Notícia

Globo Rural

A ciência da boiada

Publicado em 01 março 2009

Uso de tecnologias de ponta como a dos marcadores moleculares acelera a produção de animais com as características desejadas

 

Os marcadores moleculares, por meio dos quais é possível mapear o DNA do boi e identificar quais genes transmitem características importantes para a produção de carne, vem sendo usados no Brasil há dois anos. Em Uberaba, a grande vitrine da genética zebuína, eles convivem com outras técnicas avançadas, como a de reversão do sêmen, e agora se fala até em marcadores para sêmen e embriões. A cidade mineira fervilha com os preparativos para a Expozebu 2009, que se realizará de 28 de abril a 10 de maio. Crise não é palavra corrente por lá. Na primeira quinzena do mês passado, marcas famosas como Naviraí, Mata Velha, Sant'Anna e Matinha assistiram à chegada da AgroZuri-ta, é, Ivan Zurita, que comprou, de "porteira fechada", a estampa Cedro de nelore. Os marcadores moleculares são considerados por unanimidade um marco no desenvolvimento da pecuária nacional. José Luiz Niemeyer dos Santos, 70 anos, 50 deles vividos como protagonista do grande salto de qualidade dado pelos zebuínos, aposta neles para colher bons resultados rapidamente. Até leilão de tourinhos avaliados por marcadores ele já promoveu com sucesso, em meados de 2008. Divulgou a técnica e ganhou dinheiro. Já outro papa do aperfeiçoamento genético do nelore, Claudio Sabino Carvalho, 63 anos, bom mineiro, conserva um pé atrás. Como Niemeyer, ele é fiel à ciência. Tem vários touros avaliados por marcadores, mas teme o uso da tecnologia como modismo. Claudio, pe-cuarista que acompanha dentro dos currais e piquetes do nascimento ao crescimento do seu gado, diz que a tecnologia é sim muito importante, mas o olho do dono também é.

Luiz Antonio Josahkian, superintendente técnico da ABCZ - Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, sediada em Uberaba, afirma que "os passos da ciência são irreversíveis, e a tecnologia dos marcadores moleculares é fantástica". Mas concorda com Cláudio. Em sua opinião, unir a técnica com a experiência ainda é o melhor caminho para o aprimoramento do rebanho: "A percepção do homem permite visualizar o animal no seu todo, enquanto a ciência, no caso dos marcadores, com-partimenta". Josahkian explica: "O DNA (o código genético em forma de espiral) de cada animal a-presenta marcas, variações ou mutações únicas, que permitem distinguir um animal do outro, no ní-vel genético-molecular. Parte dessas marcas estão associadas a características de produção; outras, a doenças genéticas, e assim por diante. Um animal que carrega a marca para maior capacidade de crescimento, por exemplo, transmitirá esses atributos para seus descendentes. Uma vaca que carre-ga a marca da fertilidade, transmitirá fertilidade".

Os marcadores moleculares foram desenvolvidos nos Estados Unidos. A análise do DNA geralmente é feita a partir de pelos coletados da cauda do bovino. Com base nos resultados, o fazendeiro poderá saber logo após o nascimento de uma fêmea, se ela apresenta potencial genético para produzir mais bezerros ao longo da sua vida reprodutiva. Ou identificar, na fase de bebê, a eficiência alimentar futura de um animal. Os marcadores permitem ainda que características da carne, até hoje consideradas "invisíveis", como a maciez e o marmoreio, sejam mapeados, o que daria aos criadores segurança para efetuar a seleção com base no potencial para produção de carne de qualidade. Na pecuária de leite, será possível saber se um animal será bom de leite no mesmo dia em que nasce. Dessa forma, não é necessário esperar o bezerro crescer e começar a produzir. Importante: no caso do leite, as explicações vieram de um pecuarista goiano satisfeito com os frutos dos marcadores em sua propriedade. Seu nome é Gilmar Cordeiro, da fazenda Iporê, em Goiânia. Ele seleciona gir leiteiro. Concorda, portanto, com Niemeyer.

A "revolução" inicial no sentido de melhorar o gado nacional usando técnicas de reprodução aconteceu com o advento da inseminação artificial nos anos 60. "Foi o primeiro e grande passo", observa Josahkian, à medida que permitiu a democratização da qualidade. Depois, chegaram a transferência de embrião (TE), a fertilização in vitro (FIV), sendo que essa última assegurou a multiplicação de bezerros em laboratório. Se é possível apenas um animal nascer de inseminação artificial ou de monta natural a cada ano, a FIV permite que até 50 crias sejam produzidas. Mas, atenção: "O marcador molecular é uma ferramenta a mais para o melhoramento do gado zebu e europeu. Não substitui e sim complementa outros testes de melhoramento genético, como as consolidadas DEPs (Diferenças Esperadas nas Progénies)", explica Guilherme Gallerani, coordenador de pecuária de corte da Merial Saúde Animal, empresa que trouxe ao Brasil o projeto Igenity e o lançou comercialmente em 2007. Uma das  diferenças positivas para quem usa o marcador são os resultados, que saem antecipadamente e permitem o planejamento das ações. Hoje, o animal tem de nascer, crescer, confinar, abater, para só então medir a qualidade de sua carne, o que pode durar oito anos. No caso do gado nelore, já estão sendo validadas características de difícil mensuração como os genes da longevidade, da cobertura de gordura, da maciez de carne, do peso de carcaça e da musculosidade.

Em Uberaba, a fazenda Naviraí, de Cláudio Sabino Carvalho, fica a 15 minutos do centro da cidade. Dificilmente quem se dirigir à propriedade vai deixar de encontrá-lo por lá sempre no meio do gado nelore ou do guzerá. Seja autoridade, professores, alunos ou outros colegas fazendeiros, ele acompanha pessoalmente as visitas. Faz questão de explicar minuciosamente o trabalho de seleção de décadas. A Naviraí tem 30 touros em centrais uberabenses. São animais de grande porte, ou de menor tamanho e "melhor produção de carne", como o Tecelão, reprodutor de nove anos de idade que está em coleta na empresa de inseminação Alta. Tecelão produziu 40 mil doses de sêmen em 2008. Cláudio valoriza o bicho de menor porte, menos comprido, como Tecelão. Ele acha que é o tipo ideal e que irá preponderar no futuro. "Eu não gosto dos reprodutores grandes e compridos que a gente vê nos julgamentos em exposições. O meu foco é na carcaça, já que boi para mim tem de produzir carne." Ele diz que o instrumento mais adequado para o melhoramento genético continua sendo as DEPs. Mesmo depois que tiverem sua acurácia comprovada, os marcadores moleculares serão ferramentas para as DEPs, afirma o fazendeiro, cujo foco é a venda de cerca de 500 tourinhos e 500 vacas anualmente. Seus touros de central produziram mais de 170 mil doses de sêmen no ano passado.

A Alta, empresa de inseminação artificial que acolhe os touros de Cláudio, é o espelho da boa fase que a pecuária vive em Uberaba. A Alta colocou no mercado mais de 2 milhões de doses de sêmen de corte e de leite em 2008. É um recorde e a empresa acredita que irá vender mais sêmen neste ano. Na contramão da economia atual, está preparando 60 novos vendedores para reforçar sua equipe, que já conta com 460 profissionais. Dos novos, 30 vão para as fazendas de gado de corte e a outra metade para as propriedades leiteiras. No total, são nove as empresas que comercializam genética em Uberaba. Há também laboratórios, como o BioVitro, que recentemente inaugurou uma filial em Brasília e vai abrir outra na Bahia. Seu diretor, Patrick Villa Nova, informa que já está operando com a nova "vedete" da biotecnologia de reprodução, que é a sexagem de sêmen revertido. "Ela consiste em descongelar o sêmen de animais já mortos e efetuar a sexagem (fêmea ou macho), um procedimento complicado, já que o sêmen depois de congelado tem a sua manipulação dificultada", explica Patrick. Fazendas de criação, verdadeiras grifes do zebu, são quase 30 espalhadas pelas rodovias próximas a Uberaba. Adepto fervoroso das novidades, José Luiz Niemeyer dos Santos tem fazenda em Guararapes, no noroeste paulista, mas possui representação em Uberaba e é promotor de um dos principais leilões da ExpoZebu. Dono de plantel de 400 matrizes puras de origem, ele usa diversas tecnologias reprodutivas, como inseminação artificial, transferência de embriões, FIV e sexagem. Em 2007, Niemeyer incorporou os marcadores moleculares e considera que deu um passo decisivo na seleção. No ano passado, o fazendeiro promoveu um leilão em Araçatuba e vendeu 84 tourinhos já "marcados" por uma média que considerou excelente: 8,5 mil reais. Era conhecida de antemão a capacidade de todos os jovens animais transmitirem suas características. Não sobrou nenhum na pista.

Proprietário da fazenda Sant'Anna, nos arredores de Uberaba, o pecuarista Jovelino Mineiro foi um dos financiadores do chamado Genoma Funcional do Boi, projeto montado em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o que o tornou pioneiro no desvendamento do genoma do nelore. Orçado em 1 milhão de dólares, o trabalho tinha por objetivo "identificar genes que pudessem ser utilizados paia melhorar a qualidade da carne". Corria o ano de 2003 e Jovelino declarou então que "as informações obtidas podem servir de base para marcadores genéticos, medicamentos e outros produtos." É o que está acontecendo. Ele tem propriedades ainda em Rancharia e Pardinho (Central Bela Vista), no interior paulista, e mantém em Uberaba um show room de seu rebanho apurado de brahman. Jovelino, além de criar brahman, nelore e brangus, vende cerca de mil tourinhos por ano.

Segundo Luiz Roberto Furlan, professor da Unesp de Botucatu, que mantém um convênio científico com a Central Bela Vista, as DEPs foram e continuam sendo "importantíssimas" para o salto de qualidade experimentado pelo gado zebuíno nos últimos anos, pois elas colaboraram para tornar a carne brasileira altamente competitiva. "Mas só as DEPs não bastam, pois elas não analisam, por exemplo, a maciez da carne", diz.

"Eu não tenho outro ramo de atividade. Ganho o dia a dia na fazenda." As afirmações são de um uberabense de cepa, Mário de Almeida Franco Júnior, 62 anos, titular de uma legenda da criação de guzerá, a Organização Mário Franco, iniciada por seu pai há 72 anos. Além do guzerá, ele seleciona nelore. A inseminação artificial é utilizada desde 1970 e mais tarde a fecundação in vitro veio acelerar o trabalho de modernização do rebanho. Mario diz que a fertilização in vitro opera o "milagre" de resumir um trabalho de 50 anos de seleção em cinco anos. "Mas nada se consegue em termos de qualidade e produtividade se essa tecnologia moderna não estiver acoplada à tradição e à história", afirma Mário.

Muitos estudiosos acreditam que os avanços científicos na área do melhoramento genético do gado estão um pouco à frente em relação ao do homem. Outros consideram as passadas parelhas. O certo é que o interesse pela sequência genética, no caso do ser humano, é focado na elucidação de características ligadas a doenças hereditárias. Já no boi, a investigação quer revelar dados de produção, como os de qualidade da carne e do leite.        

Arca de noé

A Embrapa Recursos Genéticos e % Biotecnologia, de Brasília, realiza Sa concorridos dias de campo para apresentar as experiências tecnológicas que faz, seja na pecuária ou na agricultura. Em 2008, a vaca simental Vitória da Embrapa, primeiro clone feito na América Latina, foi uma das principais atrações do evento chamado "Passado, presente e futuro das biotecnologias da reprodução". Foi a Embrapa que produziu o clone. Rodolfo Rumph, coordenador do projeto, informa que os primeiros experimentos com clonagem foram feitos na década de 90. Para Rodolfo, o Brasil deve e pode ter o domínio da tecnologia de ponta, como a clonagem, os marcadores moleculares e  FIVS. Ele anuncia uma parceria da Embrapa com o selecionador Jonas Barcelos na construção de um laboratório em Uberaba, que vai trabalhar com diversas tecnologias, inclusive a clonagem. São escassas as parcerias firmadas entre órgãos de pesquisa e o setor privado no Brasil, diferentemente do que ocorre nos países mais avançados. "O Brasil é o maior exportador de carne. Tem área, tem raças, tem gente qualificada e agora ferramentas tecnológicas de ponta que aceleram o desenvolvimento genético do rebanho", diz Rodolfo.

No dia de campo, Vitória não estava só. A Embrapa mostrou ainda a holandesa Lenda, outro clone, nascido em 2003. É o primeiro animal clonado no Brasil a partir de células ovarianas de um bovino que já morreu. Lenda foi exposta junto de sua "família" de clones, que está na terceira geração. E alguém já ouviu falar da raça de boi Junqueira, que se encontra em risco de extinção no Brasil, segundo a Embrapa? Pois estavam lá Porá e Potira, duas fêmeas da raça nascidas em 2005. Informações pelo tel. (061) 3448-4770.

Revista Globo Rural – Matéria de Capa – 01/03/2009 – Págs. 30 a 37