Notícia

Jornal da Tarde

A Ciência e os gargalos externos

Publicado em 28 maio 2000

Por WASHINGTON NOVAES
Anuncia-se que no próximo dia 5 estará sendo lançado, pelo Ministério do Meio Ambiente e pela Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional, o documento Agenda 21 Brasileira - Bases para Discussão, que em seguida será levado à _ discussão em todas as capitais brasileiras, para que, ao final, se tenha uma proposta de Agenda 21 para o País. Não poderia ser mais oportuna a discussão. Um dos pontos fortes do documento - que é fruto de seis diagnósticos setoriais, discussões regionais e um workshop nacional em Brasília - é exata-mente o diagnóstico sobre a área de ciência e tecnologia (C&T). E a discussão ocorrerá exatamente no momento em que voltam ao noticiário informações e comentários sobre as dificuldades de o Brasil aumentar suas exportações, por falta de competitividade, de inovação tecnológica - a ponto de já se reduzirem de US$ 4 bilhões para US$ 2 bilhões as previsões sobre o saldo da balança comercial este ano e de serem abandonados as pretensões de em dois anos dobrar as vendas ao exterior, para US$ 100 bilhões. O diagnóstico sobre C&T no Brasil, que consta do documento, além de realçar o baixo investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento - muito inferior ao dos países industrializados, com uma porcentagem muito menor de um PIB também muito inferior -, destaca a falta de verdadeira inovação tecnológica no País, já que aceitamos um aprendizado passivo, que quase sempre apenas reproduz inovações já obtidas em outros países, frequentemente já superadas (e por isso libertadas para mercados). Além disso, o País recorre com freqüência ao que o diagnóstico - baseado nessa parte em estudos do professor Eduardo Viotti - chama de "competitividade espúria", fundada em um ou mais dos seguintes fatores: - baixo custo da mão-de-obra; - baixo custo de matérias-primas; - exploração predatória de recursos naturais; - proteção e/ou subsídios. Reitera-se, assim, advertência, já contida no Relatório sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil (Pnud, 1996), sobre a falta de competitividade internacional da economia brasileira, suprida parcialmente pela sobre exploração predatória de recursos naturais - insustentável a prazo maior - ou pelo recurso à mão-de-obra barata, também inviável a médio prazo, porque o custo costuma subir e porque surgem no cenário externo competidores capazes de oferecer trabalho ainda mais barato. O diagnóstico sobre C&T das bases para discussão de uma Agenda 21 brasileira reitera esses pontos, assim como a insustentabilidade de políticas de subsídios. Lembra as dificuldades adicionais decorrentes do analfabetismo funcional de grande parte dessa mão-de-obra, já comentadas neste espaço. E, quanto ao custo aviltado dessa mão-de-obra, pergunta se vale a pena entrar numa competição pela miséria, e não pelo verdadeiro desenvolvimento. As notícias mais recentes sobre as dificuldades de competir no cenário externo confirmam esse diagnóstico. Uma pesquisa sobre os investimentos diretos recentes do capital estrangeiro no País mostra que 75% desses fluxos se destinam a serviços e infra-estruturas internas, sem reflexos positivos nas exportações. E mesmo os investimentos no setor industrial têm como alvo melhorar a posição no mercado interno. Outra pesquisa, da Fundação Seade, feita em sete Estados, evidencia que mesmo empregados de nível superior apresentam deficiências de conhecimento, dificuldade de se comunicar por escrito e trabalhar em equipe, problemas graves* na utilização de matemática básica. Não estranha, assim, que o presidente do BNDES, Francisco Gros, manifeste preocupação com a crescente participação das transnacionais no déficit do balanço de pagamentos, decorrente em parte das remessas de lucros e dividendos (estimadas este ano em US$ 5 bilhões), em parte do crescimento de suas importações, sem aumento equivalente das exportações. As importações passaram, de 1989 a 1999, de US$ 1,4 bilhão para US$ 5,8 bilhões (mais 314%), enquanto as exportações só cresceram 53% (de US$ 3,8 bilhões para US$ 6,2 bilhões). Em janeiro do ano passado, editorial deste jornal já advertia quanto à necessidade de aumentar rapidamente os investimentos em C&T, para chegar, pelo menos, ao nível dos países que têm mais êxito no cenário internacional - se pretendei continuar apostando nesse, rumo. Lembrava também que as empresas não podem seguir com a baixa participação nesses investimentos que historicamente se registra, naquele momento avaliado em pouco mais de um terço do total de investimen-: tos em pesquisa (contra 49% das universidades e 17% de órgãos governamentais). As advertências continuam válidas. Se não se quer chegar em breve a novos gargalos no setor externo, novas crises, essa equação terá de ser resolvida. E as discussões sobre a Agenda 21 - levadas a sério pelos governos e pela iniciativa privada - podem ser uma excelente oportunidade. Washington Novaes é jornalista E-mail: novaes@ih.com.br