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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

A ciência em defesa da vida marinha

Publicado em 05 fevereiro 2009

A escassez de informações sobre a biodiversidade do litoral paulista tem prejudicado a proteção a muitas espécies em risco de extinção. Animais de importância comercial, entre eles o caranguejo-uçá, o camarão-rosa, o camarão-sete-barbas e algumas variedades de tubarão, são pescados em abundância. Especialistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolvem pesquisas sobre fauna marinha que, além de fornecerem conhecimento sobre diversos organismos, auxiliam na adoção de normas de exploração sustentável e conservação.

Um exemplo desse esforço foi o trabalho de descrição, identificação e classificação de crustáceos, realizado entre 2001 e 2003, na costa de São Sebastião, Caraguatatuba e Ubatuba, no litoral norte do Estado de São Paulo. O levantamento foi coordenado pelo docente Adilson Fransozo, do Instituto de Biociências (IB), câmpus de Botucatu, como parte do Projeto Biota, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "O litoral norte é uma região rica em ilhas e enseadas, que promovem ambientes propícios ao desenvolvimento das espécies", diz o professor.

A afirmação vem de pesquisa realizada por uma equipe de cerca de 20 pesquisadores, que vasculhou pontos determinados por satélite, coletando amostras de crustáceos, como siris, caranguejos, lagostas e camarões, numa profundidade de até 45 metros.

Os resultados do empreendimento integram o Manual de identificação dos invertebrados marinhos das Regiões Sul e Sudeste do Brasil, no qual o docente do IB foi responsável pela descrição, identificação e classificação de crustáceos no litoral paulista. A publicação corresponde ao volume 2 da série Manual do Biota, e será publicado pela Editora da USP.

Além do livro, o levantamento vem tendo desdobramentos mais recentes. Em parceria com a equipe de Fransozo, um estudo promovido pelo professor Rogério Caetano da Costa, da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru, levou à modificação das normas sobre o período de defeso, ou seja, de proibição de pesca, de camarões do Litoral Norte.

Em 2006, uma norma do Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (Cepsul) estabeleceu os meses de março a maio para o defeso dos camarões-rosa (Farfan-tepenaeus brasiliensis e F. paulensis), e o período de outubro a dezembro para as demais espécies do crustáceo, como o camarão-branco (Litopenaeus schmitti) e o camarão-sete-barbas (Xipho-penaeus kroyeri).

Após dois anos de coletas, Costa, o pós-doutorando Antonio Castilho e outros pesquisadores da FC concluíram que essa separação de defesos prejudica o desenvolvimento dos animais. Eles verificaram que, no litoral norte, os camarões das espécies rosa e branco terminam sua fase juvenil de forma diferente de outras regiões, como o litoral sul paulista e a costa de Santa Catarina.

Nesses outros locais, as duas espécies atingem a fase adulta em áreas de estuários (braço de mar formado na desembocadura de um rio). No litoral norte, o fim da fase juvenil de camarões das espécies rosa e branco acontece em baías e enseadas, onde o camarão-sete-barbas é intensamente explorado, sendo Também capturados.

A partir dessas constatações, Costa e seu grupo propuseram a unificação do defeso no litoral norte para o período de março a maio. A sugestão foi aceita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e virou norma em 2008.