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Correio Popular

A ciência consegue decifrar o 'livro da vida'

Publicado em 28 junho 2000

Por WAGNER DE FREITAS - wagner@cpopular.com.br
O século 20 foi o da Física, mas a ciência que deve revolucionar o mundo no século 21 é a Biologia. No rol dos avanços científicos aguardados para o próximo milênio, é a Biologia (mais precisamente a Biologia Molecular) quem oferece as promessas mais esperadas pela humanidade, como as sonhadas prevenção e cura do câncer ou o controle total das diversas doenças que têm origens em falhas genéticas. Quem desenha essa possibilidade dentro da Biologia Molecular é o Projeto Genoma Humano, talvez a mais importante e badalada empreitada científica do mundo na atualidade. Criado no início da década de 90, com financiamento público de mais de US$ 3 bilhões e envolvimento de centros de pesquisa de quase 20 países - entre eles centros de pesquisa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) -, o Projeto Genoma tem a tarefa de mapear até o ano de 2003 todo o código genético humano, ou seja, decifrar o DNA e identificar todos os genes que existem no organismo. Os genes compõem o genoma humano e estão reunidos em 23 cromossomos. São formados por seqüências de DNA (molécula que reúne todas as informações necessárias para a "construção" de um organismo) e têm participação fundamental na vida humana. São os genes que produzem as proteínas que determinam funções que vão da cor dos olhos à força física, da propensão ao alcoolismo ao que deixa as pessoas diferentes e até, no nível de inteligência dos indivíduos. No conceito central da Biologia, as proteínas determinam tudo no corpo humano, desde sua estrutura à função de cada parte do organismo. Da mesma forma, genes com "defeito" podem produzir proteínas em excesso ou com falhas que causam diversas doenças, entre elas o câncer, um mal crônico-degenerativo que mata cerca de 5 milhões de pessoas em todo o mundo - mais de 100 mil delas só no Brasil -, segundo estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que o organismo humano é composto por um número de genes que varia de 80 mil a 140 mil. Eles estão localizados entre cerca de 3,5 bilhões de pares de bases que formam o DNA. Apenas 3% desses pares de bases formam genes que codificam e produzem proteínas. Os 97% restantes não têm função definida. Numa analogia bastante usual, se o genoma humano fosse um livro com tudo sobre a vida e as funções do organismo, os cromossomos seriam os capítulos, os genes as frases e o DNA, as palavras. Eles constroem a vida. Todas as células humanas contêm os mesmos genes. Só que em determinado lugar, as células expressam uns, e em outro lugar, expressam outros. Para entender as células dos músculos, as células do pé ou do sistema nervoso central, por exemplo, é necessário entender qual é a diferença de expressão gênica entre eles. Por esse motivo; o Projeto Genoma Humano está seqüenciando, isto é, transcrevendo, na ordem certa, todas as moléculas existentes no código genético, decifrando os genes que regem a vida, ajudando a dissecar os mecanismos que comandam o funcionamento do corpo humano. Estima-se que 10% dos genes já estão totalmente seqüenciados, mas os 90% restantes constituem trabalho para os próximos anos. A partir da conclusão do seqüenciamento de todo o material genético humano, prevê-se que vai ser possível, entre outros avanços, saber qual é o gene que provoca certa doença e, por conseqüência, diagnosticá-la com mais facilidade, tornar mais simples a produção de drogas para combatê-la ou mesmo prever a probabilidade de uma pessoa adquiri-la. A expectativa é de que o conhecimento pormenorizado do material genético dará ao homem respostas para vários mistérios que cercam a vida humana, uma espécie de "tabela periódica" da vida. SONHO DA CURA DO CÂNCER PODE SE REALIZAR Se nos últimos 50 anos a ciência médica deu ao mundo um grande salto no combate ao câncer - ao desenvolver e aprimorar a quimioterapia, um dos principais métodos de tratamento da doença -, o planeta chega ao terceiro milênio bem próximo do sonho de chegar à prevenção e, possivelmente, à cura dessa doença cirônico-degenerativa que todos os anos atinge 9 milhões de pessoas no mundo e mata cerca de 5 milhões (mais de 100 mil delas só no Brasil), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A luz no fim do túnel vem de um dos projetos em desenvolvimento na área do seqüenciamento do genoma humano, que tem a participação fundamental de aproximadamente 20 pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e de outros 130 no Estado de São Paulo, no caso do Brasil. Trata-se do Projeto Genoma do Câncer, uma etapa de cooperação científica internacional que pretende identificar e seqüenciar os genes responsáveis pelos tumores mais freqüentes, já que a doença é causada por alterações genéticas que incluem mutações de DNA. O estudo é o que há de mais avançado hoje no mundo contra o câncer. A promessa é de que o conhecimento sobre os genes presentes nos rumores vai abrir perspectivas revolucionárias, contribuir de forma relevante para a elucidação da doença, suas causas e fatores genéticos a ela relacionados, prevenção, diagnóstico precoce e até na produção de novas drogas no combate ao mal. No Brasil, o trabalho começou a ser desenvolvido em março de 1999, em São Paulo, a partir de um projeto financiado pelo Instituto Ludwig de Pesquisas Sobre o Câncer, coordenado pelo pesquisador e bioquímico Andrew Simpson, em parceria com a Fundação de Amparo às Pesquisas do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto surgiu após o sucesso do seqüenciamento do genoma da Xyllela fastidiosa, bactéria causadora da Clorose Variegada de Citros, praga conhecida como "amarelinho" e que ataca as lavouras cítricas. A conclusão do seqüenciamento da Xyllela, considerado um dos maiores feitos da ciência em toda a história do País, levou ambas as instituições a ampliarem os estudos sobre o genoma e investir US$ 10 milhões para decifrar, desta vez, seqüências de genes humanos ligados ao câncer e construir, com elas, uma base de dados pública. Os pesquisadores buscam o material genético a ser analisado nos tumores de cânceres mais importantes do ponto de vista científico no Brasil. Cinco centros de pesquisa, que juntos somam quase 30 laboratórios, e mais o Instituto Ludwig, estão envolvidos no Projeto Genoma do Câncer no Brasil. Só na Unicamp, atuam pesquisadores ligados ao Hemocentro (que coordena os estudos na universidade), ao Departamento de Genética, Departamento de Patologia Clínica, Instituto de Biologia, além da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba. Laboratórios na Universidade de São Paulo (USP), da USP de Ribeirão Preto, do Instituto de Química da USP e da Universidade Federal Paulista (Unifesp) completam o projeto. Em cada centro de pesquisa há subgrupos nas áreas médica e biológica. Inicialmente, a meta do projeto da Fapesp e do Ludwig era identificar 500 mil seqüências de genes ligados aos tumores até o ano 2001. Mas, o projeto caminha tão bem que mais de 300 mil seqüências já foram concluídas, praticamente um ano antes do prazo, e os idealizadores já dobraram sua meta. A BUSCA DA SEQUÊNCIA DO GENE Segundo explica o professor de Hematologia e coordenador do projeto na Unicamp, Fernando Ferreira Costa, o seqüenciamento foi iniciado na universidade em meados de junho do ano passado, mas com uma evolução em relação ao seqüenciamento convencional desenvolvido em outras partes do mundo. Enquanto no exterior a corrida é para seqüenciar todo o DNA humano (com seus 97% de áreas que, teoricamente, não codificam nenhum gene, o chamado "lixo" da evolução do genoma humano), no Brasil busca-se identificar e seqüenciar apenas o gene, aquele que é o verdadeiro responsável pelas proteínas que comandam as funções do organismo. O coordenador do Instituto Ludwig. Andrew Simpson, criou uma estratégia nova, batizada de Orestes (sigla, em inglês, de Open Reading Frames EST Sequences), que vai seqüenciar apenas a parte do gene responsável pela codificação das proteínas, o RNA. "Sabe-se que apenas 3% do DNA são genes que dão origem a proteínas que formam tecidos, como ossos, coração e outros órgãos", prossegue Fernando Costa. "Cada gene origina um RNA mensageiro, que por sua vez codifica uma proteína. Essas proteínas variam de acordo com sua função, de acordo com o tecido para qual ela foi criada. Tecidos diferentes têm quantidades diferentes de RNA, proteínas distintas. O Orestes é importante porque permite seqüenciar o meio do RNA, então sabe-se que é parte do gene. Isso é importante porque concentramos nosso trabalho num pedaço do DNA (o RNA) que sabemos que é gene", explica o coordenador do projeto na Unicamp. Simplificando, enquanto no exterior busca-se o DNA completo, independente dos genes e dos não-genes, no Brasil o estudo é todo voltado exclusivamente aos genes presentes nos tumores. Costa diz que a idéia é comparar os genes de tumores prevalentes no Brasil: cânceres de mama, cólon, estômago, boca, cabeça e pescoço. "Podemos localizar, por exemplo, genes em maior ou menos quantidade num determinado tipo de tumor. Se conseguirmos uma forma de bloquear esses genes com defeito, podemos buscar uma forma de tratar o tumor ou mesmo fazer um diagnóstico certo", avalia Costa. Ele ressalta, porém, que ainda é preciso muito estudo em cima dos genes "O seqüenciamento do genoma humano é muito importante, mas não é a solução", frisa. "Ainda vai levar um tempo para sabermos exata-mente a função dos genes", conclui.