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A Ciência em pauta

Publicado em 01 dezembro 2018

O Brasil é referência mundial quando o assunto é avicultura. Isso não é novidade para ninguém do setor. Os números produtivos e a enorme quantidade de mercados atendidos pela produção brasileira atestam a afirmação. Para tanto, diversos são os motivos, ou melhor, fortalezas para o sucesso da atividade aqui no País. O clima favorável e a abundância de matéria-prima de qualidade a um custo acessível são fatores determinantes, assim como a aplicação de tecnologia em todos os elos da cadeia. Porém, não são suficientes para explicar a relevância brasileira.

Como bem compara o gerente sênior de Categoria da DSM, José Maria Luvizotto Jr., a Argentina, mesmo com um custo de produção menor em relação ao brasileiro e com elevada tecnificação, apresenta índices zootécnicos inferiores. Qual a razão disso? “Além de o Brasil deter boas condições produtivas, o nosso diferencial é o know-how”, ele responde. Então, ao afirmar que a avicultura brasileira é referência no mundo, os milhares de profissionais envolvidos merecem ser destacados. Nesse sentido, os recursos humanos e a ciência nacional ganham relevância, aponta o executivo.

Contudo, há ainda muito a evoluir neste campo, ele reconhece. Para isso, cooperação é fundamental, tan- to interna quanto externa. Deste modo, a cidade de Campinas, no interior paulista, recebeu entre os dias 6 e 8 de novembro a segunda edição da Conferência Científica da Associação de Ciência Avícola (PSA, a Poultry Science Association) na América Latina. No total, foram cerca de 500 inscritos, oriundos de 20 diferentes países. Com o objetivo de “conectar a comunidade global de avicultura”, foram três dias de extensa programação científica, apresentação de novas tecnologias e exposição de projetos acadêmicos. “É um marco”, define José Maria. “Estou na indústria avícola há mais de 30 anos, e me lembro de receber os abstracts da Poultry Science no passado, além de participar dos encontros nos EUA. Muito enriquecedor. E agora, saber que temos um evento como esse, alcançando a segunda edição aqui no Brasil, é uma ótima oportunidade para o setor”, argumenta.

CRIANDO CONEXÕES. Uma maior aproximação com a comunidade científica estrangeira é fundamental, porém, como conta o presidente do comitê organizador, José Otávio Sorbara, a avicultura brasileira precisa trabalhar primeiramente sua comunicação interna. “Uma atuação conjunta entre as universidades, empresas e institutos de pesquisa de diferentes Estados e regiões é imprescindível”, ele aponta.

Assim sendo, esse foi um dos principais objetivos da reunião em Campinas. O tema ganhou ainda mais importância no evento devido aos recursos públicos para pesquisas estarem cada vez mais escassos. “Em São Paulo temos a Fapesp, uma agência muito forte. Contudo, essa não é a realidade no restante do País. Então, é importante entender as características e dificuldades de cada região”, sugere Sorbara. José Maria, um dos palestrantes do evento, também tocou no tema em sua fala. Segundo o gerente, essa combinação de forças é muito importante, ainda mais levando em conta o contexto da América Latina. “Na região, existem muitos países onde não existe financiamento público de pesquisa, então, diante disso, a iniciativa privada tem uma função muito importante”. O presidente da PSA e também professor na Universidade do Arkansas, Billy Hargis, participou da discussão e contou aos presentes o modelo adotado nos Estados Unidos. Segundo ele, academia e indústria trabalham em conjunto, realizando pesquisas realmente aplicáveis. “Transformar ciência em negócio”. Assim Rafael Hermes resume o objetivo do encontro.

O profissional, gerente de Inovação e Ciências Aplicadas da DSM para a América Latina, participou de um dos sete simpósios dentro da programação do evento. Sob o tema “Ensaios Científicos de Campo – Ponto de Vista da Indústria e Academia”, a atividade reuniu membros de agroindústrias, como Aurora e JBS, pesquisadores e profissionais da indústria de insumos. Nesse contexto, a pesquisa financiada pela iniciativa privada foi destacada, conta Rafael: “Tentamos apresentar essa experiência da ciência aplicada. Um pesquisador de empresa não pode divagar, precisa ser direto, pois a companhia precisa aproveitar o mais rapidamente possível os resultados encontrados”. Esta mensagem é de fundamental importância aos estudantes presentes. Sendo 38% do total do público composto por eles, Billy Hargis destacou a importância do contato direto entre estudantes, pesquisadores e profissionais do setor oportunizado pela Conferência. “Queremos apoiar a próxima geração de cientistas, que conduzirá essa indústria maravilhosa para a prosperidade”, discursou. Ele também citou a carência de profissionais capacitados em diversos países.

O presidente do comitê organizador, José Otávio Sorbara, relaciona ambos os temas e corrobora a afirmação: “O Brasil forma muitos profissionais, mas precisam ser bem treinados. Então, uma das propostas da Poultr y Science é mostrar aos estudantes que existem opor tunidades no exterior”, confirma e completa: “Independente se é brasileiro, suíço, alemão, boliviano ou paraguaio, se a pessoa é boa, terá espaço no mercado. O estudante precisa entender isso. Por isso nos esforçamos em conectar as pessoas”. Uma iniciativa para ilustrar o discurso é a apresentação dos trabalhos científicos durante o evento, onde o inglês é obrigatório. “Procedemos assim para forçar o idioma mesmo, para mostrar aos estudantes que é um conhecimento imprescindível para buscar uma vaga fora do País”, explica Sorbara. No total, de acordo com o presidente do comitê organizador, foram 250 inscritos, os quais abordaram uma ampla e vasta área do conhecimento de avicultura, desde nutrição até bem-estar animal, passando por problemas esqueléticos e desenhos experimentais.

CONSUMIDOR EM PRIMEIRO LUGAR. Pensando também na integração da comunidade científica internacional, temas de interesse global foram amplamente debatidos na Conferência. O principal deles, talvez, seja a redução do uso de antibióticos na produção animal. Tanto que um simpósio inteiro foi dedicado ao tema: “A Ciência que permitiu a produção livre de antibióticos acontecer e as implicações”. “Muitos acreditavam que na América Latina seria impossível para alguns países abordarem o tema. E já estamos nos deparando com várias tentativas do uso racional das substâncias, mesmo sem a exigência da legislação. Sem dúvida se trata de um tema global hoje”, conta Adriana Nascimento, gerente Técnica para América Latina da Alltech, companhia patrocinadora do evento. Desta forma, o simpósio contou com palestras de pesquisadores dos Estados Unidos e Canadá, os quais compartilharam a experiência e as implicações na cadeia produtiva.

“Eles trouxeram informações sobre as implicações na cadeia produtiva e o que foi preciso para se adequar e tornar a produção livre de antibióticos uma realidade. Os pilares da produção animal – manejo, nutrição e sanidade – precisaram ser alterados”, conta Adriana, e completa: “Assim como as pesquisas, elas precisaram passar por alterações para serem aplicadas à produção”. Transformação motivada pelo consumidor, a ideia central do simpósio foi reunir profissionais de todas as áreas da cadeia para, em conjunto, entender para qual direção o setor deve caminhar, destaca a gerente Técnica. Diante do público do encontro, a área da ciência teve um destaque. “Hoje, a ciência deve ser completamente aplicável”, discorre Adriana, e continua: “Para isso, precisamos ter uma maior união. Estamos trabalhando separados e necessitamos nos unir. Um encontro como esse é fundamental, pois precisamos compartilhar conhecimentos, esse é o caminho para o setor como um todo ser mais produtivo e gerar novidades de maneira mais rápida”.

SUPERANDO CONFLITOS. A evolução da indústria avícola e o papel central da ciência nesse contexto são evidentes. Hoje, a produtividade da atividade é totalmente diferente da criação do passado. Contudo, como ocorre com a utilização de antibióticos de forma racional na produção, as necessidades do consumidor vêm indicando as tendências. “Ainda que algumas dessas representem nichos, como alimentos orgânicos, é preciso encarar essas informações como um sinal de que o mercado está caminhando nesse sentido”, pontua José Maria Luvizotto. Em sua palestra, o gerente discorreu sobre o consumidor não se contentar em saber apenas o que tem no prato. “Ele quer saber a origem, como foi produzido, o que o animal comeu. Há uma preocupação crescente com o bem-estar durante a produção”, informa e completa: “As pessoas não querem se sentir responsáveis por maus tratos aos animais.

A indústria precisa estar atenta a isso”. Então, temas amplamente abordados em discussões, eventos e simpósios, como ganho de peso e conversão alimentar, relacionados à produtividade, estão deixando de ser os assuntos principais. Diante disso, é fundamental entender que algumas dessas tendências não vão em linha umas com as outras. “Existem conflitos”, determina José Maria. “E isso precisa ser esclarecido”. Combinar fatores torna a situação ainda mais complexa. Mas não existe outro caminho. “Os pesquisadores precisam ter isso em mente”, garante e afirma José Maria: “Não podemos nos dar ao luxo de seguir uma ou outra.

É fato: a cadeia precisa produzir na qualidade desejada, com eficiência e atender às exigências do consumidor”. Então, para as companhias do setor, é primordial ter ciência dessas informações, como os anseios do consumidor. “Hoje, uma empresa não traça seu planejamento pensando apenas no próximo ano. O projeto deve contemplar os próximos cinco ou dez anos. Por isso é fundamental estar alinhado às tendências de consumo”.