criaram então a Nanox, a primeira empresa de nanotecnologia do Brasil.

Sete anos depois, a Nanox é a maior empresa de nanotecnologia do país, com faturamento anual de mais de R$ 2 milhões e exporta 40% de sua produção. Seus 20 funcionários têm nível de graduação, mestrado ou doutorado, e dedicam 75% de seu tempo ao desenvolvimento de novos produtos e aplicações. A linha de produtos da empresa tem como característica a capacidade de matar microorganismos, como fungos e bactérias. Foi batizada de Nanox Clean e é aplicada aos mais diversos materiais: plásticos, vidros, cerâmicas, tintas e vernizes, por exemplo.

0 impulso inicial foi dado pela aprovação de um projeto para desenvolvimento de coatings, tintas destinadas a revestimentos nanoestruturados, dentro do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 0 segundo apoio importante veio com o aporte financeiro de uma empresa de capital de risco, por meio do fundo Novarum, em 2006.

Daniel Minozzi, diretor de negócios, afirma que difícil não foi inovar e criar uma linha de produtos. Difícil, segundo ele, tem sido conquistar o mercado. "As dificuldades iniciais ainda persistem, porque são poucos os setores que investem em tecnologias e apostas futuras. Agora, com a estabilização da economia, acreditamos que o perfil do empresário comece a mudar."

0 primeiro cliente da Nanox foi aTaiff, fabricante de secadores para cabelos e artigos similares. Ela escolheu o produto como um diferencial de seus aparelhos para evitar proliferação de bactérias durante o uso. Com a mesma finalidade, a tecnologia foi adotada nos bebedouros fabricados pela IBBC, nos materiais e equipamentos odontológicos da Dabi Atlante, na linha branca da multinacional mexicana Mabe, e na linha premium da General Electric.

"Passamos agora por uma reestruturação do foco do negócio. Queremos aumentar nossa capacidade comercial, com a transformação de soluções tecnológicas personalizadas em produtos que possam ser mais capitalizados e distribuídos ao mercado. Estamos finalizando a negociação com um grande player internacional, Interessado em distribuir mundialmente alguns de nossos produtos", diz Minozzi.

A empresa também desenvolve a aplicação de nanotecnologia antimicrobiana em embalagens de alimentos, com financiamento da Finep. Para iniciar o trabalho, foi necessário obter aprovação da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), que realizou rigorosos testes para comprovara segurança do produto. Os produtos da empresa também têm uso em centros cirúrgicos e outros locais onde a con taminação por microorganismos é grande. São clientes da Nanox alguns produtores de cerâmicas e revestimentos, tintas metais sanitários e instrumentos.

Para Minozzi, a mercado tende a se ampliar com o aumento da consciência da segurança que um ativo bactericida oferece. E, se o mercado nanotecnológico crescer, os resultados serão sentidos até na balança comercial brasileira.