Notícia

Jornal da USP

A ciência contra o mal asiático

Publicado em 14 abril 2003

Por DANIELA PINTO SENADOR
Febre alta acompanhada de calafrios, cefaléia, dor muscular e tosse seca. Em pouco mais de uma semana, dificuldade respiratória muito intensa. A princípio, os sintomas poderiam sugerir qualquer outra doença já conhecida que possui tratamento. Mas eles estão longe de caracterizar uma pneumonia comum, que pode ser prevenida com uma vacina específica. A pneumonia asiática ou pneumonia atípica, como foi denominada a síndrome respiratória aguda grave (Sars), tem um grande diferencial: em menos de 15 dias o paciente pode apresentar insuficiência respiratória aguda, que exige entubação e ventilação mecânica e é capaz de levá-lo à morte. Nas últimas semanas, notícias sobre a Sars tomaram conta de jornais do mundo todo. O motivo: cada vez mais são identificados pacientes suspeitos de terem contraído a doença em diversos países. Os últimos dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmam que foram registrados 2.722 casos suspeitos e 106 óbitos, ou seja, 3,9% desses casos. Dos 17 países onde a Sars já foi identificada, China, Estados Unidos e Canadá lideram o ranking dos que possuem maior número de suspeitos: 2.269, 149 e 94, respectivamente. O maior foco da doença continua a ser a província de Guangdong, na China, onde possivelmente se originou a doença. Infelizmente, o Brasil também se inclui nessa lista de países. Por enquanto foram detectados dois pacientes suspeitos que, antes de chegarem ao País, passaram pelo Sudeste Asiático: uma jornalista inglesa que foi cobrir o Grande Prêmio de Fórmula 1 e estava internada no Hospital Albert Einstein, na zona sul da capital, e um menino de quatro anos que passou um mês em Guangdong e está internado no Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas. Muitas interrogações sobre a doença preocupam cientistas do mundo inteiro, pois, mesmo em face a tantos casos suspeitos, não se sabe ao certo como comprová-los e, principalmente, como combatê-los de modo eficaz. As pesquisas ainda estão em fase de testes, mas é possível que, mais rápido do que se imagine, a USP tenha a resposta, ao menos para uma dessas perguntas. Diversos pesquisadores da Rede de Diversidade Genética Viral da Fapesp estão desenvolvendo um método para detectar rapidamente a doença. O que se sabe é que a pneumonia asiática é causada por um vírus muito semelhante ao coronavírus, responsável por resfriados e doenças respiratórias leves e moderadas em seres humanos. Tendo conhecimento disso, os pesquisadores obtiveram as informações genéticas (seqüências de aminoácidos que compõem o RNA do vírus — nos coronavírus, a informação está no RNA, e não no DNA — e são diferenciados simbolicamente pelas letras A, C, G e U) de diversos coronavírus e estão fazendo comparações entre elas para, assim, descobrir quais deles estão mais próximos do verdadeiro causador da doença. "Nós pegamos, na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, diversos estoques de coronavírus que infectam animais e aves e estamos testando diferentes combinações de protocolos de amplificação da informação genética viral (primers)", explica o virologista Paolo Zanotto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e coordenador da Rede de Diversidade Genética Viral da Fapesp. Para comprovar se o experimento realmente deu certo, seria necessário testá-lo em algum paciente contaminado da seguinte forma: "Nós pegamos a secreção mucosa do aparelho respiratório do paciente e adicionamos trizol, uma substância que ajuda a desmontar o vírus e preserva o RNA viral. Depois de concluída a purificação desse RNA, é feita a reação de amplificação e o seqüenciamento dos produtos de PCR (reação em cadeia da polimerase)", diz o virologista. Essa seqüência, posteriormente, será comparada com a seqüência descoberta pelos pesquisadores em laboratório e, assim, em um dia é possível descobrir se o paciente é positivo ou não. Mas, por enquanto, apenas o Instituto Adolfo Lutz, da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, cujo Serviço de Virologia é um centro colaborador da OMS, está autorizado a diagnosticar o agente etiológico da Sars, pois ele atende a todas as precauções de segurança do protocolo do Center for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos. Os médicos também precisam estar devidamente equipados, pois correm o risco de ser infectados. O especialista da OMS Carlo Urbani, primeiro médico a identificar o vírus da Sars, foi vítima da doença e faleceu em Bangcoc, na Tailândia. Ao contrário do que vem sendo amplamente divulgado pela imprensa, Zanotto afirma que esse vírus não infecta baratas, portanto não são elas as responsáveis pela sua disseminação: "Quando se monta a seqüência de aminoácidos do vírus que causa a Sars, percebe-se que ele está mais próximo dos vírus que infectam aves ou de um recombinante destes. Só não comprovamos isso ainda porque não temos a seqüência completa do genoma, mas não deveríamos considerar a hipótese de que a barata é transmissora", ressalta. O que se sabe é que, para contrair a doença, basta ter contato com alguém contaminado, pois a principal forma de transmissão é através de gotículas de saliva. Como é muito difícil identificar de imediato uma pessoa infectada, Zanotto faz duas recomendações importantes: lavar as mãos várias vezes ao dia e evitar o contato da ponta dos dedos com mucosas do nariz e da boca. Afinal, já que ainda não se descobriu como remediar, é melhor prevenir. Portanto, para quem pretende viajar agora para algum país do Sudeste Asiático, é melhor adiar a data de embarque pelo menos por um mês, segundo o virologista, para saber ao certo como os fatos irão se desenrolar. Caso contrário, ele alerta que o risco de contaminação é muito grande. "Estamos em um momento de ansiedade e antecipando um evento que se espera que não aconteça. É uma postura adequada agir de forma proativa, tentando se preparar para uma possibilidade não muito boa do desdobramento dessa situação." Zanotto não concorda com a hipótese de que esse vírus tenha sido modificado em laboratório propositadamente para se tornar uma arma biológica. "São especulações que temos que desconsiderar", diz. Com o objetivo de informar e prevenir a população da pneumonia asiática, a professora Maria Lúcia Racz, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da USP, criou uma página eletrônica em que constam as perguntas mais freqüentes sobre a doença e diversos links para outros sites relacionados ao assunto, como o da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). O endereço é http://icb.usp.br/~mlracz/SARS/SARS.htm.